Apesar da crença popular, raça e comportamento canino não estão relacionados, aponta estudo

Issam Ahmed - AFP

Pesquisa genética publicada na revista 'Science' mostra que 'embora a genética desempenhe um papel na personalidade de qualquer cão, sua raça específica não é um bom indicador de tais características'

Apesar da crença de que pit bulls são agressivos, estudo mostra que personalidade de cães não tem relação com a raça.

Apesar da crença de que pit bulls são agressivos, estudo mostra que personalidade de cães não tem relação com a raça. Foto: Ariana Drehsler/ AFP

WASHINGTON, EUA - Estereótipos bem conhecidos sobre o comportamento dos cães, como rottweilers e pit bulls sendo agressivos, ou labradores e goldens retrievers super amigáveis, são refutados por um novo estudo sobre comportamento.

Trata-se de uma pesquisa genética publicada na quinta-feira, 28, na revista Science em que foram analisadas cerca de 200 mil respostas a questionários feitos aos donos de mais de 2 mil cães, que mostra que assumir que raça e comportamento estão ligados não tem fundamento.

Com certeza, muitos traços comportamentais podem ser hereditários, mas o conceito moderno de raça oferece um valor preditivo parcial para a maioria dos comportamentos, e quase nenhum para quão afetuoso um cão pode ser.

"Embora a genética desempenhe um papel na personalidade de qualquer cão, sua raça específica não é um bom indicador de tais características", segundo Elinor Karlsson, autora do estudo realizado pela universidade Umass Chan, o instituto Broad e a Universidade de Harvard

Outro senso comum é de que os Goldens Retriever são extremamente amigáveis, no entato, a raça não define o quão afetuoso o cão pode ser.

Outro senso comum é de que os Goldens Retriever são extremamente amigáveis, no entato, a raça não define o quão afetuoso o cão pode ser. Foto: Vega Rhor / AFP

"O que descobrimos é que os critérios que definem um golden retriever são suas características físicas - o formato de suas orelhas, a cor e qualidade de sua pelagem, seu tamanho - e não se é amigável", acrescentou a cientista.

A pesquisadora Kathleen Morrill explicou que entender as relações entre raça e comportamento pode ser o primeiro passo para entender os genes responsáveis por condições psiquiátricas em humanos, como transtornos obsessivo-compulsivos.

"Não podemos, porém, perguntar aos cães sobre seus problemas, pensamentos ou ansiedades. Sabemos que os cães têm uma vida emocional rica e experimentam distúrbios que se manifestam em seu comportamento", disse à imprensa.

 

 

Implicações legais

Foto tirada em setembro de 2021, durante o evento anual Surf City Surf Dog em Huntington Beach, Califórnia.

Foto tirada em setembro de 2021, durante o evento anual Surf City Surf Dog em Huntington Beach, Califórnia. Foto: J. Brown / AFP

A equipe de pesquisa sequenciou o DNA de 2.155 animais de raça pura e mistas para encontrar variantes genéticas comuns que pudessem prever seu comportamento e combinou essas informações com as respostas das entrevistas com 18.385 donos de animais da Arca de Darwin, uma iniciativa de dados abertos onde os donos descrevem as características e comportamentos de seus animais de estimação. 

Os pesquisadores estabeleceram definições padrão para relatar características como obediência, sociabilidade com humanos e padrões motores relacionados a brinquedos.

Características físicas e estéticas também fizeram parte do estudo. 

Ao todo, Karlsson e Morrill encontraram 11 pontos no genoma dos cães associados a diferenças comportamentais, incluindo obediência, devolução de objetos, apontar algo procurado e latidos.

Entre esses comportamentos, a raça desempenhou um certo papel - por exemplo, os beagles e sabujos tendem a uivar mais, os border collies são mais flexíveis, enquanto os shiba inus são muito menos. 

Mas sempre há exceções à regra. Por exemplo, embora os labradores tenham uma tendência menor de uivar, 8% o faziam. Ou enquanto 90% dos galgos não enterravam brinquedos, 3% o faziam com frequência. 

"Quando analisamos o fator que chamamos de limiar agonístico, que incluía muitas perguntas sobre se os cães reagiam agressivamente a determinadas coisas, não vimos um verdadeiro efeito da raça", disse Karlsson.

No geral, a raça explicou apenas 9% das variantes comportamentais, sendo a idade um melhor indicador de algumas características, como o uso de brinquedos. No entanto, as características físicas tiveram cinco vezes mais probabilidades a serem previstas pela raça do que pelo comportamento.

A ideia vai contra suposições generalizadas que influenciaram marcos legais. Por exemplo, o Reino Unido proibiu os pit bull terriers, assim como muitas cidades nos Estados Unidos.

 

 

Desordens humanas

Foto tirada em outubro de 2021, no 23º Concurso Anual de Fantasia de Filhotes de Cachorro, no parque Fort Greene, no Brooklyn, Nova York.

Foto tirada em outubro de 2021, no 23º Concurso Anual de Fantasia de Filhotes de Cachorro, no parque Fort Greene, no Brooklyn, Nova York. Foto: Ed Jones/ AFP

Antes do século 19, os cães eram selecionados por suas funções, como caça, guarda e pastoreio, diz a equipe de pesquisa em seu estudo.

"Em vez disso, as raças modernas de cães enfatizam a confirmação dos ideais físicos e a pureza da linhagem, é uma invenção vitoriana", aponta o documento. 

As raças modernas carregam variações genéticas de seus antecessores, mas não nas mesmas frequências, explicando a diferença de comportamento entre as raças. 

Os próximos passos, diz Morill, seriam aprofundar o estudo dos comportamentos compulsivos em cães e suas conexões com transtornos obsessivo-compulsivos em humanos.

Uma descoberta intrigante é que a sociabilidade dos cães em relação aos humanos foi "incrivelmente herdada nos cães", mesmo sem depender de sua raça. 

Os pesquisadores encontraram um ponto no DNA canino que poderia explicar 4% das diferenças de sociabilidade entre diferentes indivíduos, e esse ponto corresponde a uma área do genoma humano responsável pela formação da memória de longo prazo. 

"Pode ser que entender a sociabilidade dos cães com os humanos nos ajude a entender como o cérebro se desenvolve e aprende. Então, estamos apenas arranhando a superfície", apontou Morill.