Falta de dinheiro, câncer e luto: histórias de pessoas que estão tentando se livrar do cigarro

Caio Nascimento* - O Estado de S.Paulo

Neste Dia Mundial sem Tabaco, seis usuários relatam como é a luta contra o vício; médico recomenda ajuda psicológica para lidar com a abstinência

Cada cigarro possui cerca de 4.720 substâncias nocivas. Uma delas é o alcatrão, resíduo altamente tóxico, cancerígeno e de cor preta, que deixa o pulmão escuro.

Cada cigarro possui cerca de 4.720 substâncias nocivas. Uma delas é o alcatrão, resíduo altamente tóxico, cancerígeno e de cor preta, que deixa o pulmão escuro. Foto: Pixabay

Era 1999 quando um acidente matou o marido de Rose Lima, de 51 anos. Viúva e com uma filha pequena para criar, a mulher, que estava há quase um ano sem o vício, teve uma recaída e passou a fumar dois maços por dia. A relação dela com o tabaco vinha desde a adolescência, quando se reunia com amigas para usar a substância por achar "glamouroso".

Seis anos depois da tragédia, Rose largou a droga novamente e se mantém assim até hoje, mesmo com dificuldades. "É comum eu terminar uma refeição e pensar: 'se eu tivesse um cigarro aqui seria bom. Eu procuro até no carro às vezes. Luto contra isso diariamente e sofro muito", diz ela, que nunca procurou profissionais ou remédios para lidar com a angústia.

De acordo com o cardiologista e professor do curso de medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Iran Gonçalves, a melhor forma de amenizar essa abstinência é buscar ajuda psicológica ou grupos de apoio. "Não é só uma questão de medicamentos e substituições, mas de comportamento. Parar de fumar é um processo de idas e vindas, então deve-se ter em mente que é possível falhar na primeira ou na segunda tentativa, mas o importante é continuar tentando", explica.

Apesar da falta de suporte, a decisão de Rose a tirou de uma triste estatística da saúde no Brasil: em 2015, quase 35 mil famílias perderam parentes por conta de mortes causadas pelo uso de tabaco em todo o País. O problema se agrava ainda mais ao olhar para os dados da Organização Mundial da Saúde (OMS): produtos com a substância matam seis a cada dez consumidores, e sete milhões de óbitos são registrados por ano no mundo devido ao vício.

O alto número de óbitos não vem à toa: o tabaco pode ser responsável por cânceres na laringe (cordas vocais), faringe (pescoço), fígado, estômago, bexiga, rins e leucemia mielóide aguda, além de nove a cada dez tipos de cânceres de pulmão.

Fumantes e ex-fumantes de 55 a 80 anos, que consumiram no mínimo um maço por dia no período de 30 anos, devem fazer rastreamento anual de câncer de pulmão com tomografia computadorizada de tórax.

Fumantes e ex-fumantes de 55 a 80 anos, que consumiram no mínimo um maço por dia no período de 30 anos, devem fazer rastreamento anual de câncer de pulmão com tomografia computadorizada de tórax. Foto: Pixabay

Iran Gonçalves, que é chefe do pronto-socorro de cardiologia do Hospital São Paulo, afirma que a maioria dos pacientes que dão entrada na unidade com enfarte, hipertensão e insuficiência cardíaca declara que fuma. "O tabaco deixa a pessoa intoxicada. O dióxido de carbono do cigarro se liga com o oxigênio das hemácias e a pessoa ganha menos oxigenação. Então, no limite [de sobrevivência], a pessoa está se asfixiando", analisa.

Segundo ele, esse dano faz com que os glóbulos vermelhos não levem de forma correta o oxigênio para o coração, o que aumenta a quantidade de coágulos nos vasos sanguíneos, causando enfarte, derrame e a obstrução da passagem de sangue para órgãos do corpo.

Todos esses problemas são ignorados por muitos fumantes, mas uma parcela deles tem ganhado consciência e tentado mudar de vida como Rose - mesmo que a duras penas. "Eu penso em dar só um trago de vez em quando, mas eu sei que não existe isso. Se eu pegar um cigarro, eu volto de vez… então eu desisto", diz a mulher.

Diante dessa realidade, o E+ conversou com outras cinco pessoas que estão largando o vício. Cada uma delas carrega consigo sentimentos, vitórias e derrotas que enfrenta. Em apenas um ano, o gasto de todos eles juntos com cigarro no auge do vício - seguindo a quantidade de maços falada por cada um - equivale a R$ 11,3 mil. A estimativa se baseia no preço médio de uma cartela, estimado em R$ 9. Leia abaixo as histórias.

O câncer da mãe a fez repensar a vida

Maria Luísa, de 21 anos, começou a tragar aos 14 anos, mas já era uma fumante passiva desde pequena devido ao fato do seu pai fumar. Ela recorda que gostava do cheiro do tabaco nas roupas dele. Assim, a curiosidade em experimentar a viciou ao ponto de consumir cerca de 15 cartelas por mês, ou seja, cerca de 300 cigarros.

O problema se estendeu por sete anos, até que sua mãe contraiu câncer de mama, metástase nos ossos (formações de lesões tumorais a partir de outras) e a vida começou a ganhar um novo sentido. "Quando fui visitá-la [em sua casa], me dei conta da gravidade do que eu estava fazendo com o meu corpo e decidi parar", recorda ela, cuja mãe também é fumante.

A jovem está sem usar a droga há dois meses e teve três recaídas nesse período: duas por estresse e uma por estar bebendo e sentir vontade de fumar. "As abstinências que sinto são relacionadas ao cheiro. Sinto-me ansiosa, minha boca saliva e os músculos enrijecem", conta.

A estratégia de Maria Luísa para isso foi substituir o tabaco pelo cigarro de camomila, mas também diminuiu o uso da erva medicinal para não cultivar outro vício. "Hoje em dia, eu a fumo quando estou muito estressada, e isso me acalma bastante", relata.

Nestes dois últimos meses, ela já percebe diferenças na qualidade de vida: "sinto minha respiração muito melhor que antes, subo escadas tranquilamente e faço longas caminhadas sem problemas."

'Me tornei uma tabagista pesada…'

"... Mas acho que eu não chegaria a tanto se não existissem cigarros saborizados. Eles são a porta de entrada da maioria dos fumantes". Essa é a opinião de Tainah Medeiros, de 30 anos, ao falar do seu vício.  "Comecei com um cigarrinho na balada [em 2012], aí passei a fumar em todos os 'rolês' que envolviam bebida", recorda.

Ela calcula que consumia cerca de 600 cigarros por mês, mas recentemente começou a se incomodar com o cheiro do tabaco e está há 17 dias sem fumá-lo. Diferente de Maria Luísa, Tainah buscou apoio da psicanálise e está usando adesivos e o remédio bupropiona, sob recomendação médica.

"Faço terapia uma vez por semana e isso me ajuda. Discuto com a minha psicanalista quais são os gatilhos emocionais que me faziam fumar e o que estava por trás deles", explica. "Tento compreender os sentimentos que estavam em torno da minha dependência, que, além de química, era emocional", completa.

Um dos componentes químicos do cigarro é o acetado de chumbo, que acumula no organismo e jamais é eliminado; depois de anos de consumo, pode prejudicar o cérebro.

Um dos componentes químicos do cigarro é o acetado de chumbo, que acumula no organismo e jamais é eliminado; depois de anos de consumo, pode prejudicar o cérebro. Foto: Pixabay

Para se manter longe do tabaco, Tainah bebe muita água, frequenta lugares nos quais é proibido fumar e ocupa a cabeça com diferentes assuntos. Além disso, ela masca chiclete para aliviar o estresse e estipulou que em seis meses quer largar o vício. "Comecei achando que ia fracassar logo de cara, mas já usaram cigarro na minha frente e nem fiquei com vontade. É uma evolução absurda", comemora. "Aliás, o fracasso é um fantasma que percorre todos os usuários, mas não podemos pensar assim. Um dia sem fumar já é uma vitória", afirma.

Ajuda psicológica nem sempre é algo acessível devido aos valores da consulta. No entanto, o Parque do Ibirapuera, em São Paulo, oferece atendimento gratuito em todos os últimos domingos de cada mês (veja aqui).

'Quando voltar a ter dinheiro, a situação pode ser diferente'

Filipe Azevedo, de 21 anos, usava cigarro durante a entrevista. Ele fuma há quatro anos e um dos motivos para querer largar a droga é a vontade de fazer exercícios, já que sua respiração é fraca e prejudica seu desempenho. "Comecei a fumar aos poucos. Minha namorada usava e passei a acompanhá-la",  recorda.

