Como ser de fato um aliado do LGBT

Carlos Maza - The Washington Post

Muitas das dificuldades em ser LGBT existem fora do sistema legal - rejeição da família, provocações na rua, vergonha internalizada, representações degradantes na mídia e incontáveis outros estresses sociais

Foto: Brittany Greeson/The Washington Post

Em minha experiência de gay que vive cercado por seres humanos geralmente decentes, encontrei muitos não gays e cisgêneros (de gênero condizente com o sexo) que se identificam como "aliados" da comunidade LGBT. Isso nunca é mau para alguém que, como eu, passou a maior parte da vida como minoria entre não gays. Então, geralmente prefiro que essas pessoas se definam como meus aliados que como meus piores pesadelos virando realidade.

 

Mas nem sempre isso é ótimo.

Muita gente que se julga aliada tem um comportamento que pode fazer com que os diferentes se sintam desconfortáveis, recusados ou invisíveis. Quase nunca é intencional. Não gays e cisgêneros não sabem como é ser gay, e vice-versa, o que pode produzir pontos cegos que fazem com que mesmo aliados bem-intencionados ajam como idiotas. 

Portanto, se você é dos que se identificam como aliado da comunidade LGBT, muito obrigado. E aí vão quatro sugestões para que seja um aliado de verdade:

Não seja espaçoso. É incrível o que acontece quando não gays e cisgêneros decidem visitar lugares gays (bares, boates e quase todas as cafeterias). Muitos de nós, LGBTs, cresceram se sentindo párias. Ver que vocês querem conhecer nosso mundo é algo forte. Mas tentem imaginar como seria se, quando vocês estivessem em um bar, grupos de homossexuais chegassem dizendo como gostam de não gays; como vocês são simpáticos; e como os bares de não gays são interessantes e diferentes. Em pouco tempo vocês ficariam irritados. Se cansariam de se sentir novidade, diferentes, quando estavam apenas procurando relaxar, paquerar, pegar. E estariam certos. Nós também nos sentimos assim. 

Não minimize as diferenças. Se ganhasse uma moeda a cada vez que ouvi um amigo bem-intencionado dizer algo como "não penso em você como gay, para mim você é simplesmente uma pessoa", daria para encher muitos cofrinhos. Cada gay se relaciona de modo diferente com sua homossexualidade. Para alguns, ela é apenas música ambiente. Para mim, é uma orquestra tocando um medley de Celine Dion em volume máximo dentro de minha cabeça. De qualquer modo, dizer a alguém que você nem notou sua homossexualidade, ou não está pensando nela, não é gentil nem brilhante.

Deixe que os LGBTs o desapontem. Apesar do que meu cérebro diga depois de apenas uma cervejinha light, não posso e não vou nunca ser Neil Patrick Harris. As representações de pessoas LGBT na mídia tendem a ser altamente buriladas e irrealistas. Personagens LGBT são bem-vestidos, espirituosos, bem-sucedidos, ambiciosos, divertidos e simpáticos. Às vezes, são vítimas nobres lutando contra atitudes discriminatórias. Outras vezes, são coadjuvantes adoráveis que existem principalmente para apoiar o personagem principal, não gay, ou aliviar a tensão numa peça. 

Na maior parte, os LGBTs reais não são marcantes, interessantes ou irresistíveis como os da TV. Os LGBTs são seres humanos comuns, às voltas com trabalho, família, amores e assuntos pessoais. Somos imperfeitos, machucados, maus, negligentes, inadequados, com medo de morrer, confusos, nos irritamos sem razão, somos inseguros e solitários - como qualquer ser humano. Para nós, os personagens LGBT que vemos na televisão podem parecer tão diferentes quanto personagens não gays. 

Se você está frustrado porque as pessoas LGBT que conhece não correspondem às expectativas que tinha em relação a elas, pergunte-se de onde vieram essas expectativas. E aí, esqueça. 

Ser aliado é mais do que se ater à política.

Nem é preciso dizer que há muitíssimo a fazer até que os LGBTs - especialmente os transgêneros - sejam tratados com igualdade perante a lei nos Estados Unidos. Isso é muito importante, e ser um aliado obviamente é ajudar nessa luta sempre e como possível. Mas muitas vezes precisei de um aliado bem antes de ter de pensar em leis e processos. 

Muitas das dificuldades em ser LGBT existem fora do sistema legal - rejeição da família, provocações na rua, vergonha internalizada, representações degradantes na mídia e incontáveis outros estresses sociais. 

E a frustrante verdade é que mesmo enormes vitórias, como a legalização do casamento no mesmo sexo, não tornam as coisas melhores por magia. Os sentimentos de rejeição e vergonha das pessoas diferentes, especialmente sobre uma parte vital de sua identidade, podem provocar muitos estragos antes de elas chegarem ao altar. E as experiências que causam mais danos aos diferentes - como serem excluídos da família ou chamados de anormais pelos colegas de classe - geralmente são vistas com menos sensacionalismo que cartórios se recusando a emitir certidões de casamento. 

Como aliado, não é seu papel ser terapeuta ou conselheiro. Mas é sua obrigação ouvir os LGBTs que fazem parte de sua vida, perguntar-lhes como vão indo, levar em conta que podem ter passado (ou ainda estar passando) por coisas que você não entende, e dar apoio sempre que possível. 

Continuar de coração aberto e atento a seus irmãos e irmãs LGBT depois de encerradas as paradas do orgulho gay e desligadas as câmeras dos tribunais pode fazer muito mais que votos e pôsteres farão. 

Tradução de Roberto Muniz