Fala infantilizada dos adultos pode interferir no desenvolvimento da criança; entenda

Camila Tuchlinski - O Estado de S.Paulo

‘Pepeta’, ‘tetê’ ou pronunciar palavras de forma incorreta, hábito comum entre pais, pode prejudicar linguagem e socialização

Pais precisam evitar repetir palavras erradas ditas pelos filhos.

Pais precisam evitar repetir palavras erradas ditas pelos filhos. Foto: Pixabay

O seu filhinho nasce e toda a sorte de coisas infantis invade a sua vida: mordedores, brinquedos e mamadeiras espalhadas pela casa. Você começa a conhecer desenhos como Galinha Pintadinha e Mundo Bita. De repente, se pega contando historinhas e falando como criança, certo?

Porém, especialistas alertam que a fala infantilizada pode interferir no desenvolvimento da criança.

Alguns adultos não conseguem resistir à fofura dos filhos e acabam repetindo palavras que são ditas de forma errada por eles.

Exemplos clássicos são: o famoso “trocar o r pelo l”, “pepeta” ao invés de “chupeta”, “tetê” no lugar da “mamadeira”. Falar de maneira infantilizada, usando um tom de voz terno e pronunciando palavras de forma incorreta, é um hábito conhecido mundialmente como “baby talk”.

Há quem diga que essa “linguagem de bebê” pode ser benéfica na relação entre pais e filhos, transmitindo afeto e segurança à criança. Porém, profissionais advertem que alguns cuidados devem ser tomados. 

“A medida que a criança começa a estabelecer vínculos com outras pessoas, em outros espaços, essa fala infantilizada pode prejudicar, inclusive, os seus relacionamentos. Então, os pais precisam discernir que, quando a criança está se apropriando da oralidade, eles devem passar a falar de forma correta, para que o filho se aproprie do vocabulário de maneira adequada”, avalia Rita Schane, especialista em pareceres pedagógicos do Sistema de Ensino Aprende Brasil.

A psicóloga infantil Tauane Gehm vai além e destaca a importância do papel dos mais velhos nesse processo de desenvolvimento. “Conforme o bebê/criança cresce e seus recursos para lidar com o mundo se expandem, é importante que a fala do adulto acompanhe esse processo de amadurecimento e se torne compatível com o desenvolvimento da criança. Os adultos e as crianças mais velhas têm, inclusive, o papel de socializar o bebê, dando modelos e feedbacks relacionados a comportamentos linguísticos adequados à comunidade em que estão inseridos”, analisa.

Por que os adultos não resistem à fala infantilizada?

Agir sem pensar ou não refletir sobre os comportamentos pode ser natural em uma relação familiar. No entanto, é preciso destrinchar a questão e tentar descobrir o que há por trás da fala infantilizada dos adultos. 

Para muitos pais, criar um filho é ter que lidar com uma sensação constante de luto - considerando que o bebê e a criança mudam muito em períodos curtos, os pais precisam lidar com o fato de que estão sempre se despedindo do filho que até então tiveram para ter que se adaptar ao filho transformado por novas habilidades e questões. 

“O desenvolvimento, assim, pode gerar sensações ambivalentes, de orgulho e admiração de um lado, mas de saudade e sofrimento de outro. Se, por um lado, é normal e esperado que os pais vivam esses sentimentos, por outro, devemos estar atentos à forma como eles lidam com os mesmos”, analisa Tauane Gehm. 

A psicóloga ressalta que, se os pais apresentam dificuldades muito grandes de lidar com o crescimento da criança, é possível que isso dificulte também o desenvolvimento infantil. “Para muitos pais, pode ser interessante reservar um tempo para olhar para si, perceber e nomear os sentimentos que estão sendo vivenciados e conversar sobre eles com pessoas que estejam passando pelo mesmo processo”, diz. 

Em alguns casos, o “baby talk” é sintoma de uma família que tem dificuldades de lidar com o fato de que a criança está crescendo.

“Tal dificuldade familiar está frequentemente associada a prejuízos, para a criança, na construção da autoestima, da autoconfiança e da autonomia. Quando, por outro lado, a criança é empoderada no que se refere às suas capacidades de comunicação, observamos, com frequência, ganhos nessas esferas”, sinaliza a psicóloga Tauane Gehm.

Adultos e crianças mais velhas também têm a função de ajudar a socialização dos bebês.

Adultos e crianças mais velhas também têm a função de ajudar a socialização dos bebês. Foto: Pixabay

O que acontece se eu falar de maneira errada com a criança?

Se seu filho falar de forma errada e você achar “engraçadinho” e reagir de forma positiva, a possibilidade de ele acreditar que agiu corretamente é enorme. 

“Quando uma criança fala de forma errada e, sistematicamente, os pais/cuidadores apresentam reações de fofura e afeto dirigidos ao erro, pode ocorrer uma falha na estimulação de formas mais adequadas de expressão linguística, ao mesmo tempo que um incentivo de formas inadequadas de expressão. Muitas vezes, inclusive, essas formas inadequadas de expressão são mantidas porque as crianças aprendem, de forma não consciente, que pronunciar a palavra de forma errada vai gerar reações positivas de afeto nos pais/cuidadores”, afirma Tauane Gehm.

Conversar com bebês é a melhor maneira de incentivar desenvolvimento da linguagem.

Dicas para pais e adultos em relação à linguagem infantil

Com essas questões todas colocadas, como é possível manter o afeto familiar e, ao mesmo tempo, incentivar o bom desenvolvimento da comunicação com a criança?

O processo de desenvolvimento da fala é específico para cada criança, com ritmo e tempo distintos. Então, os pais não devem, imediatamente, se preocupar com a demora ou com erros ao longo do caminho. 

A pedagoga Rita Schane, especialista em pareceres pedagógicos do Sistema de Ensino Aprende Brasil, explica que, mesmo quando a criança já está saindo da Educação Infantil com o repertório bem organizado, podem acontecer algumas trocas na hora da fala, como “plato” em vez de “prato”, ou “vrido” em vez de “vidro”. 

“Isso é natural porque ela está construindo e desenvolvendo a linguagem. Esses erros são questões fonoaudiológicas que, muito provavelmente, serão corrigidos com o tempo”, acrescenta.

Já a psicóloga Tauane Gehm destaca a importância de interagir com a criança de forma compatível com o repertório que ela é capaz de apresentar, valorizando suas conquistas e autonomia. “Em alguns casos, é salutar consultar também um profissional da saúde especializado, que pode ser um fonoaudiólogo, um psicólogo, ou mesmo o pediatra de referência. Isso será, sobretudo, importante caso a criança apresente dificuldades em relação à produção de alguns fonemas, ou se a fala infantilizada estiver acarretando sofrimento e/ou prejuízos sociais e emocionais”, pondera.

Para os adultos especialmente, uma boa estratégia é ingressar em um processo de psicoterapia pessoal ou de orientação parental.