Destilaria de gim mais antiga do Reino Unido mantém receita secular da bebida

Danielle Sanches, especial para O Estado de S.Paulo - O Estado de S.Paulo

Plymouth Gin é produzido em uma cidade no litoral da Inglaterra há mais de 200 anos

O prédio da destilaria do Plymouth Gin data do século 15 e foi usado como um monastério pelos monges "black friars" - ou "frades negros", uma alusão aos robes escuros que usavam.

O prédio da destilaria do Plymouth Gin data do século 15 e foi usado como um monastério pelos monges "black friars" - ou "frades negros", uma alusão aos robes escuros que usavam. Foto: Plymouth Gin

Ele tem origem na Holanda do século 17 e se tornou famoso na Inglaterra no mesmo período. Usado para acalmar os soldados britânicos durante a Guerra dos Trinta Anos (uma série de conflitos entre países europeus que durou de 1618 a 1648)  e até para curar dor de estômago, o gim experimenta, desde 2010, um forte renascimento impulsionado principalmente pelo crescimento da cena coqueteleira no mundo.

O sucesso pode ser medido em números: de acordo com a Wine and Spirit Trade Association, que representa diversas companhias de vinhos e destilados no Reino Unido, apenas nos últimos cinco anos, as vendas de gim tiveram um crescimento de 20% ao ano. O número de destilarias dobrou no país, gerando um valor estimado em 1 bilhão de libras em vendas.

Esse "Renascimento do Gim" ("ginaissance", em inglês) inspirou a especialista em drinques Emma Stokes, autora do blog Gin Monkey, a transformar o amor pela bebida em uma data festiva. Nascia, assim, em 2013, o primeiro World Gin Day, que atualmente é celebrado no mundo todo - incluindo no Brasil - sempre no segundo sábado de junho.

Produzido a partir de uma fruta chamada zimbro ("juniper", em inglês), o gim leva ainda uma mistura de outros ingredientes botânicos, como casca de laranja, coentro e cardamomo. A receita e a dosagem de cada um dos ingredientes, no entanto, é único para cada marca - e, por isso mesmo, guardado a sete chaves por elas.

A fórmula secreta, muitas vezes, é repassada ao longo dos séculos e seguida à risca até os dias atuais. É o caso, por exemplo, do Plymouth Gin, que teve sua receita criada em 1793 e é considerado um dos melhores e mais versáteis gins do mundo.

Localizada na cidade de Plymouth, ao sul da Inglaterra, a destilaria do rótulo é considerada a mais antiga do Reino Unido ainda em funcionamento. O prédio histórico, inclusive, data do século 15 e foi usado como um monastério pelos monges dominicanos conhecidos como "black friars" - ou "frades negros", uma alusão aos robes escuros que estes utilizavam.

Produzido a partir do zimbro ("juniper", em inglês), o gim ainda tem outros ingredientes botânicos, como casca de laranja, coentro e cardamomo. Além desses ingredientes, o Plymouth Gin ainda leva sementes de coentro, casca de limão e raizes de orris e angélica.

Produzido a partir do zimbro ("juniper", em inglês), o gim ainda tem outros ingredientes botânicos, como casca de laranja, coentro e cardamomo. Além desses ingredientes, o Plymouth Gin ainda leva sementes de coentro, casca de limão e raizes de orris e angélica. Foto: Plymouth Gin

Processo artesanal. De acordo com Karen Ehrlich, diretora global da marca Pernod Ricard, que detém os direitos do rótulo Plymouth Gin, a bebida conta com sete ingredientes botânicos básicos: zimbro, sementes de coentro, casca de laranja, casca de limão, cardamomo verde, raiz de orris (também conhecido como lírio fiorentino) e raiz de angélica.

Como no passado, o processo permanece o mais artesanal possível. Os botânicos são colhidos de forma manual e, depois, selecionados pessoalmente pelo mestre destilador (ou "master distiller"), como é chamado o responsável por manter o blend da bebida sempre dentro do padrão de qualidade. "Apenas o mestre e mais dois ajudantes conhecem a receita do Plymouth Gin", explica Karen. "Cada lote da produção só é aprovado quando dois dos três responsáveis aprovam", conta.

A destialação do gim é feita no mesmo tonel há mais de cem anos.

A destialação do gim é feita no mesmo tonel há mais de cem anos. Foto: Plymouth Gin

De sabor suave e levemente cítrico, o Plymouth Gin é o preferido pelos especialistas em drinques para produzir coquetéis clássicos justamente pelo equilíbrio em sua formulação. O Dry Martini, por exemplo, receita clássica criada no início do século 20, apareceu em muitos livros de coquetelaria da época com indicações para ser feito especificamente com Plymouth Gin. 

O Plymouth Gin sabor suave e levemente cítrico e é muito recomendado por bartenders para fazer o clássico drinque Dry Martini.

O Plymouth Gin sabor suave e levemente cítrico e é muito recomendado por bartenders para fazer o clássico drinque Dry Martini. Foto: Plymouth Gin

Redes sociais. Além do crescimento da coquetelaria no mundo todo, Karen acredita que outro motivo tem aumentado a popularidade do gim, principalmente entre as gerações mais jovens: as redes sociais. "A taça mais encorpada, a decoração do copo e o ritual do preparo da bebida são fatores que geram bons filmes e imagens para compartilhar na internet", explica. "A foto fica bonita e glamourosa", afirma.

Quando se fala em gim, o primeiro drinque que vem à mente é mesmo o Martini, feito com duas doses do destilado para um de vermute - as medidas, no entanto, podem variar ao gosto de cada bartender. Mas o gim também pode ser consumido de outras formas, como no Negroni (que leva, além de gim e vermute, Campari e rodelas de laranja) e apenas misturado com água tônica.

"Diz a lenda que existe um Martini para cada pessoa", brinca Karen, que é brasileira e prefere o seu com duas partes de gim, uma de vermute e algumas gotas de limão.