A inspiração que vem da resistência feminina

Siobhan Burke - The New York Times

A atriz, escritora e diretora Okwui Okpokwasili é uma nigeriana naturalizada americana e se inspira em movimentos de resistência de mulheres negras para criar suas peças

Okwui Okpokwasili estreou uma parceria com seu marido no New York Live Arts.

Okwui Okpokwasili estreou uma parceria com seu marido no New York Live Arts. Foto: Todd Heisler/The New York Times

Nova York – Quando Okwui Okpokwasili fala sobre seu trabalho, trata cada pergunta como um nó a ser desatado, tanto física quanto verbalmente. Gestos enfáticos pontuam suas frases, ou as complementam, como se o movimento pudesse evocar a resposta.

"Eu quero me acabar, mas só o suficiente", disse ela recentemente enquanto tomava um café perto de sua casa, no Brooklyn, discutindo a abordagem da apresentação e de como fazê-la. Suas palmas estão abertas como as páginas de um livro, sugerindo uma folha em branco ou a prontidão para o que der e vier. "E há a esperança de que outra coisa possa acontecer, não sei o quê."

Se você já viu Okpokwasili no palco – no seu trabalho que atenua a barreira de gêneros ou no dos bailarinos e atores de teatro como Ralph Lemon, Dean Moss e Young Jean Lopes – provavelmente sabe o que ela quer dizer. Com quase 1,83 m de altura, uma voz hipnótica e os membros que abraçam o espaço, ela se atira de cabeça em suas atuações, brincando com extremos de êxtase, tristeza ou raiva com intensidade quase perigosa.

Bronx Gothic, que recebeu o prêmio Bessie, um solo feroz e íntimo, inspirado em sua infância no Bronx (e objeto de um novo documentário que participará do Film Forum em julho), começa com ela tremendo quase ao ponto exaustão. Em How Can You Stay in the House All Day and Not Go Anywhere (Como você pode ficar em casa o dia todo e não ir a nenhum lugar?), de 2010, ela passou parte de cada apresentação em lágrimas.

É um quase que se perder. "Procuro mistérios, procuro alguma confusão útil", disse ela.

Mesmo que isso valha para todo seu trabalho como coreógrafa, escritora, atriz e diretora, Okpokwasili, de 44 anos, se referia ao mais recente, Poor People's TV Room, que começou uma temporada de duas semanas no New York Live Arts em 19 de abril.

Uma colaboração com o marido e parceiro criativo de longa data, Peter Born, também de 44 anos, o projeto surgiu de seu interesse em movimentos de resistência impulsionados por mulheres, as negras em particular, e no corpo como um local de protesto. Explorando os temas da memória e da invisibilidade, Okpokwasili, nigeriana naturalizada americana, é acompanhada por três mulheres com idades de 20 e tantos até quase 70. (A mais velha é a cantora sul-africana e atriz da Broadway vencedora do Olivier, Thuli Dumakude).

Um encontro de dança, texto, música, vídeo e instalação (Okpokwasili não gosta de falar de categorias disciplinares), Poor People's TV Room é ainda mais esquivo que seus trabalhos anteriores em termos de gênero e história. Perguntei se há uma narrativa, e ela respondeu: "Mais ou menos; quase".

Desde que estreou, há quase três anos, como uma canção de 50 minutos que apresentou no David Rubenstein Atrium do Lincoln Center, a peça passou por múltiplas versões (chegando quase a 90 minutos), incluindo apresentações em janeiro no Walker Art Center, em Mineápolis, que encomendou o trabalho do Live Arts e do Lumberyard.

Trecho da peça 'Poor People's TV Room' (Sala de TV de Pessoas Pobres, em tradução livre). 

Trecho da peça 'Poor People's TV Room' (Sala de TV de Pessoas Pobres, em tradução livre).  Foto: Todd Heisler/The New York Times

"Acho que ela não quer ser muito legível no sentido concreto da narrativa. Tem certa lógica, mas é muito alucinante, muito onírico e surreal, e acho que é tudo intencional", disse Philip Bither, curador de artes do Walker.

Embora os resultados possam ser maleáveis, Okpokwasili aponta duas fontes específicas de inspiração: em 2014, ficou fascinada pelo movimento Bring Back Our Girls, a resposta internacional ao sequestro de quase 300 alunas da Nigéria pelo grupo terrorista Boko Haram. Ela achou preocupante que, quando a frase se tornou uma hashtag viral, com elogios de celebridades de todo o mundo, as pessoas se esqueceram das criadoras do movimento: as mães das meninas.

