A psicologia do gênero

Tom Vanderbilt - The New York Times

Segundo pesquisas realizadas, de um modo mais geral, quando inserimos as coisas em categorias realmente elas ficam mais similares àquilo que temos em mente

O gênero também é a maneira mais comum de entender a música. Mas neste caso também a percepção de categoria domina

O gênero também é a maneira mais comum de entender a música. Mas neste caso também a percepção de categoria domina Foto: Pixabay

Quando a cantora e compositora Lucinda Williams decidiu oferecer uma fita demo do material que constituiria seu futuro álbum, de início foi rejeitada por todas as gravadoras que procurou.

"Na Sony em Los Angeles a música foi considerada muito Country para ser rock, e então enviamos o trabalho para Nashville", disse ela. Mas em Nashville o que nos disseram era que era muito rock para ser Country". 

Seu álbum acabou sendo lançado pela Rough Trade Records - gravadora britânica mais conhecida pelos lançamentos de música Punk e Indy - e se tornou uma referência num gênero totalmente novo: o "Country alternativo".

O artista que luta contra a categorização fácil é um velho lugar comum. Basicamente foi o que definiu a carreira de Prince, que superou inúmeros problemas relacionados a essa categorização. Usando talento e audácia, ele criou sua própria categoria, simbolicamente mágica.

Nós, os ouvintes, somos especialistas instintivos e eternos na criação de categorias, atribuindo lugares para tudo, como escaninhos numa loja de discos. O cérebro humano é uma máquina de criar padrões. As categorias nos auxiliam a administrar a torrente de informações que recebemos e ordenar o mundo em padrões mais fáceis de assimilar.

Segundo os psicólogos James Beale e Frank Keil, vemos um arco-íris como faixas distintas de cores e não "uma sucessão gradual de cores que sabemos que ele deve ser". Mesmo que duas cores possam estar separadas na mesma distância em termos de largura de onda, nós as distinguimos mais facilmente quando elas cruzam uma categoria de cor.

Esta percepção das categorias de cores não é um processo inocente. O que achamos que estamos vendo pode alterar o que vemos na realidade. Segundo pesquisas realizadas, de um modo mais geral, quando inserimos as coisas em categorias realmente elas ficam mais similares àquilo que temos em mente.

"A similaridade serve como base para a classificação de objetos", escreveu o psicólogo Amos Tversky, "mas ela é também influenciada pela classificação adotada". O inconveniente é este: as coisas que podemos ver como mais similares se tornam, quando colocadas em categorias distintas, mais diferentes.

O gênero também é a maneira mais comum de entender a música. Mas neste caso também a percepção de categoria domina.

Na Echo Nest, empresa de "inteligência musical", de propriedade do Spotfy, o engenheiro de software Glenn McDonald criou um mapa extenso de gêneros musicais chamado Every Noise at Once. Acabou identificando mais de 1.400 gêneros, incluindo aqueles velhos favoritos, o future garage e black metal sinfônico.

Apesar de o computador ter dificuldade para observar uma grande diferença entre duas formas de música, os humanos parecem determinados a encontrar uma. Como exemplo de dois gêneros em que a música soa de modo similar, mas não é, Glenn cita a vegan straight Edge versus a hatecore (tipo de música punk que incita o ódio).

Se você não conhece as duas categorias musicais terá problemas para distinguir uma da outra - mas quando observar os dois grupos de fãs a diferença ficará bem aparente. 

Isto revela também, com frequência, que essas distinções existem com fins sociais: as pessoas rotulam a música e a música rotula as pessoas. Do mesmo modo que o arco-íris, a música Country e o Rock musicalmente podem estar mais próximos do que duas músicas em cada um dos dois gêneros, mas na nossa mente a categorização do gênero tem precedência. 

Essa categorização afeta não só a maneira como percebemos as coisas, mas como nos sentimos com relação a elas. Quando gostamos de alguma coisa, queremos decompô-la em novas categorias além do chamado nível básico. Os ornitólogos não veem somentepássaros, os jardineiros não veem apenas flores; mas veem variações específicas. Quanto mais gostamos de alguma coisa, mais apreciamos categorizá-la.

Como disse a professora de psicologia Debra Zellner, pessoas que colocam bebidas como café ou cerveja em categorias particulares realmente gostam de apreciar essas bebidas mais do que aquelas que simplesmente rotulam tudo como uma cerveja ou um café indiferentemente, nenhuma variação.

Assim, um crítico online do site BeerAdvocate descreveu uma cerveja como "um perfeito cortador de grama". Afinal é a melhor cerveja do mundo? Não, bastante boa num dia quente depois de limpar o jardim.

Mesmo quando apreciamos fazer uma categorização fácil, não somos rigorosos no tocante às próprias categorias. Há algumas décadas, por exemplo, a ideia de cerveja nos Estados Unidos era de uma bebida clara, bastante gaseificada, com baixo teor de álcool e sem gosto. Após a revolução da cerveja artesanal, a categoria de cervejas expandiu enormemente, com inúmeras subcategorias.

 

Qualquer pessoa que ainda se agarra à velha noção de cerveja provavelmente sentirá esse desconhecimento cognitivo - e um gosto ruim - quando experimentar uma "pale ale" com muito lúpulo, da Índia, ou uma amarga Lambic belga. Para alguns especialistas, pode nem mesmo ser cerveja. 

As categorias nos ajudam a desfrutar das coisas como são. Quando as categorias existentes não são suficientes, simplesmente inventamos novas. Exemplo é a variedade de filmes selecionados na home page dos usuários do Netflix. Com base no histórico do usuário eles oferecem micro-gêneros estranhos ("Documentários sobre combater o sistema", ou "Histórias satânicas estrangeiras dos anos 80") como uma maneira de reunir mais facilmente material difícil de classificar, na cabeça do espectador.

O grande perigo desta confiança na categorização é que podemos perder alguma coisa que está fora da nossa percepção. Há muitos exemplos de filmes - como Blade Runner ou O grande Lebowski, que foram recebidos de modo ambivalente pelo público quando lançados, provavelmente porque eram difíceis de colocar em uma categoria, e mesmo difíceis de explicar. 

Os cinéfilos que vão ao cinema esperando uma ficção científica ou uma comédia podem ter sentido mais do que uma falta de cognição. Mas com o tempo, as pessoas têm imaginado novas maneiras de analisar esse tipo de filmes, novas categorias.

Os filmes não mudaram. Nós sim. 

Tradução de Terezinha Martino