Com alta da obesidade infantil, como as escolas podem incentivar a prática de atividades físicas?

Redação - O Estado de S.Paulo

A prática de brincar, jogar ou praticar um esporte na infância e adolescência é essencial para tornar rotina a inserção de atividades físicas quando adulto

Muitas vezes, as aulas de educação física na escola são as únicas oportunidades de prática de exercícios para crianças e adolescentes – por isso, é importante aproveitá-las da melhor forma possível.

Muitas vezes, as aulas de educação física na escola são as únicas oportunidades de prática de exercícios para crianças e adolescentes – por isso, é importante aproveitá-las da melhor forma possível. Foto: Pixabay

Em um momento em que a obesidade infantil atinge níveis nunca antes vistos no mundo inteiro – no Brasil, estima-se que 15% das crianças entre cinco e nove anos são obesas, de acordo com a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) divulgada em 2014 – a preocupação com a alimentação fica em destaque. Entretanto, a atividade física é também essencial na busca pela saúde, e, se estimulada desde a infância, vira prática rotineira.

No currículo escolar de todas as escolas públicas e privadas brasileiras, é obrigatório ministrar aulas de educação física, do ensino infantil ao ensino médio, mas as poucas horas semanais dedicadas à disciplina não são suficientes para suprir as necessidades da prática de atividades físicas para um corpo saudável. Então, a questão é como aproveitar ao máximo essas aulas para criar nas crianças e adolescentes a vontade de levar a educação física para a vida.

Na Escola da Vila, instituição privada da zona oeste da capital, o objetivo é desenvolver jogos e brincadeiras, como queimada, taco, polícia e ladrão, ginásticas e circuitos motores (pular corda, subir e descer, entre outros) além dos esportes tradicionais, como futebol e vôlei, e ainda adaptar essas modalidades. “Dessa maneira, a oferta de atividade contempla diferentes desafios e possibilita a identificação e prazer em um desses esportes”, explica  Washington Nunes Silva Junior, coordenador de esportes da escola.

Isso é importante justamente porque há crianças e adolescentes que se recusam a participar das aulas de educação física, às vezes porque não acreditam que são disciplinas tão importantes quanto as outras, às vezes simplesmente por não se acharem “bons” em nenhuma modalidade.

“O ponto que a gente passa para os alunos é que eles estão numa aula. Você pode não ser o mais forte, o mais rápido, mas o que eu quero é participação. E faça aquilo que você pode fazer de melhor dentro da atividade. A educação física visa a formação do ser integralmente, não um aluno que vai ser atleta profissional. Ele pode até virar profissional, mas não é o propósito. Ele vai entrar na atividade sabendo que ela vai oferecer desafios, assim como a vida vai também”, opina Adriano Bareia, coordenador de educação física do Colégio Mackenzie.

Washington diz que alunos não interessados em praticar as aulas são muito recorrentes, e a saída é focar em um “repertório motor atrativo, colocando o jogo, não o esporte, mas o trabalho coletivo, como uma ferramenta que motive e faça com que eles se motivem para a prática corporal”, ressaltando que o ser humano é motor, e que a atividade física é intrínseca e natural.

Pensando nisso, a Ferrero trouxe seu programa Joy of Moving, uma metodologia de atividades físicas desenvolvida por acadêmicos que estimula a prática de atividades físicas entre crianças e adolescentes, para o Brasil. O programa é aplicado em larga escala na Itália e vai desembarcar nas escolas municipais de Poços de Caldas (MG), numa parceria com a prefeitura da cidade onde está localizada a fábrica da empresa no País.

A metodologia é desenvolvida por Caterina Pesce, professora e pesquisadora italiana especializada em atividade física e estudos do movimento, e consiste em material didático teórico, treinamento com professores responsáveis por ministrar as atividades, plataforma online de e-learning e outros materiais gráficos utilizados nas aulas. As atividades não ficam nos esportes tradicionais, e sim em jogos e brincadeiras que estimulam todo o corpo e se adequam a diferentes ambientes e perfis.

As atividades são indicadas para crianças de 3 a 11 anos de idade, com variações de acordo com a idade, e são adaptáveis até para crianças com deficiências e dificuldades cognitivas e motoras. “A gente não indica as alterações especificamente, mas há princípios de adaptações, no material a gente indica que as crianças possam explorar suas possibilidades. Os ‘problemas’ propostos nas tarefas devem ser explicados e cada criança pode resolver um problema de acordo com suas habilidades. O programa é baseado em descobertas e cooperação”, explicou Caterina em entrevista ao E+.

Outro ponto importante quando se ministra aulas de educação física para crianças e adolescentes é a questão da competição. Todos os especialistas concordam que a competição é saudável e que ela é inerente à prática esportiva, mas a forma como se lida com ela é o cerne da questão. “Nós temos o compromisso de fazer com que entendam seu papel em um jogo: se um jogador é muito habilidoso, pode colaborar com a melhora técnica do companheiro, em vez de criticá-lo”, desenvolvendo, assim, a empatia. “Saber perder e saber ganhar são coisas que temos conversado muito com os alunos”, conta.

Caterina ainda ressalta a importância da atividade física para o desenvolvimento social das crianças e adolescentes, no material didático identificados como habilidades interpessoais. “A competição é boa, mas a gente estimula, no programa, que não haja apenas ‘ganhadores’ e ‘perdedores’, nós na verdade usamos variações para que, nos jogos, as crianças ‘excluídas’ possam fazer coisas para voltar ao jogo. E você também cria a empatia, estimula a criança a se colocar no lugar do outro, a ajudar e a se comunicar melhor”, diz.

“A competição vai acontecer o tempo todo. Ele vai competir para entrar em uma universidade, para conseguir emprego, mas ele precisa aprender a lidar com isso, no sentido de reconhecer que, quando perde, saber que o adversário foi melhor, e que no outro dia isso pode se inverter”, aponta Adriano.

Na organização urbana atual, muitas crianças não têm mais estrutura ou segurança para brincarem na rua ou jogares futebol por aí. Neste contexto, a escola se torna espaço ideal e, por vezes, único na promoção de lazer e atividade física. "Cabe às escolas um papel importante tanto na melhora da proposta curricular, construindo o gosto pela prática corporal, quanto na oferta de atividades não somente curricular, mas, também extracurricular, ampliando as opções para o desenvolvimento corporal. E o professor de educação física tem um papel fundamental, pois será, a partir de suas intervenções e propostas, que ele conseguirá fazer com que o gosto pela atividade se torne perene", opina Washington.