Para Okpokwasili o fenômeno parecia refletir "o modo no qual as contribuições culturais das mulheres negras, mulheres africanas, são apagadas", disse ela em um e-mail. "Então, eu quis começar um tipo de revelação, a partir de mim mesma." Isso a levou a um exemplo anterior da resistência feminina nigeriana, a Guerra das Mulheres de 1929, em que milhares delas, da etnia Ibo, no sudeste da Nigéria, se opuseram à ameaça de impostos dos colonizadores britânicos. Sua luta era conhecida na língua ibo como 'egwu', que significa dança, e envolveu táticas de protesto enraizadas no corpo, como as mulheres mais velhas que exibiram seus seios na frente de autoridades do governo.

As inspirações iniciais de Okpokwasili podem não ser óbvias no trabalho final, mas mostram as perguntas que as geraram e que continua a fazer. "O que é isso, meu interesse em corpos escuros e mulheres escuras se apresentando? Isso tem a ver com marcar presença, marcar lugar, mas como fazer isso de uma forma que não fortaleça mais as práticas que as diminuam?", questiona ela.

Ao pensar nessas questões, ela e Born experimentaram com a revelação e o ocultamento do corpo, com a ajuda da cenografia dele, que inclui grandes áreas de plástico semitransparente e a utilização desorientadora de um feed de vídeo ao vivo. "Talvez você não consiga ver as coisas que quer. Ali estão os corpos negros, e talvez você não possa ter acesso a eles", disse Okpokwasili.

Trabalhar de forma colaborativa como fazem toma tempo e espaço. Em uma entrevista por telefone, Born disse que os dois haviam apreciado "o luxo" de várias residências onde puderam montar as muitas peças móveis do trabalho (um processo que, em outras circunstâncias, poderia ter se limitado a alguns dias). A mais importante foi no Live Arts, uma das oportunidades mais cobiçadas por coreógrafos do país, que garante um salário, seguro saúde, fundos para a produção e outros recursos.

"Eu só precisava acordar de manhã e pensar na peça. Não tenho que ser um assistente de produção, não tenho que ajudar a carregar o caminhão. Fiz isso durante muitos anos", disse Born.

Em um ensaio, duas semanas antes da estreia em Nova York, o trabalho ainda estava em andamento, com o roteiro sendo ajustado, falas sendo mudadas e diferenças sendo discutidas.

Okpokwasili e Born, que é branco e cresceu em Madison, Wisconsin, disseram que a discussão é uma força motriz em seu processo. Muitos dos seus debates giram em torno do papel da "linguagem da língua falada", como diz ela, em contraponto à linguagem física do trabalho, que às vezes sugere um corpo se quebrando em pedaços ou lutando para manter outro corpo vivo.

"Há algo tão essencial sendo comunicado pelo modo no qual essas mulheres se movem, uma em relação à outra, que às vezes nos perguntamos, será que a linguagem é supérflua?", disse Born sobre o script, que ele e Okpokwasili escreveram juntos. Ela acrescenta: "Nossas brigas sobre o que é o texto, ou quem vai colocar essa língua nesses corpos, acabaram se tornando meio complicadas".

Para ela, dançar, tanto quanto falar, é uma forma de questionamento.

"Exibe uma qualidade crua e feral", disse Lemon, que já trabalhou com ela por mais de uma década. Quando viu Okpokwasili dançar pela primeira vez, disse ele, "foi como olhar para uma coisa que eu nunca havia visto antes, certamente algo que não poderia vir do meu próprio corpo, e com compromisso total e confiança incrível".

"Só de brincadeira, eu a chamo de irmã que veio de outro planeta."

Talvez seja nesse planeta que resida Poor People's TV Room. Katrina Reid, uma das artistas, descreveu a entrada no estranho mundo da peça como "chegar a um túmulo sem nome".

"É interessante habitar esse espaço onde a ideia não é escolher a primeira resposta, ou a mais fácil. É tentar encontrar uma verdade, ou verdades múltiplas, ou até mesmo não encontrar uma resposta, mas uma pergunta mais atraente", disse ela.