Casais trocam presentes de casamento por doações a instituições

Felipe Laurence* - O Estado de S.Paulo

'Nossa alegria de receber um presente não é nada comparada ao sorriso de uma criança faminta ao receber um prato de comida', disse uma noiva

Está crescendo o número de casais que pedem doações a instituições de caridade em vez de presentes de casamento.

Está crescendo o número de casais que pedem doações a instituições de caridade em vez de presentes de casamento. Foto: Pixabay/toanmda

Conhece algum casal que mora junto, mas ainda não oficializou o matrimônio? A situação é cada vez mais comum, como aponta o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que em 2012 divulgou números com base no Censo de 2010 mostrando que, em relação ao Censo anterior, o número de uniões consensuais cresceu de 28,6% para 36,4% enquanto casamentos apresentaram queda de 49,4% para 42,9%. Com isso, muitas vezes os tradicionais presentes de casamento, que servem para dar ao casal uma arrancada na sua nova casa, se tornam supérfluos.

Por conta disso, alguns casais estão encontrando uma forma criativa de não receber uma montanha de presentes sem utilidade e ainda fazer uma boa ação: estão pedindo que os convidados doem o valor do presente para instituições de caridade. Para Luiz Henrique Machado, CEO da iCasei, startup que oferece uma plataforma digital de serviços e conteúdo de casamento, essa é uma tendência que vem crescendo nos últimos anos.

“Logo no início do iCasei, lá em 2009, nós já havíamos visto alguns casais fazendo isso, mas essa prática vem se intensificando nos últimos anos”, diz Luiz Henrique. Segundo o CEO, o perfil dos casais que adotam essa prática é de até 35 anos, aproximadamente, e de classe média alta.

Não há como saber o número exato de casais que pediram doações em vez de presentes na plataforma, já que alguns deles pedem dinheiro e só depois doam. “As nossas estimativas apontam que cerca de 2% dos 800 mil casamentos que já realizamos no iCasei tiveram casais pedindo cotas de doações em vez de presentes. Ainda é um número baixo, mas mostra como uma parcela cada vez mais expressiva de noivos mostra esse desapego”, explica Luiz Henrique.

Exemplos. Entre os casais que abraçaram a iniciativa estão Anna Carolline Malaquias e Wellington dos Santos e Nadia Reda e Kamal Soueid.

Desde 2015, Anna e Wellington fazem parte de uma ONG que acolhe órfãos em Moçambique. A Fraternidade Sem Fronteiras (FSF) dispõe de 23 centros de atuação e oferece suporte a quase 9 mil crianças. O casal já esteve no país africano e conta que foi a experiência mais transformadora de suas vidas. “Aprendemos com aquelas pessoas qual é o verdadeiro significado da palavra gratidão”, lembra a advogada.

Ao voltarem de viagem, o casamento já estava marcado para o ano seguinte. Decidiram, então, que a lista de presentes incluiria apenas cotas de doações em apoio à instituição que viram atuar com tanto afinco em Moçambique. “Nossa casa já está toda montada e o que temos é mais do que suficiente. Para nós que tivemos todas as oportunidades possíveis, a alegria de receber um presente não é nada quando comparada ao sorriso de uma criança faminta ao receber um prato de comida”, emociona-se Anna.

Já Nadia e Kamal têm uma conexão especial com o Instituto Escuta – que atende crianças com deficiência auditiva e implante coclear – e também criaram uma lista de presentes com cotas de doações. “Acreditamos que seria uma iniciativa bacana, ajudar ao próximo quando já somos tão abençoados. Fazer o bem trouxe uma sensação ainda maior de que estávamos fazendo a escolha certa”, conta a engenheira.

Os convidados do casal entraram na onda e curtiram a ideia: “recebemos muitos comentários positivos, de pessoas que ficaram felizes em poder ajudar inspirados pela iniciativa”, diz Nadia.

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