Dia dos Solteiros na pandemia de covid-19: ressignificando o ‘estar sozinho’

Camila Tuchlinski - O Estado de S.Paulo

Pessoas transformaram a percepção de relacionamento após isolamento social por causa do coronavírus

Dia do Solteiro na pandemia: estar solteiro, definitivamente, não é sinônimo de solidão

Dia do Solteiro na pandemia: estar solteiro, definitivamente, não é sinônimo de solidão Foto: arquivo pessoal

Estar solteiro é sinônimo de solidão? O Dia dos Solteiros 2020 será diferente por causa da pandemia de covid-19 e é justamente o isolamento social que está fazendo com que as pessoas reflitam sobre o assunto. 

Durante muitos anos, o tema foi tratado com certo tom de deboche ou até mesmo com requintes de julgamento como “aquela solteirona ali” ou “aquele ali é solteirão”. Mas as coisas estão mudando, na avaliação do experiente psicoterapeuta Luiz Cuschnir, que trabalha há 40 anos com casais e estuda as relações de gênero.

“Apesar dessas ‘derrapadas’ da empatia das pessoas, percebo como um todo que os valores dessa questão do ‘estar solteiro’ também sofreram a influência de uma liberdade maior para cada um ser o que quiser, como e quando quiser”, enfatiza.

O Dia dos Solteiros no Brasil é comemorado em 15 de agosto. A origem da data e dos motivos são um mistério mas, se existe o Dia dos Namorados, porque quem não tem um par não poderia celebrar?

Claudio Donizeti Ferreira Junior está há um ano e cinco meses solteiro. Ele conta que sentiu a diferença das investidas amorosas no período de isolamento social. “No começo da pandemia eu estava em ritmo de vida de solteiro bem animado, pós-carnaval ainda. Então, foi um baque. Agora estou mais tranquilo, me mantendo seguro. Tem dias que a carência bate, mas isso acontece, vem e vai”, confessa.

Sobre a crença de que pessoas solteiras são solitárias, ele discorda. “Muitas vezes namorando a gente se prende e esquece da vida social, amigos, enfim, prioriza uma pessoa que não pode suprir todas as necessidades”, conclui.

Claudio Donizeti Ferreira Junior, que está há um ano e cinco meses solteiro

Claudio Donizeti Ferreira Junior, que está há um ano e cinco meses solteiro Foto: arquivo pessoal

Adriana Fátima Pelege tem uma opinião parecida com a de Cláudio. ‘Solteira da Silva’, como ela mesma brinca, há cinco anos, se considera feliz solteira, com ou sem pandemia

“Eu, particularmente, não penso que ser solteira seja sinônimo de solidão. É claro que você sente falta de uma pessoa bacana ao seu lado, que queira andar de mãos dadas com você em um parque, que queira ir ao cinema e etc. Alguém companheiro de verdade. Mas, se até hoje não apareceu, é porque ainda não é o momento! Existem casais que dizem ser felizes em um casamento, mas no fundo se sentem sozinhos”, considera.

Adriana F. Pelege, que afirma que, com ou sem pandemia, está feliz solteira

Adriana F. Pelege, que afirma que, com ou sem pandemia, está feliz solteira Foto: arquivo pessoal

O ‘estar solteiro’

O psicoterapeuta e psiquiatra Luiz Cuschnir explica que existem diversos ‘tipos de solteiros’. Os intitulados ‘convictos’ são os que menos sentiram os efeitos da quarentena. “Há os que optaram, seja pela fase ou contingências da vida, a viverem sem a dependência de uma relação amorosa estável. Podem estar se sentindo supridos com outros tipos de relação ou com o sentido da vida que os conforta muito bem serem solteiros. Podem até já ter sido casados ou com relações importantes, mas dirigem-se para a vida indo atrás de outros elementos que os completam. É claro que estes têm a possibilidade de terem passado ilesos com o isolamento. Já tinham criado atributos para a vida que levam e  que podiam abdicar de uma vida social intensa. Em casa, já tinham muito prazer em ficar e fazer o que lhes aprouvesse. Podiam estar convivendo com filhos, pais, irmãos e amigos que o 'ser solteiro' na pandemia nem mudava de status a ser questionado”, diz.

O especialista também fala sobre o perfil de solteiro que estava em busca de um relacionamento antes da pandemia - este sim pode ter passado por uma significativa transformação. 

“Se for com um perfil de quem buscava ativamente, saia para encontrar alguém que poderia se interessar, frequentava lugares possíveis de conhecer, está realmente desassistido pelos ambientes. Pode ser alguém que use os aplicativos de busca de parceiros, mas este que estou descrevendo precisa do ambiente para expor seus dons de atração aliados a sua capacidade de escolha. Esse pode ser até um homem ou uma mulher que tem fases: de caçador - se programa o tempo todo, até variando de amizades que compõem o suporte para suas pesquisas - e ou uma pessoa mergulhada em projetos pessoais - trabalho, estudos, experiências especiais de vida que está se dedicando. Por isso, digo que os desassistidos são os que com este perfil têm a limitação com o isolamento”, ressalta.

