Embaixadoras da autoestima na web, blogueiras promovem pluralidade e aceitação

JÉSSICA DÍEZ CORRÊA - ESPECIAL PARA O ESTADO DE S. PAULO

Conheça as personalidades da internet que lutam para fomentar a autoconfiança nas mulheres

Paola, Ju e Nath inspiram a representatividade na internet

Paola, Ju e Nath inspiram a representatividade na internet Foto: Instagram/@paola_antonini | Instagram/@ju_romano | Instagram/nathaliebarros

A busca pela perfeição na internet pode trazer danos. Um estudo da Royal Society for Public Health afirma que o Instagram é considerado a rede que mais afeta negativamente a saúde mental dos jovens.  Foram analisados fatores como imagem corporal, bullying, ansiedade, solidão, autoexpressão e autoidentidade.

A psicóloga clínica Pamela Magalhães acredita que a cobrança na web existe. "O que vai variar é como eu consigo me portar respeitando aquilo que eu sou, e não escravizada a ser da maneira que eu imagino que as pessoas queiram ver". Ela afirma que uma maneira de contornar os efeitos negativos que o espaço online pode trazer aos usuários é exercitar a percepção e a aceitação de si próprio. Ou seja, fortalecer a autoestima.

Erroneamente associada à vaidade e atributos físicos, a autoestima, segundo Pamela, "é o quanto de carinho eu guardo pra mim, como eu trato cada pedaço meu". Ela ressalta que se gostar é um ato que traz reflexos em todos os aspectos da vida, pois quem tem boa autoestima faz escolhas construtivas que alimentam ciclos positivos. Por outro lado, segundo a psicóloga, aqueles com problemas de autoestima não fazem boas escolhas por não se julgarem merecedores delas.

Nos últimos anos, no entanto, a internet vem se adaptando. De acordo com o estudo YouTube Insights 2017, as buscas por cuidados com cabelos cacheados na plataforma de vídeos cresceu 24% em relação ao ano passado. Já o termo "moda plus size" teve 78% de aumento de procura.

Atualmente um movimento de mulheres poderosas tem por objetivo promover a confiança e a autoaceitação com vídeos e fotos que remetam à vida como ela é, sem truques e retoques para atingir qualquer padrão. A ideia é justamente se contrapor à leva de perfis que ilustram uma rotina plastificada, glamourosa e, portanto, irreal, nas redes sociais.

Conheça as personalidades da internet que lutam para promover a aceitação:

A blogueira Juliana Romano

A blogueira Juliana Romano Foto: Instagram/@ju_romano

Ju Romano

A jornalista paulistana Juliana Romano, de 29 anos, começou a publicar seus textos na internet em 2008 pois não encontrava exemplos de representatividade na mídia da época. "Comecei a perceber que todos os exemplos de mulher bem sucedida que eu tinha eram de mulheres altas, magras e que faziam parte do padrão europeu". Quando a palavra plus size ainda nem existia no País, a garota resolveu criar um blog para falar de corpo, autoestima e moda - "mas não de modo a aprisionar a mulher e sim libertá-la" -.

Hoje, com mais de 180 mil seguidores no Instagram, Ju tem uma lista de conquistas extensa. Em 2015 a blogueira saiu na capa da Elle Brasil nua e sem retoques. "Eu sempre lutei para que tivesse uma gorda na capa dessas revistas, mas nunca achei que ia ser eu. Foi como fechar um ciclo. Eu ganhei a batalha que tinha começado lá atrás". Além disso, saiu nas páginas da Playboy, na seção 'Mulheres que amamos'.

Quando perguntada sobre a importância da representatividade nos veículos midiáticos, Juliana é enfática. "A nova geração de adolescentes vai ser menos problemática. Se eu tivesse crescido sabendo que a Oprah, por exemplo, existia, meus traumas seriam muito menores". A jornalista acredita que a web, em específico, é muito valiosa, porque representa um canal direto entre produtora e consumidora de conteúdo. "A gente está falando da internet! É uma coisa muito mais palpável. Uma força muito mais real para que a mulher possa de fato se libertar, se fortalecer".

Ju conta que se sente honrada por ser um exemplo de força e autoestima para suas seguidoras. "Se eu conseguir levar algo de positivo que mude a vida de uma pessoa para melhor eu já estou satisfeita".

