Alunos ajudam professora trans a arrecadar dinheiro para cirurgia de troca de sexo

Hyndara Freitas - O Estado de S.Paulo

'Espero conseguir viver mais aliviada, de me olhar no espelho e me reconhecer', diz Danieli Balbi, que se recupera da operação

Foto: Reprodução/Facebook

A professora de Português e Literatura carioca Danieli Balbi se descobriu transexual aos 12 anos e há dois anos resolveu iniciar a transição, começando por mudar seus documentos e nome social. Mas faltava alguma coisa: ela queria fazer a cirurgia de redesignação sexual. O problema é que a cirurgia é muito cara na rede particular de saúde e, na rede pública, muito difícil e demorado. A solução? Arrecadar dinheiro por meio de doações.

"Eu precisava da cirurgia e não tinha dinheiro, mas de qualquer jeito, eu tinha de realizar a cirurgia ainda este ano. Aí eu fiz uma campanha direcionada a alguns amigos, fiz um vídeo, disparei pra alguns amigos e familiares e recebi algumas doações. Logo em seguida, eu comecei a realizar alguns empréstimos [bancários] e depois disso eu lancei uma campanha na plataforma Kickante, tudo isso pra conseguir juntar dinheiro e, depois, amortizar as dívidas e os respectivos juros que havia contraído", disse Danieli em entrevista ao E+.

A cirurgia de Dani, que substitui as características sexuais de um sexo pelas do sexo oposto, foi realizada na última semana, dia 22, paga com os empréstimos que conseguiu. A ideia é que o valor conseguido na plataforma de financiamento coletivo, R$ 40 mil, sirva justamente para pagar o empréstimo. A cirurgia custou R$ 40,5 mil na rede particular. Mas a ajuda não veio somente por meio da plataforma e seus alunos tiveram um papel essencial nessa trajetória.

Estudantes do Colégio de Aplicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (CAP UFRJ) se uniram para auxiliar a causa. Um grupo de alunos do 2º ano do ensino médio vendeu rifas para ajudar a professora, enquanto uma comissão de organização da festa junina da escola providenciou barracas de vendas: o valor arrecadado, cerca de R$ 6 mil, foi totalmente doado à Danieli. 

Paloma Lima, aluna do 3º ano do ensino médio, conta que ela e os colegas de classe reagiram muito bem ao saber que a professora era transexual. "Não teve uma reação estranha não, foi normal para a gente, a gente aqui no CAP aprende muito sobre diversidade e a respeitar outras pessoas, aqui ela não sofreu nenhum preconceito, nada do tipo, a gente a trata como uma pessoa normal, como ela é", disse.

A educadora é só elogios aos alunos "meus alunos são uns queridos, são uns anjos". Ela revela que não teve problemas justamente porque o colégio é muito politizado e temas de inclusão estão presentes no cotidiano dos alunos. "A escola debate sobre diferenças e isso é muito vivo em todas as questões, e não seria diferente com uma professora trans". 

Ela conta, inclusive, que recebeu muito apoio da direção da escola, que foi "uma das primeiras a lançar a campanha" e fez atividades para debater o conceito de gênero. "Foi muito por conta da minha presença na escola. A escola levou as crianças para assistir a peça BR-Trans, tudo isso para que o assunto fosse debatido, movimentado na perspectiva da dissolução dos preconceitos e dos tabus". 

Por falar em preconceito, Dani lembra que quando era mais nova, ao se assumir transexual, teve sorte no ambiente de amigos, que foram muito acolhedores, mesmo numa época em que não havia muita informação sobre transgêneros. Já com a família, foi um pouco mais difícil: "Com minha família foi complicado, eu falei há pouco tempo, quando eu iniciei a transição, há dois anos. Eu tive que falar porque eu já estava mudando socialmente, mudando os documentos. Lembro que minha mãe ficou bastante mexida e não teve uma boa reação, mas logo depois a gente foi retomando os laços e hoje está tudo bem".

A professora, que ainda se recupera da operação, espera que, daqui para a frente, possa viver mais aliviada. "A gente faz a cirurgia porque por trás disso existe um desconforto muito grande, um desajuste de imagem, da autoimagem, e não tem outro jeito a não ser recorrer a esse procedimento. 

Espero conseguir viver mais aliviada com a questão da autoestima, de me olhar no espelho e me reconhecer, e não ter a angústia de ter uma imagem que não corresponde à imagem que eu determinei para mim, que eu preciso vislumbrar", conta, esperançosa. 

A campanha de arrecadação de fundos no Kickante ainda tem cinco dias restantes, e não atingiu nem 10% da meta. É possível doar qualquer valor acima de R$ 10, por meio de cartão de crédito ou boleto bancário. Para ajudar, clique aqui. 

Gênero nas escolas. Num momento em que a transexualidade é assunto cada vez mais comum, as escolas têm um papel fundamental na apresentação dos conceitos e no debate. Como educadora, Danieli acredita que o gênero deve ser ensinado desde o ensino fundamental. "Quando a gente vai discutir gênero, a gente tenta falar sobre os papéis sociais, o histórico, por que esses papéis do feminino e do masculino são criados, então o gênero deve ser discutido desde muito cedo numa perspectiva ampla e emancipatória, mostrando que é uma construção social, que pode ser não-binária e que é fundamentada em preconceitos, dominações, assimetrias". 

A aluna Paloma concorda com a professora, pois acha que "é bem importante saber do que se está falando, para não sair por aí pensando besteira, fazendo coisas erradas e acabar ofendendo pessoas que se identificam com outros gêneros, ser preconceituoso". 

A adolescente ainda acredita que os jovens têm muito poder para mudar a imagem preconceituosa com que as trangêneros são vistas. "São principalmente os mais novos que têm de tirar esse pensamento preconceituoso com transexuais, homossexuais, bissexuais, enfim, com todos os gêneros. A gente é uma geração nova e tem que começar desde cedo, fazendo campanhas e ter mais diálogo com a galera".