Brasileiras ainda sofrem preconceito ao amamentar em público

Luiza Pollo - O Estado de S.Paulo

Pesquisa realizada em nove países também aponta que elas são as que mais se sentiriam culpadas se não conseguissem amamentar

As mães chinesas são as que menos se sentem à vontade para amamentar em público

As mães chinesas são as que menos se sentem à vontade para amamentar em público Foto: flickr.com/dailycloudt

Um paradoxo faz parte do cotidiano das mães brasileiras em fase de amamentação: ao mesmo tempo em que se sentem pressionadas para alimentar os filhos com o leite materno, elas relatam que são criticadas quando amamentam em público. 

Rafaella Ferraz confirma. Mãe há quase seis anos e grávida do segundo filho, ela ainda lembra com clareza do dia em que foi orientada a amamentar no banheiro de um restaurante para não “atrapalhar outros clientes”. Ela estava com o marido e o filho de quatro meses em um estabelecimento de Santos, no litoral de São Paulo, quando o bebê acordou e ela decidiu amamentá-lo. Enquanto o pequeno Enrico se alimentava, o maître pediu que Rafaella o levasse para outro lugar. “Eu perguntei se tinha uma área específica ou mais confortável para eu amamentar, e ele me disse para usar o banheiro”, relata. 

Sem lugar para sentar e coagida a sentir vergonha de alimentar o filho em público, a blogueira conta que ficou revoltada com a sugestão, ainda mais porque avalia que estava amamentando da forma mais discreta possível. “Eu respondi: ‘fala para quem se incomodar ir comer no banheiro, então.’ Meu filho estava almoçando como todo mundo ali.”

A experiência de Rafaella reflete a situação de quase metade das mães brasileiras, de acordo com a Pesquisa Global Lasinoh do Aleitamento Materno 2017, da empresa de produtos para amamentação Lansinoh. No País, 40% das entrevistadas disse ter sido criticada por amamentar em público.

Ao mesmo tempo, dentre as mais de 2 mil mulheres que participaram da pesquisa no Brasil, 94,2% disseram que se sentiriam culpadas se não conseguissem amamentar seu bebê. É o maior índice entre os nove países pesquisados (Alemanha, Brasil, Canadá, China, Estados Unidos, França México, Reino Unido e Turquia). 

Mães chinesas são as que mais consideram constrangedor amamentar em público, e 39%  delas nunca nem tentou. Aqui no Brasil, a resposta predominante foi a de que o ato é perfeitamente natural (64%). No entanto, é importante destacar que a pesquisa entrevistou apenas mulheres de 18 a 40 anos que estavam grávidas ou tenham um filho de até dois anos. A impressão das mães é de que a sociedade em geral pensa diferente. 

“As pessoas julgam quem não amamenta, mas julgam quem amamenta também. Mesmo outras mulheres criticam. É uma pena, porque a gente vive em uma sociedade tão machista; deveria haver mais sororidade”, defende Sabrina Canoa, mãe de de Sophia, de 2 anos e 3 meses, e de Cecília, de 3 meses.

Além das críticas pela amamentação em público, Sabrina ainda foi julgada por amamentar a filha mais velha enquanto estava grávida de Cecília. “Tem muito mito ao redor disso”, observa Kelly Oliveira, pediatra e consultora internacional de amamentação. “Se a gravidez é de baixo risco, se a mãe, o bebê que ainda não nasceu e a criança estão bem, não tem problema amamentar”, explica.

Rodrigo da Rosa Filho, ginecologista e obstetra, observa que a conexão entre mãe e filho nesses momentos é essencial para criar um vínculo íntimo entre eles. Por isso, em geral é indicado que a mulher espere a criança demonstrar que já não precisa mais mamar no seio. 

O médico destaca que, por recomendação da Organização Mundial da Saúde, até os seis meses de idade o leite materno deve ser o único alimento. “Sem suquinho, sem água, sem nada.” A pesquisa aponta que as brasileiras estão bastante conscientes disso: 93% disseram que proporcionar um benefício à saúde do bebê é o principal motivo para amamentar. Além disso, 97% das brasileiras acreditam que a amamentação é realmente a melhor forma de alimentar um bebê. “O movimento pró-amamentação no Brasil está crescendo. A gente tem melhorado os índices e o preconceito está diminuindo, apesar de ainda haver um pouco de tabu”, comemora Kelly.

E os benefícios da amamentação  não se restringem apenas ao bebê.  Já se sabe que para os filhos o leite materno previne infecções gastrointestinais, respiratórias e urinárias, protege de alergias e até ajuda a prevenir diabete e alguns tipos de câncer. Para a mãe, a amamentação também ajuda a prevenir o câncer (no caso delas, o de mama) e um estudo recente indica que pode haver até mesmo benefícios para o coração.

Portanto, é essencial que a mãe se sinta à vontade para alimentar seu filho onde for preciso. Quando há alguma dificuldade, a mulher deve procurar grupos de apoio, médicos ou consultores de amamentação, como indicam ambos os especialistas. Eles explicam que o apoio da família e de outras pessoas próximas também é essencial para tranquilizar as mães. “O estresse e outros fatores psicológicos influenciam muito na produção de leite. Quanto mais confiante a mulher estiver, mais fácil vai ser para amamentar”, afirma Rosa Filho.

Sabrina e Rafaella confirmam que o apoio dos maridos e outras pessoas fez muita diferença nessa fase tão especial para elas. “É um momento de vínculo, de entrega. Não é só alimentação, é aconchego, segurança”, diz Sabrina. “É como se as minhas filhas sempre voltassem para o porto seguro.”