Banco de sangue do Hospital das Clínicas de SP está em situação de alerta; saiba como ajudar

Caio Nascimento* - O Estado de S.Paulo

Médica explica que doação não pode ser feita só em momentos de crise; não há equipe suficiente para coleta externa todos os dias e tipos O+, O-, A- e B- estão em estado crítico

Fundação Pró-Sangue, localizada no Hospital das Clínicas, recebe, de segunda a sexta-feira, metade do número de doadores que conseguiria atender no período.

Fundação Pró-Sangue, localizada no Hospital das Clínicas, recebe, de segunda a sexta-feira, metade do número de doadores que conseguiria atender no período. Foto: Wikimedia Commons

Um dia depois do atentado na escola de Suzano, em março, Debora Dutra, prima do aluno sobrevivente Anderson Brito, de 15 anos, sentiu na pele a importância da doação de sangue. Em um ato de tristeza e amor pelo rapaz, ela pediu pelo Facebook que as pessoas fossem à Fundação Pró-Sangue, do Hospital das Clínicas (HC), para ajudar o jovem. "Ele precisa de transfusão sanguínea. Peço aos amigos que ajudem. Qualquer tipo será aceito, pois o hospital está precisando", escreveu.

O garoto já recebeu alta e o ato de bondade atingiu inúmeras pessoas na rede social, mas não é posto em prática pela maioria das pessoas. "Empresas, jovens e estudantes são mais engajados, mas é mais difícil ver doações individuais fora desses grupos", explica a médica responsável pelo posto de coleta do HC, Sandra Montebello. "Na própria Pró-Sangue temos essa dificuldade: só uns 10% dos funcionários doam", completa.

Diante disso, os grupos O-, O+ estão em estado crítico na Fundação. Sandra explica que isso se deve ao uso excessivo dos dois, pois são universais e nem sempre dá tempo de analisar o tipo sanguíneo do paciente numa urgência. "São os que mais saem e nunca conseguimos repor adequadamente. Pouco tempo atrás, recebemos quatro acidentados graves da escola de Suzano. Como não tínhamos tempo para colher informações no momento, usamos o O-", recorda.

Além disso, os sangues A- e B- também estão em estado crítico, e o AB- em alerta. A incidência dos três é menor na população, o que os torna escassos na maioria dos hemocentros. No caso do Hospital das Clínicas, a situação se agrava na medida em que a unidade abastece mais de cem hospitais da grande São Paulo. "Temos estoque para atender os próximos três a quatro dias [sem doações], mas o banco de sangue é contínuo e precisa ser alimentado", explica Sandra. 

Em condições normais, a unidade consegue se sustentar por até sete dias na hipótese de não receber nenhum doador. Esse parâmetro é importante caso haja um problema inesperado, como um incêndio, que interrompa os trabalhos.

A especialista calcula que há cerca de cem a 120 coletas por dia de segunda a sexta-feira no hemocentro do HC, mas há efetivo para atender até 250 pessoas – em horários diferentes para evitar tumulto. "Se tivéssemos uma média de 200 atendimentos, seria possível tirar esses tipos sanguíneos do status crítico ou de alerta", analisa. 

Fundação Pró-Sangue encaminha o material para mais de cem hospitais da grande São Paulo.

Fundação Pró-Sangue encaminha o material para mais de cem hospitais da grande São Paulo. Foto: Felipe Rau / Estadão

Vale ressaltar, que cada parte do sangue tem validade. Os glóbulos vermelhos duram 35 dias, as plaquetas valem por cinco dias e o plasma pode ser conservado por até um ano. Portanto, não basta ir várias pessoas no mesmo dia e não voltarem mais, pois sempre deve haver material útil para ajudar pessoas. "Quando a coisa aperta, pedimos socorro e recebemos ajuda. Vem um pico enorme de doadores, o que é bom, mas muitos não têm o hábito de doar continuamente", diz Sandra.

Homens podem doar sangue a cada dois meses; mulheres, a cada três.

Falta de funcionários

Sandra Montebello recorda que a coleta era maior há cerca de sete anos por dois motivos: havia menos restrições para a doação, e a Fundação tinha mais funcionários. "Temos recursos humanos reduzidos por conta da crise que vivemos. Há anos não temos novos profissionais entrando na Pró-Sangue, o que nos impede de ter uma equipe para fazer coleta externa [em diferentes instituições] nos cinco dias úteis da semana", afirma. Hoje, os servidores fazem essa ação apenas às terças, quartas e quintas-feiras.

Como ajudar

Apesar da queda no número de funcionários, a médica responsável pelo posto de coleta do HC acredita que há uma melhora "lenta e gradual" ocorrendo, devido às parcerias com mais de cem empresas e o engajamento da juventude. A Jornalismo Júnior e a FEA Social, projetos de extensão da Universidade de São Paulo (USP) formados por jovens (de em média 18 a 25 anos), ajudam a Fundação Pró-Sangue todos os anos, por exemplo.

Para colaborar com a causa, a pessoa precisa estar boas condições de saúde, pesar no mínimo 50 quilos e ter entre 16 e 69 anos - desde que a primeira doação tenha sido feita até 60 anos de idade. Além disso, precisa-se estar descansado (ter dormido pelo menos seis horas nas últimas 24 horas), alimentado e evitar comidas gordurosas nas quatro horas antes da doação.

O hemocentro de São Paulo exige ainda documento original com foto recente emitida por órgão oficial (carteira de identidade, cartão de identidade de profissional liberal, carteira de trabalho e previdência social). O procedimento é gratuito e voluntário.

No site da instituição, os profissionais da saúde detalham todos os impeditivos temporários e definitivos para evitar surpresas na hora de doar. O uso de drogas ilícitas injetáveis, malária e doenças infecciosas transmissíveis pelo sangue estão entre as restrições. Leia aqui.

*Estagiário sob a supervisão de Charlise Morais