Estudo revela que 73% das ONGs terão diminuição de recursos este ano por causa da pandemia

Camila Tuchlinski - O Estado de S.Paulo

No entanto, mais de 80% delas mantêm ações no combate ao novo coronavírus; saiba mais

ONGs já preevem dificuldades financeiras no pós-pandemia de covid-19

ONGs já preevem dificuldades financeiras no pós-pandemia de covid-19 Foto: Pixabay

Um estudo inédito revela que uma em cada cinco organizações da sociedade civil, ou seja, ONGs, institutos, fundações ou coletivos, já declara estar sem fundos para continuar suas atividades. Elas foram atingidas em cheio pela pandemia do novo coronavírus

Apesar das restrições, 87% delas estão oferecendo atendimento às populações afetadas pela covid-19.

Para entender melhor esse cenário e os impactos da covid-19 nas OSCs brasileiras, 1.760 representantes de organizações em todas as regiões do País responderam a um formulário no período entre 18 e 31 de maio de 2020.

O estudo combinou a metodologia quantitativa, por meio de questionário online enviado por email e divulgado amplamente nas redes sociais, com 15 entrevistas qualitativas para aprofundar a compreensão dos dados. 
O levantamento foi coordenado pelas consultorias Mobiliza e Reos Partners e cofinanciado pela Fundação Tide Setúbal, Fundação Laudes, Instituto ACP, Instituto Humanize, Instituto Ibirapitanga, Instituto Sabin e Ambev. A iniciativa conta ainda com parceria técnica da Move Social e um Comitê Estratégico voluntário, que apoia as articulações do projeto e na análise dos dados, formado por ABCR, Arredondar, GIFE, Instituto Filantropia, Move Social, Nossa Causa, Ponte a Ponte, Prosas e Rede de Filantropia pela Justiça Social. Também voluntária, a Because faz a identidade visual e os materiais de comunicação.

“A ideia do estudo surgiu porque começamos a perceber um cenário paradoxal: por um lado, as OSCs, estratégicas no combate aos problemas sociais e ambientais brasileiros, passaram a ser ainda mais relevantes para atenuar os efeitos da covid-19 nas populações mais afetadas. Por outro lado, identificamos que a sustentabilidade das OSCs, já frágil em momentos normais, vai piorar com os efeitos da pandemia, justamente quando mais precisaremos dela”, afirma Rodrigo Alvarez, diretor da Mobiliza e um dos idealizadores e coordenadores do estudo.

Das instituições ouvidas, 87% relataram ter todas ou parte de suas atividades principais interrompidas ou suspensas por causa da crise. Ainda segundo o estudo, 73% das OSCs relatam que a crise as enfraqueceu muito (36%) ou parcialmente (37%).

E mesmo com as restrições financeiras, até o final do ano, a grande maioria das organizações prevê continuar as atividades. No combate ao coronavírus, 58% das ações estão relacionadas à distribuição de alimentos e produtos de higiene para públicos que já eram atendidos. Com o fim da pandemia, 59% das organizações acreditam que a demanda por seus serviços deve aumentar.

“Se nada mudar, o cenário para os próximos dois, três anos para as OSCs será muito difícil, pois elas estarão lidando com demanda aumentada e diminuição de recursos. É necessário neste momento repensar as alternativas de financiamento do trabalho dessas OSCs, se quisermos preservar esse enorme capital social que o País construiu desde a redemocratização, na década de 80”, enfatiza Fernando Rossetti, responsável pela pesquisa na Reos Partners.

Saiba como fazer doação para ajudar no combate ao novo coronavírus.

Entre os impactos negativos da pandemia, além da diminuição da captação de recursos (73%), os representantes de instituições também indicaram o distanciamento e dificuldade de comunicação com os públicos atendidos (55%), a diminuição de voluntários ativos (44%) e o estresse e sobrecarga das equipes (40%) como principais pontos.

A pesquisa também perguntou quais foram os impactos positivos da crise: 53% responderam que tiveram aceleração do uso de ferramentas digitais para o trabalho e 40% indicaram mais engajamento e envolvimento da equipe.

Apesar do cenário complexo, 42% dos respondentes esperam que a cultura de doação deva crescer no país, mas com foco em assistência social e saúde e apenas 6% dos respondentes indica uma tendência de encerrar as atividades até o final do ano, o que demonstra um otimismo por parte das OSCs.

Para se manterem, as necessidades principais indicadas pelos representantes são recursos para manter seus custos operacionais (69%) e engajamento da sociedade para manter e apoiar suas ações (46%).