Adestramento na quarentena: Tutores buscam auxílio online para ajudar pets

Camila Tuchlinski - O Estado de S.Paulo

‘É importante criar uma rotina para os cães não desenvolverem problemas como ansiedade por separação quando a vida voltar ao normal’, avalia adestrador

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A vida em quarentena por causa do novo coronavírus não está fácil para ninguém. E não é diferente para os pets. Com seus tutores fazendo home office, cuidando da casa e da educação dos filhos, fica difícil dividir atenção com eles.  

Após três anos juntos, a especialista em Marketing Karoline Kawamura e o marido decidiram adotar um cãozinho. Uma amiga do casal havia resgatado um, que estava em um buraco próximo ao shopping Plaza Sul, em São Paulo. “Mas ela não podia ficar com ele porque mora fora do Brasil e estava só de visita. Fomos num sábado conhecer, no dia 21 de dezembro, então, ganhamos um presente de natal adiantado. Ele veio bem magrinho e desnutrido, com cerca de um ano e pouco de idade. Mas hoje, depois de quase cinco meses com a gente, ele já está bem melhor”, relata.

Antes da pandemia do novo coronavírus, Mocha estava passando por treinamento positivo presencial. “O Mocha veio da rua e era um cão medroso com pessoas e cachorros. No começo, achamos que era ansiedade de separação, mas na realidade é mais a questão de não ficar sozinho. Então, buscamos o adestramento para resolver essas questões, já que queremos que ele socialize com as famílias. E eu e o meu marido trabalhamos fora e ele tinha que se acostumar a ficar mais tempo só”, afirma Karoline Kawamura. 

Karoline Kawamura e seu cãozinho Mocha

Karoline Kawamura e seu cãozinho Mocha Foto: Arquivo pessoal

Com a quarentena, Mocha fica mais tempo com seus tutores, o que tecnicamente poderia aliviar seu sofrimento. “A maior missão do adestramento positivo é promover o bem-estar e a qualidade de vida aos cães. Uma preocupação que tenho passado aos alunos é que os cães estão passando muito mais tempo junto deles do que normalmente. Quando as pessoas ficam horas trabalhando, existe uma outra dinâmica nas casas. Então, é importante criar uma rotina, dentro do possível, em que o cão também tenha momentos de independência e que fique bem sozinho em algum cômodo para não desenvolver problemas futuros como ansiedade por separação quando a vida voltar ao normal”, avalia o adestrador comportamentalista Thiago Barbieri, fundador da Cãocentrado Adestramento e Comportamento Animal.

Prevendo possíveis problemas futuros, o especialista decidiu adaptar as aulas presenciais para o mundo virtual. “O nível de estresse das pessoas está alto. Tenho alunos com filhos que não estão dando conta de fazer todas as atividades extracurriculares que as escolas têm passado nesse período. Eu preciso ter esse entendimento para saber dosar a quantidade de treinos ou exercícios que passo. Não quero que seja mais um peso para as famílias, ao contrário. Muitas aulas conversamos mais no sentido de aliviar a cobrança, mas sem deixar o cão totalmente desamparado ou sem atividade”, explica.

No início, Karoline estava indecisa em relação ao adestramento, mas logo percebeu que poderia ajudar Mocha. “As aulas de 1 hora por semana realmente são um ótimo momento de descompressão do meu dia a dia do trabalho e um foco de 100% no Mocha, onde o Thiago, do jeito leve e descontraído que ele tem, somado com o adestramento positivo, nos ajuda a entender melhor como poderia ser um comportamento mais saudável para ele, como focar a energia e atenção dele em algo que é bom. Tudo isso é realmente algo que está fazendo a vida do pequeno e a nossa mais leve”, avalia.

Antes da pandemia, adestrador Thiago Barbieri, fundador da Cãocentrado Adestramento e Comportamento Animal, realizava aulas presenciais

Antes da pandemia, adestrador Thiago Barbieri, fundador da Cãocentrado Adestramento e Comportamento Animal, realizava aulas presenciais Foto: Arquivo pessoal

A cadela Bernadete e sua tutora, Renata Almeida, não tiveram a experiência do adestramento positivo presencialmente como Mocha e Karoline. A jornalista adotou a pet através de uma divulgação da ONG Ampara Animal em abril. “A Bernadete já tem um ano e eu tinha a preocupação de conseguir fazer uma boa adaptação dela ao novo ambiente”, conta. 

Hoje, a tutora e a cachorrinha fazem adestramento positivo online. “Ela já entende comandos básicos como ‘senta' e 'fica', que são essenciais para que ela não fuja pelo portão, por exemplo. Não conheço a realidade das aulas presenciais - quando começamos já estávamos em período de isolamento social. Não sinto que perdemos com a distância. As aulas são feitas por vídeo, em tempo real, e o Thiago dá todo suporte ao longo da semana. Mandamos vídeos com os treinos, ele corrige o que é necessário. Recomendo muito as aulas online. A Bernadete responde muito bem a cada novo exercício e os treinos estão ajudando a tornar nossa relação melhor a cada dia”, conclui.

A jornalista Renata Almeida e sua Bernadete, que iniciaram adestramento positivo online

A jornalista Renata Almeida e sua Bernadete, que iniciaram adestramento positivo online Foto: Arquivo pessoal

Thiago Barbieri explica como foi o processo de adaptação das aulas presenciais para o mundo virtual. “Quando começou a quarentena, as aulas online se tornaram a melhor opção para dar continuidade ou iniciar a educação dos cães. Com as ferramentas tecnológicas que temos à disposição hoje, a aula online é muito rica de material de apoio, vídeos, o que facilita na hora de demonstrar um exercício. Independentemente do serviço presencial ou online, sempre conto com a participação e o envolvimento total dos alunos para que eles aprendam a se comunicar com seus cães. Estamos vivendo um momento de exceção. As pessoas estão isoladas em suas casas, com todas as obrigações e responsabilidades familiares, tendo de conciliar trabalho, educação dos filhos e cuidados dos cães”, pondera o adestrador. 

Dicas de como lidar com seu cão na quarentena

Para lidar melhor com seu pet em tempos de quarentena, o adestrador comportamentalista Thiago Barbieri, fundador da Cãocentrado, deu algumas dicas valiosas:

- Crie uma rotina, dentro do possível: momentos de independência são importantes para os cães;

- Prepare um cômodo para que o pet fique bem sozinho, assim, ele não desenvolve ansiedade por separação no futuro, quando não tiver mais a - presença das pessoas o tempo todo;

- Se você tem um filhote, aproveite para fazer o processo de habituação com sons, manipulações, escovação, criando associações positivas nessas situações. Assim, não perderão a fase principal de socialização deste filhote; 

- Se o seu cão já é adulto, aproveite o tempo com ele para observar os comportamentos naturais dele. Passe um tempo de qualidade com ele, crie atividades de brincadeiras, estimule que ele pense, que use os sentidos, lembrando que os cães "enxergam" o mundo através do olfato, então, treinos e brincadeiras de faro são ótimas opções para ele gastar energia sozinho.

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Adriana Pelege, Camila Tuchlinski e Instagram/@rodrigo.agnelli
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