'A primeira dificuldade para ser negro no Brasil é viver', diz ativista do movimento negro

Anita Efraim - Especial para o Estado de S. Paulo

A cada 23 minutos, um jovem negro é morto no País

Artur é militante negro e LGBT e, por muitos anos, achou que as 'brincadeiras' sobre seu cabelo black power fossem bullying, não racismo

Artur é militante negro e LGBT e, por muitos anos, achou que as 'brincadeiras' sobre seu cabelo black power fossem bullying, não racismo Foto: Acervo pessoal

O movimento negro é, de modo simplificado, a luta contra o racismo e a busca pela sua superação de forma estrutural e institucional na sociedade. Esta é uma base comum, mas há diferentes vertentes dentro do mesmo objetivo, modos diferentes de se posicionar e de lutar. 

Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), realizada em 2014 pelo IBGE, 53% dos brasileiros se declararam como negros e pardos, um aumento de 5 pontos porcentuais em relação à mesma pesquisa realizada há dez anos. 

Artur Santoro, 19 anos, estudante, é militante negro LGBT e passou por este processo de assumir sua cor. "Eu sou negro de pele clara e por muito tempo não me entendia como negro, mas como branco. Sempre falo que saí do armário duas vezes: uma enquanto gay, outra enquanto negro", diz. "É muito como aqui no Brasil pessoas negras que se auto declaram brancas, porque a miscigenação aqui se deu com o objetivo de embranquecimento da nossa população". 

A aproximação do estudante com o movimento negro se deu no contexto das manifestações de julho de 2013, quando começou a se envolver com a política e com a militância por amigos. "Passei a compreender diversas situações que passei na minha vida com racistas. Sempre ouvi na escola piadas e xingamentos sobre o meu cabelo crespo", afirma Artur que, antes de ser militante, achava que se tratava de bullying. 

O mesmo aconteceu com Juliana Lourenço: "comecei a buscar e me buscar e me envolver mais nas questões de militância quando me assumi negra. Como grande parte das pessoas negras no Brasil, nós passamos boa parte da vida negando nossa origem e condição". O processo aconteceu com a jornalista recentemente, há menos de um ano. 

Representatividade e racismo. "O Brasil é o país com a maior população negra fora do continente africano, metade da população brasileira é negra, porém vemos poucas pessoas negras ocupando os espaços", diz Juliana e propõe a reflexão que fez para si mesma: quantos dentistas negros você conhece? 

"Quando eu fiz estágio eu era a única negra do setor e uma das poucas da empresa, mas ao entrar nos banheiros ou na área de limpeza, eu vi que 90% das mulheres que passavam o dia mantendo os locais limpos eram negras. O Brasil é um país racista, a diferença é que as pessoas têm o chamado 'racismo/preconceito velado'", relata Juliana. 

O racismo é sentido pelos negros de diferentes formas em seus cotidianos. Artur, por exemplo, afirma que, por ser gay, o racismo o atinge de formas diferentes. "Os maus olhares e xingamentos são uma constante. conseguir sair na rua sem ouvir uma risada ou sem ser agredido ao menos verbalmente se tornou uma raridade". 

Há as formas indiretas, como chama Artur, de se sentir agredido, como a ausência de pessoas negras nos espaços que frequenta. "Na USP, onde eu estudo, apenas 0,09% dos professores são negros", afirma. 

Além das ofensas que Juliana se acostumou a ouvir por toda a vida, ela afirma que já perdeu as contas de quantas vezes perguntaram se ela era adotada, pois sua mãe é branca. "Inclusive, quando eu era criança, cheguei a acreditar realmente que eu era adotada. Na minha visão, a infância e adolescência são as piores fases para uma pessoa negra, principalmente no âmbito escolar. Já no 'prézinho' eu e meus colegas de turma negros sofríamos racismo, que vão desde ser chamada de piolhenta até não ter par para dançar quadrilha, a última vez que participei de festas juninas eu estava na quinta série", relata. 

'Na minha visão, a infância e adolescência são as piores fases para uma pessoa negra, principalmente no âmbito escolar'

'Na minha visão, a infância e adolescência são as piores fases para uma pessoa negra, principalmente no âmbito escolar' Foto: Arquivo pessoal

Principais pautas. De acordo com Artur, os temas mais fortes dentro do movimento negro são o genocídio da população negra, o fim da polícia militar, o fim da guerra às drogas, as cotas raciais e as políticas de permanência em todas as universidades, oposição à redução da maioridade penal e outras. 

