Como e quando falar sobre sexualidade com crianças e adolescentes?

Camila Tuchlinski - O Estado de S.Paulo

Apesar de dispositivos de segurança, pais se surpreendem ao se deparar com filhos vendo conteúdo adulto na internet; saiba como lidar

Apesar de dispositivos de segurança, pais se surpreendem ao se deparar com filhos vendo conteúdo adulto na internet.

Apesar de dispositivos de segurança, pais se surpreendem ao se deparar com filhos vendo conteúdo adulto na internet. Foto: Pixabay

Um adolescente nos anos 1990, com a sexualidade à flor da pele, teria que usar a criatividade para esconder as famosas revistas pornográficas - até então, um dos únicos meios de acesso a conteúdo adulto na época. Além disso, a publicação não era comercializada para menores de 18 anos.

Agora, em 2019, muitos desses adolescentes da época se tornaram pais e mães e estão perdidos quando o assunto é sexualidade dos filhos. "Meus pais falavam sobre sexo, mas não era uma forma muito clara. Sempre tinha o viés que homem era aproveitador e que não deveríamos, eu e minha irmã mais velha, cair no conto deles. E que, caso acontecesse algo, deveria ser com alguém que a gente gostasse e não fosse por onda de amigas. Ah, eles colocavam muito medo sobre a questão da gravidez", lembra Ana Paula Olinto.

Hoje, ela é mãe de dois meninos: Patrick, de 17, e Nicolas, de 12 anos. "Me lembro de ter falado sobre sexo com o meu filho mais velho quando ele tinha sete anos. Ele me perguntou o que era sexo. A pergunta foi inesperada e me pegou de surpresa. De imediato respondi que sexo era 'sexo feminino' ou 'sexo masculino' e só. Uns 15 minutos depois ele questionou se sexo era a mesma coisa que transar. Fiquei passada!", recorda. Ana Paula conta que ela e o marido sentaram para conversar com o garoto e entender o que ele sabia sobre o assunto. Depois do episódio, a família fala abertamente sobre relacionamentos, doenças, proteção e gravidez.

Regina Elizabeth é mãe de duas meninas: Gabriela, de 21 anos, e Luiza, de 18, e lembra como a família se comportava quando o assunto era sexualidade. "Minha mãe nunca conversou comigo sobre sexo. Eu aprendi sozinha e de certa forma foi difícil romper esse tabu porque, quando se conhece bem o corpo, a relação com a outra pessoa flui melhor. Demorou para entender que eu tinha meus desejos e que não era vergonha expor eles", conta.

Hoje, com as filhas, ela tenta promover o diálogo constante desde sempre. Tanto que a mais velha se sentiu a vontade para revelar que perdeu a virgindade. "Hoje em dia eu acabo conversando com elas até...'puxa, esse cara que você ficou é legal? Você gostou mais desse do que daquele? E aí, estão usando camisinha? Ah, essa camisinha é ruim...então, pesquisa no mercado'. A gente não tem receio. Elas não têm receio de questionar e perguntar. Temos uma abertura muito boa para conversar sobre isso", relata. E o pai das meninas também participa das conversas, para dar uma visão masculina sobre o assunto.

Questões homoafetivas, por exemplo, também não são tabu na família, como afirma Elizabeth: "Uma vez perguntaram porque tinha duas mulheres abraçadas e eu respondi que era um casal. Elas vieram me contar depois que aquela informação no momento havia solucionado a dúvida e que elas cresceram sem esse preconceito e acham normal essa relação". 

A verdade é que boa parte dos adultos atualmente não foram treinados para falar sobre sexo com seus filhos. A maioria, quando crianças e adolescentes, teve orientação sexual na escola basicamente para a reprodução. "Um grande desafio é, sem dúvida, abordar um tema que a criança terá que postergar a sua concretização, como no caso da relação sexual em si. E por isso muitas famílias acham que não devem abordar o assunto. Além disso, há dois grandes mitos sobre falar de sexo com crianças: que isso acelera a 'sexualidade delas' e que falar de sexualidade pode influenciar a orientação sexual das crianças. Por falta de conhecimento, os pais acham que falar de sexualidade é falar de relação sexual, sendo que na verdade a genitalidade é apenas um dos aspectos da sexualidade e às vezes nem é o principal", explica a psicóloga Ana Canosa, diretora da Sociedade Brasileira de Sexualidade Humana.

Os conteúdos relacionados ao conhecimento do corpo, como higiene, diferenças entre sexos e gestação precisam ser explicados aos pequenos. Mas, para essa geração, questões como sexualidade na infância, fortalecimento da identidade, autoestima, ser assertivo e respeitar os outros são fundamentais.

"Aprender a negociar, a respeitar, a reivindicar direitos e espaços, a não se deixar abusar, conhecer e ir elaborando as emoções no relacionar-se com o mundo. Tudo isso que a gente precisa para ter uma relação saudável com os outros e que infelizmente não é a realidade de grande parte das pessoas adultas que se relacionam. Não digo que trabalhar a sexualidade é o que vai resolver conflitos humanos, pois há muitos outros fatores envolvidos, mas certamente é uma boa via de acesso para construção de reflexões", avalia a educadora sexual.

O que fazer se eu flagrar meu filho vendo conteúdo adulto?

Você está chegando no quarto do seus filhos e, de repente, o flagrante. O que fazer ao ver as crianças ou adolescentes assistindo a vídeos eróticos? Fingir que não aconteceu nada não é a melhor saída.

Para a psicóloga, é preciso falar sobre o assunto. "Se é criança, a gente precisa explicar que esse conteúdo não é adequado para a idade dela, que surgirá o tempo para desenvolver-se nesse aspecto. É importante compreender onde a criança está buscando referências para o pornô, quem apresentou, etc. Com púberes e adolescentes, o papo já pode ser mais profundo e crítico, como a reprodução de violência de gênero nos filmes, o modelo de erotismo que é passado, os corpos que viram modelo de comparação, as práticas sexuais que parecem todas muito fáceis e prazerosas e a dependência da pornografia como uma categoria que vem crescendo muito", aconselha.

Para além da conversa, aplicativos para bloqueio de conteúdos adultos nos dispositivos móveis devem ser providenciados, mas não são a solução do problema.

Como e quando falar sobre sexualidade com crianças e adolescentes?

Como e quando falar sobre sexualidade com crianças e adolescentes? Foto: Pixabay

A sexualidade, de acordo com a faixa etária

É preciso entender que, no mundo das crianças e dos adolescentes, todos os assuntos são permitidos. O que vai mudar é o jeito de falar e o entendimento de cada um deles. A educadora sexual Ana Canosa separou algumas dicas para cada faixa etária:

* Até os cinco anos de idade: Observar o desenvolvimento infantil (corpo, diferenças entre os sexos, higiene, gestação, noção de privacidade, prevenção de abuso sexual, cuidados na exploração de corpos e jogos infantis). Nessa fase, é importante trabalhar o tema aos poucos com a criança.

* A partir dos cinco anos: A criança já tem mais noção do que é uma relação sexual e algumas perguntas podem estar relacionadas às práticas sexuais. Muito importante focar em temas sobre relacionamento/famílias - orientação sexual.

* A partir da puberdade, entre nove e 15 anos: Foco na mudança do corpo (surgimento de pelos, aumento dos órgãos genitais, por exemplo). Promover conversas sobre a entrada na adolescência, autoimagem, amigos, padrões de beleza, prazer sexual (masturbação).

* De 15 a 18 anos: As questões da puberdade são ampliadas para discussões mais críticas e reflexivas sobre o comportamento sexual.

De qualquer maneira, manter o diálogo sempre aberto com os filhos sobre sexualidade, em tempos de fácil acesso à informação, é o melhor caminho. Com os pequeninos, o jeito lúdico de abordar a situação pode ser mais eficiente. Com os mais velhos, a descontração também ajuda a 'quebrar o gelo' entre pais e filhos.

Para aqueles que se interessam mais profundamente pelo assunto, a Unesco preparou um guia com orientações técnicas de educação em sexualidade para o cenário brasileiro

Boa parte dos pais não foram treinados para falar sobre sexualidade com seus filhos.

Boa parte dos pais não foram treinados para falar sobre sexualidade com seus filhos. Foto: Pixabay

Dicas de livros para falar sobre sexo com crianças e adolescentes

Muitos pais gostariam de ter acesso à literatura que pudesse ajudar, de maneira didática, a lidar com a sexualidade dos filhos. Separamos uma lista de publicações que podem auxiliar nesse momento, inclusive leituras para crianças e adolescentes. Confira:

* 'Somos iguais mesmo sendo diferentes', 'Conversando com seu filho sobre sexo', 'Um bate-papo sobre sexo', livros de Marcos Ribeiro;

* 'Mamãe, o que é sexo?', de Lilian Macri;

* 'Mamãe botou um ovo' e 'Cabelinhos nuns lugares engraçados', os dois livros de Babete Cole;

* 'Conte para alguém', de Thais Laham Morello, sobre prevenção de abuso sexual;

* 'Pipo e Fifi', de Carolina Arcari, também sobre prevenção de abuso sexual.

Atitudes que podem proteger seus filhos da pedofilia

Novamente, a conversa com os filhos é a melhor forma de prevenção. E, desde a tenra infância, é preciso ensinar noções sobre as partes íntimas e quem pode tocá-las e de que forma isso é feito. Orientação e esclarecimento são fundamentais.

É difícil impedir que um pedófilo se aproxime de seus filhos. No entanto, se a criança e o adolescente tiverem conhecimento do que é perigoso, poderá dizer não. Se o abuso ocorrer, terá condições de informar um adulto. Não subestime a capacidade de entendimento dos pequenos.

A ONG SaferNet Brasil possui um portal com dicas para manter a internet segura para as crianças. Lá, é possível acessar conteúdos sobre prevenção e ações de combate à pedofilia e pornografia infantil. Mais informações aqui.