Cursos voltados para mulheres promovem inserção feminina em cargos de liderança

Bárbara Pereira* - O Estado de S.Paulo

Apenas um terço das pessoas em posições de comando são mulheres

Mulheres ainda têm pouca participação em cargos de liderança.

Mulheres ainda têm pouca participação em cargos de liderança. Foto: Unsplash / @rawpixel

Dados da última pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) sobre a participação da mulher em cargos gerenciais no Brasil apontam que elas ocupam apenas 39,1% dessas posições. A situação piora proporcionalmente com o avanço da idade e quando trata-se de mulheres pretas ou pardas. Apesar de estarem cada vez mais inseridas no mercado de trabalho, ocupar posições de liderança ainda é algo raro nas empresas.

Para auxiliar mulheres que desejam consolidar suas carreiras e alcançar melhores cargos, empreendedoras estão oferecendo cursos e consultorias focados em liderança feminina, que estão sendo cada vez mais procurados, principalmente na cidade de São Paulo.

Escola para mulheres

Com o objetivo de ser uma escola de liderança e desenvolvimento feminino, o Programa Elas foi fundado em agosto de 2017 por Carine Roos e Amanda Gomes. A dupla já tinha experiência com equidade de gênero e desenvolvimento comportamental, o que as motivou a contribuir na formação de mulheres que desejam assumir posições de destaque, tanto em empresas, quanto na sociedade.

Mais de cem mulheres já passaram pelo treinamento, que dura 54 horas e é dividido em três módulos. Durante as aulas de autoconhecimento, elas aprendem a reconhecer suas qualidades, desenvolver a autoconfiança e trabalhar medos e inseguranças. Uma vez que o talento próprio já foi reconhecido, elas passam a estudar formas de gerar influência, lidar com relações de poder e garantir autoridade no ambiente.

"No início do treinamento, a gente faz um diagnóstico em três dimensões. No último módulo, avaliamos novamente e conseguimos dizer para elas a evolução dentro dessas competências", explica Carine. As métricas usadas para mensurar o crescimento das mulheres revelam números promissores: "Em uma turma de cem mulheres certificadas, 30% já foram promovidas ou receberam um aumento salarial. Setenta e cinco por cento delas atribuem esse resultado aos conhecimentos aprendidos no programa", pontua.

Ao empoderar essas mulheres, as fundadoras perceberam que as alunas saem mais ambiciosas para conquistar seu valor e crescer no mercado de trabalho. "O que a gente quer promover é ter mais mulheres, de fato, em posições de comando", justifica Amanda. Entre outros avanços, elas destacam uma melhora na produtividade, foco, autoconfiança e comunicação. Os cursos são procurados tanto por empresas que desejam investir no desenvolvimento das funcionárias, quanto por mulheres que buscam esse aperfeiçoamento na carreira profissional. As vivências abertas, por exemplo, ocorrem mensalmente e já formaram mais de 1,8 mil mulheres.

Retorno no investimento

Mulheres que investem em cursos e programas de liderança costumam notar um grande desenvolvimento após a conclusão. A designer Vania Teofilo conta que, profissionalmente, percebeu sua determinação aumentar: "Consigo ver com clareza o que busco como resultado. Dessa forma, ficou muito mais fácil mapear as tarefas que precisam ser executadas e descartar as que não são relevantes". No entanto, o curso trouxe benefícios para sua vida pessoal também, como uma redução significativa nos níveis de estresse e ansiedade.

Para Flávia Luz, coordenadora de negócios em uma startup, os cursos de liderança feminina apareceram como uma solução para um questionamento interno: "Esse ano, eu fiquei sem saber qual caminho seguir. Não estava me enxergando como líder porque sou nova. Eu tinha o síndrome de impostora e achava que estava ali por sorte", explica.

Após participar de um workshop gratuito do Programa Elas, Flávia percebeu que não tinha motivos para não se enxergar como líder ou reconhecer suas conquistas. "Apesar de ter muito reconhecimento na empresa e ter crescido lá dentro, o reconhecimento financeiro não era o mesmo. Me faltava essa voz para defender. Hoje, me enxergo como uma pessoa capaz e competente. Consigo dar feedbacks mais conscientes para minha equipe e me portar diante do meu chefe", comenta.

Além de ser procurado por mulheres que desejam crescer em suas empresas, o curso também funciona como um catalisador de projetos. Marina Haddad, por exemplo, queria empreender e encontrou nos cursos de liderança feminina uma oportunidade de preparação para colocar sua ideia em prática. O resultado foi tão positivo que a empreendedora irá lançar um workshop para conectar atividades físicas e empoderamento feminino.

Mulheres que almejam cargos gerenciais encontram nos cursos de liderança a oportunidade de aprimorar seus talentos.

Mulheres que almejam cargos gerenciais encontram nos cursos de liderança a oportunidade de aprimorar seus talentos. Foto: Pixabay / @Free-Photos

Empoderamento feminino

Seguindo uma linha mais naturalista, Ramy Arany fundou o KVT Feminino em 2002 com o objetivo de cuidar da mulher de forma plena, e não somente profissional. "Se a mulher não estiver preparada por dentro, ela não vai fazer a diferença na liderança de fora", justifica. Por isso, as aulas são focadas no empoderamento feminino baseado nos talentos naturais da mulher. Uma vez que a aluna encontra-se capacitada para liderar dentro do que mais domina, ela passa a aplicar esse conhecimento na área em que desejar.

As aulas também refletem o objetivo dos cursos de liderança feminina: empoderar mulheres. "O ponto de vista feminino é valorizado neste ambiente. Questões como casamento e filhos não são vistas como empecilhos para a mulher que busca o crescimento profissional. Entre nós, percebemos que dá sim para conciliar o profissional com o pessoal numa boa", explica Vania.

Para Flávia, outro destaque é justamente a representatividade do curso: "A maioria dos líderes são homens e eu não queria me espelhar nisso. Eu queria criar meus próprios modelos de liderança".

Estagiária sob supervisão de Charlise Morais.