Do medo da morte ao luto, como lidar com os efeitos psicológicos do novo coronavírus?

João Pedro Malar* - O Estado de S.Paulo

Especialistas falam sobre estratégias para manter a saúde mental em meio à pandemia de covid-19 e os efeitos que ela tem produzido

Mãe e filha visitam túmulo de um parente em cemitério na cidade de Ariha, no norte da província de Idlib, na Síria

Mãe e filha visitam túmulo de um parente em cemitério na cidade de Ariha, no norte da província de Idlib, na Síria Foto: Aaref Watad / AFP

Enquanto o novo coronavírus continua avançando mundo afora, o Brasil registrou, até 10 de abril, 1057 mortes. São pessoas que morreram devido ao vírus e, por causa dele, são enterradas sem o direito a funerais ou a uma despedida apropriada da família e amigos. Diante disso, fica a questão, como lidar com as mortes decorrentes da covid-19?

A população enfrenta, de maneira geral, um medo devido à possibilidade de morrer após o contágio do vírus e um agravamento dos sintomas, algo reforçado diariamente conforme o número de mortos em todo o mundo aumenta. Até 10 de abril, eram 88 mil. Mas, além disso, os parentes e amigos desses mortos lidam com outra questão: o processo de luto em meio a uma despedida incompleta e atípica.

Maria Júlia Kovács, professora aposentada do Instituto de Psicologia da USP e que estuda a questão da morte, considera que o medo que desenvolvemos do novo coronavírus é algo natural, impossível de ser evitado. “O lado positivo [do medo] está em cuidar da vida, não se colocar em situações de risco. O negativo ocorre quando o medo causa muito sofrimento, quando impede a continuidade da vida”, observa.

Ela observa que a situação enfrentada é “inédita e assustadora”, pois mistura o temor em relação à doença, e da morte que ela pode acarretar, com o medo em relação à continuidade da vida normal, devido ao isolamento, gerando sensações como o receio de perder o emprego ou oportunidades importantes na vida.

Como evitar que o medo se torne algo que afete a saúde mental? Maria Júlia explica que é importante se informar por meios de comunicação confiáveis, como jornais e telejornais, mas tentar reduzir o tempo de exposição às notícias sobre o tema, já que o excesso pode gerar mais medo e ansiedade. Uma medida essencial é manter a rotina dentro de casa, mas buscar novos projetos com o tempo vago gerado pela quarentena.

Atividades físicas: mulher participa de aulas online de pilates, acompanhada de seu cachorro, durante quarentena, em Chipre

Atividades físicas: mulher participa de aulas online de pilates, acompanhada de seu cachorro, durante quarentena, em Chipre Foto: Christina Assi / AFP

A professora sugere, por exemplo, praticar meditação, exercícios físicos e outras atividades voltadas para um bem-estar físico e psicológico. É importante também cuidar de familiares, em especial idosos e crianças. Por fim, ela considera ser essencial manter o contato, e intensificá-lo, com familiares e amigos, aproveitando os meios digitais para isso, de modo a evitar uma sensação de solidão. 

Juliana Guimarães, psicóloga especialista em luto, pontua que a pandemia dá a sensação de que a morte está mais próxima de nós, que é mais possível, e isso gera ansiedade e medo. Para lidar com esse cenário, ela considera essencial primeiro admitir que estamos com essa sensação: “Quando acolhe [as sensações], você permite ser acolhido: ouvir palavras de consolo, que são relaxantes. Permite criar uma atmosfera de entender que o medo faz parte do processo, todos estamos vivendo isso, cada um a sua maneira, mas é uma sensação coletiva”.

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A questão do luto

A psicóloga explica que os funerais são um tipo de ritual, e têm o objetivo de reduzir a dor da perda, contribuindo para um processo de aceitação e continuidade da vida. “Os rituais tendem a ser um fator de proteção muito efetivo, tendem a favorecer o processo do luto. A ausência do ritual e outros contextos impostos tiram das pessoas fatores de proteção importantes”, observa Juliana.

Para ela, na ausência desse ritual, é importante a comunicação com pessoas que passaram pela perda: “É importante ter contato, troca, uma rede de apoio ativa, o que pode ser difícil no isolamento. O luto já dá uma sensação de que estamos sozinhos no mundo, estar isolado pode potencializar isso, gerar mais sofrimento”.

Pessoas que morreram devido a covid-19 ou com suspeita da doença são sepultadas com a presença de poucos ou nenhum familiar

Pessoas que morreram devido a covid-19 ou com suspeita da doença são sepultadas com a presença de poucos ou nenhum familiar Foto: Wilton Junior / Estadão

Para auxiliar no processo de luto, a psicóloga dá algumas sugestões, que têm como objetivo reforçar o contato com a pessoa que perdeu um ente querido. “Mesmo que não tenhamos muito o que dizer, devemos deixar claro que estamos ali. É possível, por exemplo, mandar algum mimo, uma flor, um bolo com um recado, para tentar replicar uma sensação de acolhimento. E é importante entender o tempo da pessoa, e se ela não quiser falar”, ressalta.

Na Itália, o governo proibiu a realização de cerimônias religiosas, o que inclui os enterros

Na Itália, o governo proibiu a realização de cerimônias religiosas, o que inclui os enterros Foto: Piero Cruciatti/AFP

A professora Maria Júlia Kovács também sugere que todas as pessoas que passaram por esse processo de perda, ou têm sentido os efeitos da quarentena e do medo em relação à doença, busquem ajuda profissional. Ela observa que diversos psicólogos estão oferecendo atendimentos pela internet, alguns inclusive de forma gratuita. Outro serviço gratuito de acompanhamento psicológico é oferecido pelo Centro de Valorização da Vida (CVV), pelo número 188. “Precisar de ajuda psicológica não é fraqueza ou loucura”, ressalta a professora. 

Maria Júlia e Juliana concordam que a tendência é que, com tempo, a situação vá se normalizando e a vida volte, aos poucos, ao normal, mas a sociedade ainda irá sentir os reflexos da pandemia. “Vamos ter uma série de consequências que atingirão a todos, em menor ou maior nível. É importante fazer um exercício coletivo para dar conta das consequências econômicas, sociais, de saúde, e qualquer outro tipo. Cada um de nós, e todos enquanto coletivo, vamos passar por um processo de renascimento”, conclui Juliana. 

*Estagiário sob supervisão de Charlise Morais

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