Coelho da Páscoa, papai Noel, fada do dente: como falar sobre eles com as crianças?

Camila Tuchlinski - O Estado de S.Paulo

Frases como ‘você só ganhará presente, ao se comportar bem’ podem gerar dúvidas em relação à figuras de autoridade

Cristina Sussmann, mãe de Adrielly, Daniela, Arthur e Heloísa; Arthur Ankerkrone e a esposa Sandra, com os filhos Marcos, Maria e Luiz.

Cristina Sussmann, mãe de Adrielly, Daniela, Arthur e Heloísa; Arthur Ankerkrone e a esposa Sandra, com os filhos Marcos, Maria e Luiz. Foto: Arquivo pessoal

Coelho da Páscoa, papai Noel, fada do dente. O que todos esses personagens têm em comum? Além das histórias fofas contadas de geração para geração, os três ‘dão presentes’ nas respectivas datas comemorativas. E os pais avisam: ‘Somente as crianças que são boazinhas são presenteadas’. 

É assim na casa de Cristina Sussmann. Mãe da Adrielly, de 9 anos, da Daniela, de 7, do Arthur, de 2, e da pequena Heloísa, de 11 meses, ela cresceu acreditando em todos esses personagens e decidiu manter a tradição. “No Natal, nós íamos dormir cedo e, no dia seguinte, meus pais colocavam os presentes embaixo da árvore. Na Páscoa, ou eles escondiam os ovos ou colocavam os ovos em frente à porta de casa. Com meus filhos, a gente esconde os ovos no guarda roupa, no quintal, nos armários, vai escondendo os ovos de cada um para entrar na brincadeira com as crianças. A gente vai colocando as patinhas de coelhinho. Elas se divertem”, conta. 

Sobre o questionamento dos filhos se papai Noel existe ou coelho da Páscoa, Cristina tem um argumento: “Os ovos que estão no mercado são os que os pais compram para seus filhos, mas o coelhinho da Páscoa também dá ovo para a criança que é obediente. A gente compra ovo caseiro para ficar mais realista. Meu irmão fazia ovo com a esposa e meus filhos ajudavam. Aí contávamos que eles eram ‘ajudantes de coelhinho’ porque, afinal de contas, são crianças”, afirma.

Cristina Sussmann, mãe de Adrielly, Daniela, Arthur e Heloísa.

Cristina Sussmann, mãe de Adrielly, Daniela, Arthur e Heloísa. Foto: Arquivo pessoal

Marcelo Nunes dos Reis é pai da pequena Rafaela, de três anos. Ele garante que ainda acredita em papai Noel e coelho da Páscoa. “Ainda que jamais tenha visto, sei que de alguma forma, encarnada ou não, eles existem. Ao meu ver, a falta de magia na mente das nossas crianças, em conjunto com outras mudanças físicas, psíquicas, químicas, fizeram com que nosso “novo” mundo se tornasse mais chato e perigoso. Hoje não vemos mais ruas decoradas, campeonato da casa ou apartamento mais decorado e bonito, com a esperança de ver o Papai Noel chegando na noite de Natal, as pegadas do coelhinho da Páscoa dentro de nossa casa, a busca pelos ovinhos...mundo chato”, desabafa.

Se um dia Rafaela o perguntar sobre a existência desses personagens, Marcelo já tem resposta: “Aqueles ovos de Páscoa só estão nas prateleiras dos mercados porque ali é o local onde os coelhinhos armazenam os ovos que serão dados às crianças. O mesmo com o papai Noel no shopping, pois ali é o único local onde ele recebe as cartinhas contendo os pedidos e tiram foto”.

Marcelo Nunes dos Reis, pai de Rafaela.

Marcelo Nunes dos Reis, pai de Rafaela. Foto: Arquivo pessoal

Na infância, assim como os irmãos, Arthur Ankerkrone sempre acreditou nos personagens como papai Noel e coelho da Páscoa. Sandra Miranda não. Hoje, eles são pais de Marcos, de 8 anos, Maria, 4, e Luiz, de apenas oito meses. Apesar de históricos de vida diferentes, entraram em acordo em como lidar com assunto com as crianças. “Nós os deixamos viver a fantasia, não faz mal e é divertido. No Natal a logística do aparecimento dos presentes às vezes dá trabalho, mas creio que nos divertimos tanto quanto as crianças”, ressalta Sandra. 

Arthur conta que o filho mais velho começou a lançar perguntas. “Ele tem um pensamento muito lógico e veio nos questionar sobre Papai Noel. Para ele, não fazia muito sentido a distribuição simultânea de presentes em todo o mundo. Perto da Páscoa, deduziu ser impossível a existência de um coelho misterioso botando ovos de chocolate nas casas e assim ‘desmascarou’ os dois personagens. Em compensação, agora nos ajuda a manter a fantasia para os irmãos mais novos”, diz.

Arthur Ankerkrone e Sandra Miranda, pais de MarcosMaria e Luiz.

Arthur Ankerkrone e Sandra Miranda, pais de MarcosMaria e Luiz. Foto: Arquivo pessoal

Os filhos de Cristina, do início da reportagem, acreditam também na existência da fada do dente. “Sempre que cai um dente, elas colocam embaixo do travesseiro e, durante à noite, eu recolho e coloco uma moeda. No dia seguinte, elas acordam felizes ao encontrar a moeda que a fada deixou”, lembra. 

Mas, às vezes, a fada do dente pode ‘esquecer’ a recompensa. “Teve uma noite que esqueci de recolher o dente da Adrielly. Ela ficou triste. Eu disse que a fada deveria ter muitos dentes para recolher, tadinha. Na noite seguinte, fiz a troca e ficou ela super feliz”, afirma Cristina.