Até pouco tempo, o jovem costumava fumar um maço por dia, o que dava cerca de 600 cigarros ao mês. No entanto, está diminuindo o uso e hoje consome a droga apenas depois de almoçar, antes de entrar no trabalho ou quando sai para algum evento. Ele não usa remédios e não faz terapia psicológica, mas está lutando para largar o vício até o fim deste ano.

"É um processo difícil e minha abstinência tem sido relativa. Não fico estressado ou bravo. Só sinto falta de liberar um sentimento no cigarro, mas não é algo que acaba com meu dia", afirma.

A falta de dinheiro é um fator que tem ajudado Azevedo a se controlar. Ele trocou de emprego recentemente e não tem condições de gastar muito com as cartelas de cigarro, que custam em média R$ 9 - o que daria um prejuízo mensal de R$ 270 para ele. "Quando eu voltar a ter dinheiro, a situação pode ser diferente. Mas eu não quero. [Atualmente], quando eu compro, dura quatro dias. É bastante", conta..

De acordo com um levantamento da Forbes sobre o valor do cigarro, feito em setembro de 2018, o Brasil ocupava a 72º posição, dentre os 91 países analisados no período. Por aqui, o produto está custando 2 dólares em média - um dos preços mais baixos de todo o mundo. Enquanto isso, a Austrália figurava no primeiro lugar, com maços em torno de 20 dólares (R$ 78, na cotação atual).

'Quero criar meu filho sem a influência do cigarro'

Kelly Cardoso, de 23 anos, começou a fumar cigarro aos 16 anos e o uso passou a ser um hábito diário. Apesar de ser jovem, ela sente muito cansaço em tarefas cotidianas, como correr para pegar um ônibus ou andar longas distâncias.

"Depois que eu comecei a fumar todos os dias, eu virei outra pessoa. Vivo com problema respiratório", lamenta. "O processo para largar está difícil. Se eu ficar um dia sem tabaco já é um grande avanço, mas se acontecer uma coisa que me deixe nervosa, ansiosa ou estressada, eu vou querer descontar em todos os cigarros possíveis", completa.

Kelly conta ainda que fumava uma cartela por dia (cerca de 600 cigarros por mês), mas colocou como meta uma por semana - o que equivale a uma redução de 87% no consumo. Ela espera parar totalmente em seis meses, sem usar medicamentos e confiando apenas no autocontrole. Na abstinência, a mulher diz se sentir agitada, nervosa, morde os lábios e rói as unhas.

Fumaça do tabaco orgânico é tão prejudicial quanto a do produzido em filtro.

Fumaça do tabaco orgânico é tão prejudicial quanto a do produzido em filtro. Foto: Pixabay

Uma de suas maiores preocupações é o filho de dois anos, que se transformou em um fumante passivo - ou seja, convive com quem fuma. Segundo o médico Iran Gonçalves, pessoas submetidas a isso podem, em menor incidência, contrair câncer ou problemas pulmonares. "Quero que ele cresça sem me ver fumando para que eu não sirva de exemplo. Quero também ter mais fôlego para fazer atividades com ele, já que hoje em dia é difícil", explica Kelly.

Maria trocou o tabaco em filtro pelo orgânico… há riscos?

Maria Deni, de 27 anos, fuma há cinco anos e quer largar esse mal porque treina kickboxing e quer melhorar o desempenho. Ela consumia uma cartela por dia no auge do vício, em 2016. Depois, conseguiu reduzir para um maço a cada três dias, uma queda de 67% no uso.

Apesar da evolução, Maria trocou o tabaco em filtro pelo orgânico neste ano. Apesar de diminuir ainda mais o uso, ela acredita que o produto é menos nocivo que o da grande indústria - o que contradiz a opinião da comunidade médica.

De acordo com o cardiologista Iran Gonçalves, não há diferença entre as duas formas da substância e a pessoa continua em contato com a fumaça que faz mal. "Costumam dizer que o orgânico tem menos química, mas essa informação engana. Se é orgânico, é de pequeno produtor, então nem sempre há controle das autoridades sanitárias", afirma.

O médico expõe que isso pode ser perigoso, uma vez que nem sempre o usuário sabe o quanto de nicotina há na folha do tabaco - o que pode ser pior para a saúde. Tirando esse fato, Maria segue firme na luta contra o vício e tenta se controlar por meio da meditação e o rapé indígena, que é uma medicina sagrada com elementos da natureza para a cura e melhora da qualidade de vida.

*Estagiário sob a supervisão de Charlise Morais