"Nossas pautas - infelizmente - ainda se referem a direitos básicos, como o direito de viver, de não ser assassinado pela polícia militar por estar com um saco de pipoca", diz o estudante, em referência a confusão do saco com um pacote de drogas.

O relatório final da CPI do Senado sobre o Assassinato de Jovens aponta que 23.100 jovens negros de 15 a 29 anos são assassinados: 63 por dia, um a cada 23 minutos.

"Todos os meus amigos já levaram enquadro da polícia sem mais nem menos, e quanto mais escura sua pele for, mais racismo você irá sofrer, infelizmente", lamenta Juliana.

Negra e mulher. Juliana, além de ser militante do movimento negro, também é engajada no movimento feminista e comenta como ser mulher e ser negra atinge a ela e a várias brasileiras: "somos preteridas desde sempre, somos hiperssexualizadas, somos estereotipadas, somos vistas apenas como mulheres para sexo, mas não para formar uma família".

Mundo acadêmico. A falta dos negros da área acadêmica é um ponto abordado tanto por Artur quanto por Juliana. Quando ela estava na universidade, em sua sala de 60 pessoas, apenas três eram negros, sendo dois bolsistas. Artur, por sua vez, questiona: "quantos teóricos, acadêmicos negros vocês conhecem? Quantos professores negros nas universidades?". 

O tema é importante para Artur porque voz é poder. "Historicamente, as vozes negras são silenciadas pelo racismo e abafadas em função da branquitude", afirma. "Nós já conhecemos o que pessoas brancas falam sobre racismo, porque elas sempre puderam e sempre irão poder falar sobre. Pessoas negras não", por isso, para ele, é importante que os negros tenham voz e representatividade. 

No dia 6 de julho, um relato de Mirna Moreira, negra e estudante de medicina da Universidade Estadual no Rio de Janeiro chamou atenção nas redes sociais. Divulgada pela página Boca de Favela, a história que ela conta é sobre um dia em que foi fazer uma ação sobre sexualidade em uma escola pública: "No dia dessa ação na escola eu voltei no mesmo ônibus que uma aluna, e quando eu desci no mesmo ponto que ela aqui no Complexo, ela perguntou: o que você tá fazendo aqui?

Ela não esperava que eu descesse aqui na favela. Eu chorei muito. Isso me marcou demais, até porque eu nunca tive uma representação física e próxima que eu pudesse me espelhar nesse campo profissional, essa mulher, negra, médica. Sabe?"

Envolvimento branco. Artur e Juliana pensam da mesma maneira quanto ao envolvimento de pessoas brancas na causa negra: o primeiro passo é reconhecer que sua cor dá privilégios e que o racismo é um problema latente na sociedade brasileira. 

Mesmo com a opinião de que o movimento negro deve ser sempre protagonizado por pessoas negras, Artur acredita que os brancos têm de se posicionar e colaborar com a luta. "Existe um abismo entre ser contra o racismo e lutar contra o racismo. Ser simplesmente contra não é suficiente para mudanças concretas", opina o jovem. "Pessoas brancas devem agir em utilizar seus privilégios para ecoar as vozes de pessoas negras na luta antirracista."

"Racismo não é mimimi, ele afeta diretamente em nossas vidas e de nossas famílias. Levar o discurso aos meios onde estamos inseridos é importante e necessário, desde a academia até a rodinha no bar com os nossos amigos e também em nossos lares", diz Juliana

Negros fora do movimento. "Não digo que elas atrapalham, mas dão margem para conclusões equivocadas da sociedade", é no que acredita a jornalista. E Artur concorda que não interferem na militância, pois também são vítimas do racismo, mesmo que eles não acreditem nisso. 

"Racismo não é uma religião que você precisa 'acreditar' ou não. Um caso disso é um rapaz negro de um movimento de direita, que já fez vários vídeos causando um desserviço para a causa negra, distorcendo toda a luta negra, mas que foi agredido por um grupo de policiais durante uma manifestação", relembra o estudante. "Nós lutamos para conseguir desconstruir pessoas negras com ideais racistas para que se tornem companheiros em nosso movimento". 

Precisamos do movimento negro? "A cada 23 minutos um jovem negro morre assassinado. A cada 23 minutos temos o porquê o movimento negro precisa existir", opina Artur. 

"Como disse Viola Davis: o que separa as mulheres negras das demais é a oportunidade. E para mim isso vale para as pessoas negras no geral. As pessoas brancas da atualidade não escravizaram os negros, mas elas são beneficiadas por um sistema que mata e exclui diariamente", diz Juliana ao justificar a importância da existência do movimento.