'Dating Burnout': pesquisa revela que brasileiros têm dificuldades em construir relacionamentos

Camila Tuchlinski - O Estado de S.Paulo

Mais de 90% dos entrevistados afirmam que não conseguem conversar nos apps; confira 5 sinais de exaustão quando o assunto é paquera

Mais de 80% dos usuários de aplicativos de paquera revelam que passam mais tempo curtindo os outros perfis do que conversando com pretendentes

Mais de 80% dos usuários de aplicativos de paquera revelam que passam mais tempo curtindo os outros perfis do que conversando com pretendentes Foto: Pixabay/ Free-Photos

Os brasileiros estão com dificuldade em construir relacionamentos amorosos. Nos aplicativos de paquera, poucos querem estabelecer uma conversa e preferem só dar likes. Isso é o que revela uma pesquisa realizada pelo app Happn. 

Desde o surgimento dos aplicativos que visam aproximar as pessoas, as emoções estão em constante transformação. No início, os usuários queriam uma diversão passageira e momentânea.

“Por outro lado, muitas pessoas ainda atribuem aos apps a responsabilidade de alcançar um relacionamento real e legal, enquanto o agente responsável por este sucesso é a própria pessoa, que tem que, primeiro, estar aberta a isso e, segundo, estar disposta a dar uma oportunidade aos outros, investindo em conversas mais significativas, não desaparecendo por qualquer razão banal e assim por diante”, ressalta Marine Ravinet, diretora de marca e tendências do Happn.

Apesar dessa necessidade de engajamento, de acordo com o estudo feito em agosto de 2020, em meio à pandemia de covid-19, 81,4% dos usuários do Happn declaram que passam mais tempo curtindo os outros perfis do que conversando com os pretendentes. Outro dado que chama atenção: 94,3% afirmaram que está cada vez mais difícil estabelecer um diálogo mais significativo e profundo. 

Na visão da doutora em Psicologia Clínica da PUC do Rio de Janeiro Adriana Nunan, os seres humanos estão mais imediatistas. “Querem saber logo onde a pessoa mora, trabalha, se tem filhos, se quer um relacionamento sério, qual a posição política, se tem boa situação financeira ou não. Isso torna o processo todo de escolha muito frio e desinteressante. Relações saudáveis se baseiam em trocas, conversas inicialmente leves, interessantes, sobre gostos, interesses”, pondera.

Muitas pessoas estão tão concentradas em si que não conseguem demonstrar um interesse genuíno pelo outro. Para estabelecer uma conversa, é preciso haver uma troca, se abrir. Será que estamos dispostos a fazer isso?

O estudo do Happn revela também que 78,4% dos usuários têm vários apps de paquera ao mesmo tempo. A Psicologia já estuda um conceito chamado de “paradoxo da escolha”, quando fica difícil fazer uma boa opção se temos muitas possibilidade.

“Em algum momento nos cansamos e acabamos escolhendo “qualquer coisa” ou, no caso dos aplicativos de paquera, dando “likes” e “dislikes” indiscriminadamente, sem prestar atenção no que estamos fazendo. Não é à toa que na versão paga do Tinder você pode “voltar atrás” caso tenha dado um “x” ou um “coração” em alguém. A dica para evitar o paradoxo da escolha é não olhar mais do que 10 perfis por vez”, orienta Adriana Nunan, autora do livro Relacionamentos Amorosos na Era Digital.

O Happn é um app por aproximação, ou seja, são mostrados perfis de pessoas que cruzaram por você em uma distância de apenas 250 metros. “Durante a pandemia, o aplicativo aumentou o raio para 90 quilômetros, o que torna o processo de escolha de perfis mais desafiador pela quantidade de opções. O Tinder, apesar de também ter apresentado mais opções para os usuários como o “passaporte” gratuito, ainda permite que você defina seu raio de ação, o que facilita, de certa forma, o processo de escolha. Muitos usuários têm migrado para o Inner Circle também, pois este app possui filtros diferentes dos demais”, acrescenta Adriana Nunan.

Dating Burnout revela dificuldades em iniciar relacionamentos

Dating Burnout revela dificuldades em iniciar relacionamentos Foto: Pixabay/sweetlouise

As consequências do ‘Dating Burnout’

O comportamento humano está em constante mudança e os fatores que contribuem para isso são diversos: desde aspectos do cenário externo que o envolve até questões da vida pessoal como o trabalho, a saúde e a autoestima.

O cansaço da paquera pode ocorrer diante de tantas tentativas frustradas em aplicativos de relacionamentos. A rejeição, que outrora era temida por tanta gente, começa a ser normalizada também. Isso porque, segundo a pesquisa do Happn, 58,8% dos entrevistados afirmaram que acham normal quando uma pessoa com quem estava conversando em um app para de falar repentinamente.

