'Existe uma visão mecanicista do atleta, um reprodutor de movimentos', avalia psicólogo do esporte

Camila Tuchlinski - O Estado de S.Paulo

Em entrevista ao 'Estadão', Gilsom de Castro Maia fala sobre a importância do olhar biopsicossocial 

Simone Biles e seus movimentos firmes, que levam o corpo ao máximo grau de flexibilidade

Simone Biles e seus movimentos firmes, que levam o corpo ao máximo grau de flexibilidade Foto: AFP

Nesta semana, o mundo parou para discutir sobre saúde mental nos jogos olímpicos de Tóquio. Isso porque uma das ginastas de maior referência da atualidade, a americana Simone Biles, deixou a competição na reta final e alegou que estava em sofrimento emocional.

Desde a infância, ela foi diagnosticada com Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e decidiu escancarar à todos o que estava sentindo prestes a entrar em ação na Olimpíada de Tóquio. "Assim que eu piso no tablado, sou só eu e a minha cabeça, lidando com demônios. Tenho de fazer o que é certo para mim e me concentrar na minha saúde mental e não prejudicar meu bem-estar. Há vida além da ginástica", disse Biles. 

A atitude da ginasta recebeu diversas críticas, mas elogios também, sobretudo de quem a admira e que sofre com a saúde mental. Atualmente, todos nós nos sentimos pressionados, sobrecarregados e uma hora a conta chega. Lidar com o estresse e buscar apoio de profissionais como psicólogos e psiquiatras se faz necessário.

"E veja que com toda a estrutura que os EUA têm as questões emocionais dos atletas ainda são colocadas em segundo plano. Mas como a cultura de somente cuidar da parte física, tática e técnica é forte, atletas mesmo sabendo que estão sofrendo emocionalmente não tomam a iniciativa de procurar de forma particular psicólogos e ficam na espera do clube e terceirizam sua saúde e responsabilizam o clube", avalia o psicólogo do esporte Gilsom de Castro Maia.

Em situações como a de Simone Biles, em que atletas de alto rendimento são alvos de exigências de técnicos, torcida e fãs, como cuidar da saúde mental e abrir mão, por vezes, de anos de treinos e dedicação? Quais são os sacrifícios que os atletas enfrentam? 

Para responder a esta e outras perguntas, nós entrevistamos o psicólogo do esporte Gilsom de Castro Maia, que atua nas equipes Herkules handebol, em Guarulhos, na Grande São Paulo, na liga Pentecoste de handebol, no Ceará, na equipe paulista UFPEL, no Rio Grande do Sul, e na equipe handebol Itajai, em Santa Catarina. Confira:

- Qual é a pressão psicológica que os atletas de alto rendimento sofrem? Poderia nos explicar um pouco sobre isso?

Os técnicos precisam começar a olhar o atleta como um ser biopsicossocial, que sofre interações dessas três esferas e que todas precisam estar em equilíbrio para a promoção de uma saúde emocional. O que acontece é que existe uma visão mecanicista do atleta, um simples autômato reprodutor de movimentos. Esquecem que antes do movimento acontecer o atleta pensa, que entra em contato com emoções e sentimentos que podem comprometer seu rendimento.

Entender também que o atleta, em seu estado de homeostase, libera neurotransmissores e hormônios que promovem o seu equilíbrio emocional e cognitivo, mas que, ao passar por fatores estressantes (distress), essa liberação de hormônios e neurotransmissores entram em desequilíbrio e promovem a aumento de quadros de excessivos de ansiedade, sintomas depressivo que podem levar o paciente a quadros fóbicos e a depressão.

- O que leva o atleta ao sofrimento emocional?

Diversos fatores. Podemos começar pela pressão familiar (relação com pais tóxicos) talvez, desde o início da sua vida esportiva, promovendo quadro de Burnout, desenvolvendo sintomas de autoflagelação (borderline), doenças psíquicas como ansiedade e depressão, bulimia e anorexia. Depois vem sua vida de atleta, treinos diários, duas a três vezes por dia, três ou quatro vezes por semana, afastando-o da vida social, promovendo uma sensação de solidão (corroborada também pela ausência dos pais - vide atletas que sofrem abusos sexuais e os pais não dão espaço de fala e não acreditam nos filhos). 

A relação com os técnicos que desenvolveram um olhar mecanicista e desconsideram o sofrimento emocional do atleta. E as pressões dos patrocinadores, das redes sociais e a auto cobrança excessiva do atleta em performar sempre, não aceitando as derrotas e nem as vitórias. Sim, precisa ser trabalhado quando o atleta ganha uma medalha olímpica pois, nessa hora, a sociedade joga todas as expectativas nele e, se não estiver sendo acompanhado por um psicólogo, pode se perder emocionalmente. Muitos depois de suas vitórias começam a fazer uso de drogas para sentirem a euforia do momento sempre.

- Atletas de alto rendimento sofrem muitas pressões psicológicas. Qual avaliação faz sobre a saída de Simone Biles, que desistiu de um sonho em detrimento da saúde mental?

Não tenho dúvida que talvez para ela tenha sido difícil, e é importante falar o "talvez", porque não sabemos o que passou na cabeça dela. Mas, se formos avaliar o comportamento dela depois da desistência, vemos uma atleta com semblante leve, se divertindo com a participação das colegas de equipe, então, posso levantar a hipótese que essa foi a melhor escolha que ela fez. Nem sempre as melhores escolhas são as que nos trazem menos sofrimento.

Vejo essa atitude dela, também, como muito corajosa, pois assumir que está sofrendo emocionalmente para você mesmo já é difícil, agora assumir para o mundo, precisa de muita coragem. Podemos aventar ela apresentou recursos ou habilidades emocionais de reconhecer seus limites emocionais, fez uso de recursos cognitivos como tomada de decisão e controle inibitório, que nesse momento sua saúde emocional era mais importante que os físicos e técnicos.

- Talvez seja importante trabalhar as questões emocionais dos atletas desde a infância... 

Eu particularmente trabalho com as categorias de base e faço uso de técnicas da psicoeducação das emoções e dos recursos emocionais. Trabalho com atletas desde a categoria mirim com Mindfulness como recurso para redução de ansiedade, melhoria atencional, neuropalsticidade, flexibilidade cognitiva. Também trabalho com recursos da neurociência (neuropsicofisiologia), melhorando e desenvolvendo recursos cognitivos como atenção, tomada de decisão, controle inibitório, planejamento estratégico, velocidade de reação, concentração e outros.

Podemos usar essas ferramentas e técnicas tanto no esporte, quanto nas empresas e nos pacientes de consultório que chegam apresentando demandas similares. Utilizo recursos como neuro e biofeedback, óculos de realidade virtual, jogos e aplicativos de jogos on-line.