A modelo Paola Antonini

A modelo Paola Antonini Foto: Instagram/@paola_antonini

Paola Antonini

Paola Antonini, de 23 anos, tem uma história comovente. Uma mulher que dirigia embriagada cruzou o caminho da jovem enquanto ela colocava as malas no carro para uma viagem de fim de ano com o namorado, em 2014. Paola ficou com o corpo prensado entre os dois veículos e sua perna esquerda teve que ser amputada. A mineira, no entanto, conta que o acontecimento só a fortaleceu. "Eu comecei a querer mostrar para as pessoas que eu estava bem, que eu agradecia muito por estar viva".

Atualmente Paola trabalha como modelo e acumula mais de 1,5 milhão de seguidores no Instagram, além de 180 mil inscritos no canal no YouTube, que criou para mostrar que um deficiente físico pode ter uma vida comum. "É uma honra poder mostrar para as pessoas que a deficiência não limita nada".

Este ano, Paola foi eleita uma das jovens mais influentes do Brasil, de acordo com ranking da revista Forbes. "Eu acho muito legal as pessoas terem com quem se identificar. É um grupo que ainda não tem muita representatividade, a mídia tem que quebrar esse padrão imposto."

Para a mineira, a aceitação de sua condição foi primordial na recuperação e que não tem nenhum problema com a autoestima. "Quando essas coisas acontecem, a gente se valoriza muito mais e não perde tempo com besteira. Eu sou muito bem resolvida. A minha perna protética é linda, estou sempre colocando brilho!".

A youtuber Nathalie Barros

A youtuber Nathalie Barros Foto: Instagram/@nathaliebarros

Nathalie Barros

Paulista de 22 anos, a modelo e influenciadora Nathalie Barros começou a fazer sucesso nas redes sociais em 2014, quando viu surgir uma demanda de garotas que buscavam vídeos de cuidados com cabelos cacheados na internet. "O cacheado ainda não estava na mídia e não tinha referência em lugar nenhum".

Para Nathalie, a falta de representatividade foi prejudicial para sua autoconfiança. "Eu não me identificava em lugar nenhum e isso me deixava com a autoestima mais baixa ainda. É muito importante ter cacheadas e crespas na mídia, para que as crianças de hoje não passem pelo o que eu passei".

A modelo vê como uma grande responsabilidade servir de inspiração aos 313 mil usuários que seguem seu perfil no Instagram. "É lindo saber que você fez algo de libertador, quebrou as correntes de uma pessoa. Depois que a mulher se aceita, ela transparece isso para o seu redor". A blogueira ainda acredita que o boom da aceitação ao cabelo cacheado não tem data de validade. "Isso não é uma moda, é o que a gente é de verdade. E agora que a gente viu que também é bonita, não vamos voltar atrás".

Joana Cannabrava (à esquerda) e Carla Paredes, idealizadoras do projeto #PapoSobreAutoestima

Joana Cannabrava (à esquerda) e Carla Paredes, idealizadoras do projeto #PapoSobreAutoestima Foto: Marcella Zamith/Pool party 2ª edição/Divulgação

Projeto #PapoSobreAutoestima

Joana Cannabrava e Carla Paredes, designers, criaram o blog Futilidades em 2010, para falar sobre moda, e logo sentiram a falta de representatividade no meio. "A gente se sentia muito inadequada num ambiente em que tentávamos pertencer. Não importava o quanto a gente emagrecesse, nunca estávamos suficientemente no padrão", conta Joana.

Com a maturidade, no entanto, elas perderam essa visão distorcida da realidade e resolveram mudar a temática do site. Como maneira de reafirmar o novo posicionamento, as meninas apresentaram, no início deste ano, o projeto #PapoSobreAutoestima, cujo objetivo é promover a aceitação. "O projeto não é sobre ser gorda ou magra, mas sobre se olhar com mais amor".

O #PapoSobreAutoestima tem um grupo no Facebook em que são organizados piqueniques por todo o Brasil (e em Nova York e Londres) a fim de reunir garotas que desejam dividir suas histórias. Além disso, as blogueiras promovem uma pool party com as participantes mais engajadas com o projeto nas redes sociais. O evento já teve duas edições.

Joana ressalta que essa visibilidade é fundamental para a autoestima e confiança feminina. "Baseado na experiência que tenho com a internet, eu acho que importa muito. A gente começa a semear no mundo um discurso em que mulheres com outros corpos podem ser adequadas".

O evento de divulgação do projeto #PapoSobreAutoestima já está na sua 2ª edição

O evento de divulgação do projeto #PapoSobreAutoestima já está na sua 2ª edição Foto: Marcella Zamith/2ª Edição da Pool Party/Divulgação