Como e quando contar para crianças que o coelho da Páscoa não existe

A verdade é que não há uma fórmula para lidar com os filhos e os personagens como papai Noel ou coelho da Páscoa. Na análise da psicóloga Tauane Gehm, a maior parte das famílias vai ou não manter a tradição, dependendo do histórico de vida de cada um. “Além disso, algumas famílias descrevem esses personagens como figuras de bondade e amor e, com isso, os filhos aprendem a vê-los dessa forma. Também há pais que os descrevem como figuras que monitoram o bom comportamento das crianças e que podem, porventura, deixar de dar presentes quando estas “não merecerem”. Com isso, seus filhos passam a encarar os personagens dessa forma”, enfatiza.

Muita gente acredita que manter a fantasia pode ser saudável para o desenvolvimento infantil. Porém, Tauane Gehm lembra que não há estudo científico que comprove: “Nos anos 2000, foram realizados alguns estudos avaliando a expressão facial das crianças e dos cuidadores após o contato da criança com um papai Noel no shopping. Os resultados apontaram que mais da metade das crianças saia desse contato com indiferença, enquanto mais de 80% dos cuidadores demonstrava sinais de felicidade. Ou seja, a manutenção de uma cultura que acredita em coelhinho da Páscoa e papai Noel se dá, entre outras coisas, porque essa tradição agrada não apenas crianças, mas também a família. De fato, a escolha de manter a tradição ou não é muito individual”.

A psicóloga também afirma que, com o desenvolvimento do raciocínio lógico, as crianças começam a questionar a existência de seres que destoam da realidade. “Elas começam a fazer perguntas como “Por que o papai Noel desse shopping é diferente daquele que vimos ontem?”, “Como o coelhinho da Páscoa consegue fazer chocolate para tanta gente e passar em tantas casas em um único dia?”, “Por que os mercados vendem ovos de Páscoa se é o coelhinho quem faz e entrega os ovos?”, “Como as renas do papai Noel conseguem voar?”. Essas perguntas são importantes para o desenvolvimento cognitivo. Sendo assim, é importante que os pais deem espaço para que a criança desenvolva esse tipo de raciocínio quando for a hora, ao invés de criar justificativas mágicas que mantenham a tradição. O que geralmente acontece é que, ao descobrir que os personagens não são reais, a criança se sente muito esperta e chega, em muitos casos, a ficar feliz por ter descoberto”.

Como e quando contar para crianças que o coelho da Páscoa não existe.

Como e quando contar para crianças que o coelho da Páscoa não existe. Foto: PIxabay

Associação de presentes com bom comportamento pode ser prejudicial

“Se você for bonzinho o ano todo, o papai Noel vai te dar aquele game que você tanto quer”. Quem nunca disse essa frase à um filho no Natal, que atire a primeira pedra. Condicionar a oferta de presentes ou ovos de Páscoa a bom comportamento ou notas boas na escola pode ser saudável? A psicóloga infantil Tauane Gehm responde: “Como essa é uma estratégia que pode funcionar a curto prazo, é compreensível que muitos pais apelem para isso, sobretudo se considerarmos a sobrecarga a qual estão expostos em seu dia-a-dia. Porém, é importante que os pais desenvolvam estratégias de educação que permitam que os filhos aprendam a ter bons comportamentos a despeito dos presentes que ganharão. Também é importante que os pais se coloquem como as principais figuras de autoridade, sem transferir esse lugar para figuras como Coelhinho da Páscoa e Papai Noel”.

Estimular a crença em personagens é benéfico?

Muitos pais dizem que esse tipo de crença é benéfica ao desenvolvimento por estimular o mundo da fantasia. Porém, essa não é uma evidência científica, na análise da psicóloga Tauane Gehn: “Mas quando a gente vai olhar para pesquisas que foram feitas, não há evidências que constate isso. Algumas pesquisas mostram os benefícios da fantasia em brincadeiras de faz de conta em que a criança sabe que o que ela está encenando não é real. E aí a criança aprende a se colocar no lugar dos personagens, aprende a conseguir ser empática,aprende a lidar com raciocínio abstrato. Mas papai Noel e coelhinho não são personagens que a criança encena e, além disso, são reais para a criança. Nesse sentido, a gente não sabe se essa fantasia traz benefícios”.

Ao mesmo tempo, é muito difícil haver um adulto que tem um trauma pelo fato de os pais terem defendido a existência desses personagens. 

Educadores precisam ter cautela com personagens no ambiente escolar

Em épocas como Páscoa ou Natal, os alunos costumam realizar diversas atividades voltadas para esses personagens. Mas a coordenação deve ter cautela na hora de organizar o evento, na opinião da psicopedagoga Cristine Calazans, psicopedagoga. “Muitas escolas de educação infantil contratam personagens nestas datas e fazem uma grande comemoração, tiram fotos, filmam e compartilham com os pais os melhores momentos. A grande questão é que mesmo conhecendo bem a criança ninguém sabe qual será a sua reação. Você, adulto já encontrou um grande ídolo num local inesperado? Como se sentiu neste momento? Conseguiu pensar em algo para dizer para ele, gaguejou, tremeu, ficou inseguro? Como se sentiria se alguém o obrigasse a se aproximar dele só para uma foto? Os pais e educadores precisam estar preparados para qualquer reação da criança, dar escolhas, acolher, conversar antes, explicar que ela pode escolher se aproximar ou não”.

A neuroeducadora acrescenta que, se a escola optar pelos personagens vivos, é preciso preparar toda a equipe escolar, explicando sobre acolhimento, respeito e evitar surpresas.