De olho nessas mudanças comportamentais, apps estão tentando criar ferramentas para reduzir os danos. Marine Ravinet, diretora de marca e tendências do Happn, relata que os resultados da pesquisa com usuários brasileiros alertaram sobre a forma como as pessoas estavam enfrentando a busca por um amor.

“Diante dos dados de que o Dating Burnout também existe no Brasil, criamos o movimento #MakeItHappn, que tem o objetivo de conscientizar nossos usuários dos sintomas e conseqüências. Para isso, criamos uma série de conteúdos em nossos canais em parceria com a Cleo, que deu dicas para o público mudar seu comportamento online ao buscar alguém. Conhecer melhor os sintomas do esgotamento do namoro ajudará nossos usuários a evitá-lo”, acredita.

Confira 5 sinais de que você pode estar com ‘Dating Burnout’

Se você tem perfis em diversos aplicativos de relacionamento, não consegue estabelecer um diálogo com alguém ou normaliza o ‘sumiço’ repentino, atenção: essa busca pode estar causando exaustão.

Confira 5 sinais do Dating Burnout:

1-   Você recorre a diversos apps de namoro ao mesmo tempo: De acordo com a pesquisa, 78% dos brasileiros usam ou já usaram mais de um aplicativo de encontros ao mesmo tempo. Ou seja, as pessoas baixam diversos apps em busca de novos rostos, acreditando que vão, em algum lugar online, encontrar a pessoa perfeita que se encaixa em todas as suas expectativas.

 

2-   Mais curtidas, menos papo: 81% dos brasileiros afirmaram que, nos aplicativos de paquera, passam mais tempo dando like nas outras pessoas do que conversando com elas e buscando, de fato, conhecê-las. Além disso, 94% disseram que sentem que está cada vez mais difícil engatar uma conversa e manter interações mais significativas - geralmente, os papos online não se desenvolvem e ficam no clichê “oi, tudo bem? De onde? Qual sua profissão?”.

 

3-   Você se interessa por alguém - mas nem tanto: É possível que você se interesse por alguém, mas não ao ponto de querer sair com essa pessoa para um encontro. Mesmo assim, vai. E esse comportamento é normal para 64% dos brasileiros. Com mais dates ruins, com pessoas com as quais você nunca iria ter um encontro, o usuário se sente ainda mais exausto em iniciar ou construir um relacionamento.

 

4-   É melhor estar online do que perder algo: 71% dos brasileiros afirmaram sentir ansiedade ou que estão perdendo algo quando não estão conectados a um app de relacionamento. Esse sentimento tem até um nome: FoMo (sigla em inglês para Medo de Perder Algo), que caracteriza o medo de ficar fora do mundo tecnológico ou a não se desenvolver ao mesmo ritmo que a tecnologia.

 

5-   O sumiço repentino se tornou normal - o famoso ghosting: Outro sintoma de que você está sofrendo de dating burnout é achar normal quando uma pessoa com quem você está conversando para de responder às suas mensagens do nada, sem motivos aparentes. Pelo menos, 58% dos brasileiros acham isso um comportamento normal.

O que esperar do futuro dos relacionamentos pós-pandemia?

Com a pandemia do novo coronavírus, criar um perfil em um aplicativo de relacionamento foi a alternativa encontrada por muita gente para ter interação social. Será que o isolamento prejudicou ainda mais o caminho para encontra alguém?

A doutora em Psicologia Adriana Nunan vê a situação como uma oportunidade: “Sou otimista em relação a isso, pois agora, como os encontros presenciais têm se tornado mais difíceis pelo risco de contágio, quem realmente deseja um relacionamento está se dedicando mais a conversar, antes de marcar um “date”. Os passos de um possível namoro estão mais lentos: você conhece a pessoa pelo aplicativo, troca mensagens, passa para o WhatsApp, envia áudios ou liga, marca um encontro virtual e, aí sim, pode decidir marcar um encontro presencial, seja com distanciamento social ou não, essa é uma escolha individual”. 

Antes da pandemia, muitas pessoas marcavam vários encontros por semana. Como isto não é mais aconselhável, só é possível marcar um “date” com quem você já tenha estabelecido algum tipo de relação, ainda que virtual. “Por outro lado, durante a quarentena, muitos repensaram suas vidas e se deram conta de que realmente querem ter relações saudáveis e duradouras, o que por sua vez nos leva a crer que, a partir de agora, as pessoas se dedicarão mais a encontrar um parceiro”, conclui Adriana Nunan. 

O futuro do amor não depende só da tecnologia, mas do uso que os seres humanos farão dela daqui por diante.