Bailarino envolvido em ataque com ácido volta ao Bolshoi

Neil MacFarquhar - The New York Times

Dmitrichenko, condenado em janeiro de 2013 por ordenar ataque, agora trabalha sob o mesmo teto que sua vítima

O bailarino Pavel V. Dmitrichenko

O bailarino Pavel V. Dmitrichenko Foto: Max Avdeev para The New York Times

MOSCOU – Recentemente, o escandaloso ataque com ácido, que manteve uma sombra sobre o famoso Balé Bolshoi por quase quatro anos, passou por mais uma reviravolta bizarra quando a instituição confirmou que permitiu que o dançarino condenado pelo crime voltasse a praticar lá.

O bailarino, Pavel V. Dmitrichenko, que foi solto da cadeia em maio, contou que recebeu agora um passe para entrar no prédio do novo diretor artístico do Bolshoi, o substituto do homem atacado. Dmitrichenko afirmou que agora vai ao local todos os dias.

Isso significa que Dmitrichenko, condenado em janeiro de 2013 por ordenar o ataque, agora trabalha sob o mesmo teto que Sergei Filin, sua vítima.

“Sinto que sou um viajante que voltou para casa depois de uma longa volta ao mundo”, afirmou Dmitrichenko, de 32 anos, em resposta a questões feitas por e-mail. “Sinto-me feliz e tranquilo.”

A administração do Bolshoi não quis comentar, a não ser para deixar claro que Dmitrichenko conseguiu um passe apenas para fazer suas rotinas de exercícios diárias. “Mas isso não significa que vá voltar para a companhia mais tarde”, explicou Katya Novikova, porta-voz do Bolshoi. “Essa questão não está nem mesmo sendo discutida no momento.”

Vladimir Urin, diretor geral do Bolshoi, disse imediatamente depois de Dmitrichenko ser solto que ele poderia fazer um teste na companhia se houvesse uma vaga e ele provasse seu talento como artista.

Dmitrichenko contou que encontrou Filin no teatro e descreveu o momento de maneira brusca como “nada especial”.

“Filin nunca foi interessante para mim, então não posso realmente dizer qualquer coisa sobre ele”, afirmou.

Filin não pode ser encontrado para comentários. Sua irmã, Elena, que já falou por ele em outras ocasiões, frequentemente por meio do Facebook, respondeu a um pedido de comentários bloqueando o repórter que fez a pergunta. Em uma entrevista em maio, Filin disse que temia por sua segurança se Dmitrichenko fosse solto, mas sua tentativa de evitar no tribunal que isso acontecesse não deu certo.

Dmitrichenko afirmou que conseguiu seu novo passe para o Bolshoi quando se encontrou por acaso pela primeira vez com o novo diretor artístico, Makhar K. Vaziev, em uma rua de Moscou.

Vaziev ofereceu o passe depois que Dmitrichenko, que era solista, explicou que estava tentando voltar para a profissão, afirmou o bailarino. Ele também contou que estava se apresentando pela Rússia com uma nova produção do “Lago dos Cisnes” para caridade.

As opiniões no mundo do balé russo se dividiram entre questionar o que algumas pessoas chamam de uma decisão eticamente duvidosa, que com certeza vai inflamar novamente o escândalo, e considerar um ato de bondade para uma pessoa que já pagou por seu erro.

Basicamente, as fendas dentro do Bolshoi que levaram ao ataque nunca se fecharam, com os bailarinos do corpo de balé tendendo a defender Dmitrichenko, enquanto os da elite favorecem Filin, que consideram como seu mentor.

Dmitrichenko em 2013, em Moscou

Dmitrichenko em 2013, em Moscou Foto: REUTERS/Maxim Shemetov/File Photo

Antes do ataque, Filin e Dmitrichenko brigaram abertamente pelo controle sobre o sindicato dos bailarinos, com Dmitrichenko denunciando Filin por corrupção e por ter uma vida boa, enquanto a maioria dos dançarinos era maltratada e ganhava pouco. Filin era frequentemente percebido como uma pessoa que fazia intrigas, propensa ao favoritismo e que pressionava os comentaristas de dança para criticar duramente os colegas de quem ele não gostava, como Dmitrichenko.

Simon Morrison, autor do novo livro “Bolshoi Confidential” e funcionário aposentado da instituição que não está autorizado a falar sobre o assunto publicamente, disse que havia uma tese de que, ao permitir que Dmitrichenko voltasse a praticar, a administração do Bolshoi havia encontrado uma maneira de apaziguar seus aliados sem dar a ele qualquer tipo de status oficial, que poderia alarmar seus inimigos e trazer ainda mais publicidade ruim.

“Há vários anos o teatro está muito polarizado e dividido”, conta Morrison, professor de música de Princeton.

Dmitrichenko, cuja especialidade como solista do Bolshoi eram os vilões, diz que não teve qualquer sensação de desaprovação enquanto praticava.

“O mundo do balé – artistas, professores, administradores, coreógrafos – é uma grande família unida por uma coisa que todos amam: a arte chamada balé”, disse, antes de afirmar que todos ali perceberam que “o caso contra mim foi fabricado”.

O funcionário aposentado do Bolshoi e duas outras pessoas ligadas ao teatro que também não estão autorizadas a falar publicamente disseram que as chances de ele voltar para a companhia são muito pequenas, apesar de Dmitrichenko achar que a permissão foi o primeiro passo.

No tribunal, os promotores descreveram Dmitrichenko como a pessoa que contratou o homem que atacou Filin, afirmando que ele estava indignado pelo fato de o ex-diretor ter negado papéis de estrela para sua namorada, Anzhelina Vorontsova. Ele também expressou frustração clara com o que chamava de corrupção e condições ruins de trabalho sob a administração de Filin. No julgamento, seu advogado sugeriu que o que deveria ter sido uma simples advertência, saiu muito do controle.

O homem que conduziu o ataque, o ex-presidiário Yuri Zarutsky, fez mais do que o encomendado ao jogar ácido no rosto de Filin, disse Dmitrichenko no tribunal, embora ele agora negue ter tido qualquer papel nos eventos. Em dezembro de 2013, Dmitrichenko foi condenado a seis anos de prisão, mas saiu antes por bom comportamento.

Depois de cirurgias extensivas, Filin cobre suas cicatrizes e olhos danificados por trás de óculos escuros. Este ano, foi afastado como diretor artístico e ficou encarregado de um programa de estímulo a jovens coreógrafos. Alguns bailarinos próximos de Dmitrichenko também acabaram demitidos depois do ataque.

Morrison observa que membros desse mundo fechado frequentemente têm problemas para distinguir entre os dramas operísticos que se passam no palco e aqueles de suas vidas diárias. Para eles, afirma, voltar a trabalhar com dois personagens principais envolvidos em um crime real – um deles com cicatrizes profundas e o outro recém-saído da cadeia – talvez não seja tão estranho.

Além disso, no ciclo de balés do Bolshoi, logo chegará a hora da apresentação de aniversário de “Ivan, o Terrível”, de Yuri N. Grigorovich – que tornou Dmitrichenko uma estrela.

É difícil, mas não impossível, imaginar que ele vai fazer a audição para o papel e poderá consegui-lo, diz Morrison. “Claro que, para a publicidade, não seria bom se ele estivesse no palco novamente se apresentando como Ivan, o terrível. Mas poderia acontecer.”