Comportamento de Trump nas redes sociais não deve mudar tão cedo

Luiza Pollo - O Estado de S.Paulo

Professora de Relações Internacionais explica que comunicação é 'defensiva e agressiva'

  

   Foto: REUTERS/Mike Stone

Donald Trump levou mais de três milhões de pessoas às ruas na última semana. E não foi para a sua cerimônia de posse, como gostaria de poder dizer Sean Spicer, porta-voz da Casa Branca. O número, resultado de levantamento das universidades de Denver e de Connecticut, corresponde à multidão que protestou contra o novo presidente dos Estados Unidos no último sábado, 21.

As Marchas das Mulheres foram registradas no país todo - até mesmo fora dele. Como era de se esperar, os maiores protestos foram em grandes cidades de Estados majoritariamente democratas. Los Angeles e Washington tiveram mais de meio milhão de manifestantes cada, e Nova York, Boston e Denver, por exemplo, registraram mais de 100 mil pessoas nas ruas. 

Trump reagiu, no dia seguinte, com um post no Twitter. "Assisti aos protestos ontem, mas fiquei com a impressão de acabamos de ter uma eleição! Por que essas pessoas não votaram? Celebridades atrapalham muito a causa", escreveu em seu perfil pessoal na rede.

Os protestos concentraram grupos bastante representativos dos eleitores de Hillary, como explica Denilde Oliveira Holzhacker, professora de Relações Internacionais da ESPM. "Percebe-se visualmente que a marcha tinha uma diversidade maior de grupos - negros, maioria mulheres e representação de outras minorias. Isso reflete o que foi o eleitorado de Hillary", afirma. E, se compararmos o mapa das manifestações com o mapa do resultado das eleições americanas, isso se comprova. Os delegados de D.C., Nova York, Califórnia, Colorado e Massachusetts, por exemplo, foram todos favoráveis à candidata do partido Democrata. O que indica que, em sua maioria, os manifestantes devem ter votado.

Depois da repercussão negativa do comentário, o presidente tentou se retratar na rede social. "Protestos pacíficos são uma marca da nossa democracia. Mesmo que eu nem sempre concorde, eu reconheço o direito das pessoas de expressarem suas visões", escreveu duas horas mais tarde. 

"Acho que ele mudou de posição porque foi muito chocante. A democracia americana está baseada no processo eleitoral, mas também na livre manifestação. Ele colocou em questão um dos pilares da democracia numa estratégia de desqualificar a manifestação", opina Denilde. "Isso não se espera de um presidente, que deve defender os princípios constitucionais", completa.

E esse tuíte de Trump não foi o primeiro a gerar polêmica. Na virada do ano, o então presidente eleito usou a rede para alfinetar os outros candidatos à eleição. "Feliz ano-novo a todos, também para meus muitos inimigos e para aqueles que lutaram contra mim e perderam de forma tão dura, que, simplesmente, não sabem o que fazer. Amor!"

A professora explica que o comportamento de Trump nas redes é uma estratégia para se comunicar diretamente com a população. "É uma comunicação defensiva e muitas vezes agressiva. O argumento dele é que ele teria uma forma de falar diretamente com a população, e, nesse caso, não se diferencia de outros governos populistas, como o de Hugo Chávez."

E Denilde não acredita que a estratégia vá mudar tão cedo. "A gente só pode esperar para ver como vão ser as reações. Como (e se) ele vai infringir alguma regra e, por isso, precisar mudar de opinião. Mas eu acho que ele não vai mudar o perfil por vontade própria".

Veja algumas artistas que participaram das manifestações: