Entenda o que o uso constante do GPS faz com o cérebro

Luiza Pollo - O Estado de S.Paulo

Estudo da University College London prova que decidir os caminhos sozinho ativa áreas importantes para a memória

Os taxistas de Londres têm o hipocampo (conhecido como 'GPS do cérebro') mais desenvolvido do que o comum. Isso porque eles precisam conhecer muito bem as ruas da cidade e inclusive passar em um teste para exercer a profissão.

Os taxistas de Londres têm o hipocampo (conhecido como 'GPS do cérebro') mais desenvolvido do que o comum. Isso porque eles precisam conhecer muito bem as ruas da cidade e inclusive passar em um teste para exercer a profissão. Foto: Pixabay

Você é do tipo que usa o GPS até para fazer o caminho de casa para o trabalho todos os dias? Então saiba que pode estar perdendo boas oportunidades de exercitar o cérebro e treinar a memória. 

Um estudo da University College London publicada na Nature confirmou o que muita gente imaginava: partes do cérebro - como o hipocampo e o córtex pré-frontal, que são responsáveis pela memória, planejamento e tomada de decisões - são ativadas quando escolhemos um caminho. Com a ajuda do GPS, elas não trabalham. “Não é que você será prejudicado [se usar o GPS], mas os estudos comprovam que é possível que você deixe de ter um ganho”, explica Emanuelle Roberta da Silva Aquino, professora de Neurologia do Centro Universitário São Camilo.

A pesquisa envolveu 24 voluntários, que precisavam decidir, durante uma simulação, qual caminho tomar em uma região de ruas ‘confusas’ de Londres. A atividade cerebral deles foi monitorada e os resultados comprovam que, quando o mapeamento era feito ‘de cabeça’, o hipocampo (conhecido como o ‘GPS do cérebro’) e o córtex pré-frontal tinham picos de atividade. Isso era ainda mais intenso quando aumentava o número de opções de caminho. Nenhuma atividade adicional foi detectada quando os participantes usaram GPS.

‘Vício’. Pode ser difícil se livrar dos aplicativos de localização ou satélite, já que, além de ajudar na localização, eles costumam ter diversas outras funções, como avisar sobre o trânsito e alertar sobre limites de velocidade. Se for muito difícil deixá-los de lado, a professora explica que há outras formas de exercitar as áreas do cérebro que ‘descansam’ quando usamos o GPS. “Há algumas sugestões para manter as habilidades de senso de direção e a memória ativas. Ler bastante, fazer exercícios mentais como palavras cruzadas e praticar exercícios físicos são alguns exemplos”, afirma Emanuelle. 

Além do GPS, os aplicativos e as redes sociais que nos ajudam a lembrar de datas, como aniversários, ou mantêm anotações que antes ficavam na cabeça ou em pedaços de papel, também nos privam de oportunidades de treinar o cérebro. A especialista alerta que a tecnologia facilita a vida, mas que não devemos esquecer de manter a cabeça em exercício.

Taxistas. Um estudo feito também pela University College London que teve bastante repercussão, inclusive na Scientific American, mostrou que os taxistas da cidade têm o hipocampo maior e mais desenvolvido do que o normal. Isso porque os motoristas dos emblemáticos carros pretos precisam comprovar - em uma prova mesmo - seus conhecimentos sobre as (aproximadamente) 25 mil ruas da cidade e os pontos turísticos. Segundo uma reportagem publicada na Wired, os profissionais costumam fazer o teste 12 vezes antes de passar.