Luiz Cuschnir acrescenta que há também aqueles que se sentiram inseguros por ficarem sozinhos em casa, sem ter alguém ‘caso aconteça algo’, mas essa companhia não necessariamente seria um namorado ou namorada. “É claro que isso depende da estrutura psicológica que cada um tem para compor a sua vida, em épocas com ou sem pandemia”, pondera o psicoterapeuta.

O solteiro e o estigma

Não é raro se deparar com cenas de família em que os tios perguntam aos sobrinhos: “E as namoradas?”, “E os namorados?”. Essa cobrança social está repleta de julgamento e pode fazer com que as pessoas se sintam incapazes ou tristes por estarem solteiras. “Retomando um pouco mais essas diferenças de ‘solterices’, realmente há pessoas que vivem ou avaliam os outros estigmatizando, considerando-os ‘errados’, ‘loosers’, ‘incapazes’ ou ‘incompetentes’. Mesmo que com uma certa diminuição de criticismo em relação a estes que não estão num relacionamento que a sociedade determina, são julgados com as ironias do “por que será?”. Aí vêm os preconceitos, como as dúvidas quanto à opção sexual, equilíbrio mental, chegando a verdadeiros diagnósticos psiquiátricos”, analisa Luiz Cuschnir.

A pandemia do novo coronavírus e o isolamento social fizeram Julya Vendite refletir sobre como encara o amor e os relacionamentos. Aos 26 anos de idade, ela reflete: “É complicado porque confesso que a pandemia mudou muito a minha percepção sobre como me relaciono. Antes, ser solteira era meu status de vida e eu amava a liberdade de ter vários ‘dates’ (encontros) diferentes. Amava até os ruins, porque eu realmente não queria namorar, então, se fosse ruim, uma preocupação a menos! Mas, depois de cinco meses sozinha em casa e moro sozinha, percebi que vou querer sim dividir minha vida com alguém no futuro. Mas sem pressa e sem neura e, se não der certo, não deu, né?”, brinca.

Julya está solteira há um ano e cinco meses, mas já ficou mais de três anos sozinha. “Ninguém nunca ensinou pra gente que dá pra ser feliz sozinho, né? Todo final feliz é com alguém. Eu discordo e me desafio todos os dias a ser feliz sozinha, desde que sai da minha cidade para morar aqui em São Paulo. Porque, se pensarmos assim, então, a vida só vale a pena se tiver alguém de fora assistindo? E tudo o que eu passei aqui dentro e ninguém nunca pode observar?”, provoca. 

'A pandemia mudou muito a minha percepção sobre como me relaciono', afirma Julya Vendite

'A pandemia mudou muito a minha percepção sobre como me relaciono', afirma Julya Vendite Foto: arquivo pessoal

A indústria cultural, através dos filmes e desenhos animados com o chamado “e viveram felizes para sempre”, acaba influenciando o indivíduo, na medida em que determina que só é possível alcançar essa tal felicidade, se tiver alguém ao seu lado. 

“Não é fácil ser solteiro quando tudo ao nosso redor parece querer vender a ideia de que precisamos da metade da laranja, mas também não significa que diferentes níveis de relacionamento e intimidade podem ser desenvolvidos com as pessoas! Claro que é fácil falar, mas já acumulei uma bagagem de cinco meses lidando apenas com a minha presença física”, conta Julya Vendite.

As peculiaridades de gênero na ‘solteirice’

O psicoterapeuta Luiz Cuschnir, que analisa relacionamentos amorosos e a questão de gênero há 40 anos, fez uma análise sobre a percepção de “estar solteiro” para a mulher e para o homem. 

Carregada de cobranças sociais por ser mãe e, ainda, bem sucedida, a mulher pode transformar a percepção que tem, ou que aprendeu a ter, sobre o estar sozinha. “A mulher não precisa ser mãe, nem ter uma idade menor para essa vivência. Também não precisa se mortificar se não encontrou ou permaneceu em um relacionamento a qualquer custo. Quanto ao quesito profissional, do seu desenvolvimento e empoderamento como descrevi muito no livro Como mulheres poderosas se tornam mulheres conquistadoras, ela está aprovada quando consegue integrar plenamente a sua confirmação com as áreas importantes para ela. Cada uma toma posse dos seus atributos, dons e habilidades, constelando em si mesma o “ser mulher”. Solteira ou casada resolve as suas pendências para se estabelecer de acordo com o seu propósito de vida”, analisa.

E, na visão do especialista, o homem ainda tem mais liberdade para investir na carreira em qualquer momento da vida. As relações amorosas são ‘pulverizadas’ ao longo da história: “O homem tem o seu tempo para escolher o melhor momento de deixar de ser solteiro, se quiser. Está mais livre para mudar a carreira profissional ou preferir se aprimorar nela. Tem uma série de experiências afetivas e se sente menos acusado, ou culpado”.

Independentemente de gênero, a reflexão sobre o estar sozinho encontra uma série de obstáculos, desde as questões culturais, passando pela ideia de que é preciso se adequar ao padrão socialmente imposto para se sentir pertencendo àquele grupo, até a percepção das próprias emoções, as genuínas desse indivíduo. Estar solteiro não é sinônimo de solidão. Estar bem consigo é sinônimo de liberdade.