A cultura dos príncipes e princesas da Disney é ruim para as meninas

Rebecca Hains - The Washington Post

A marca Princesa Disney sugere que o ativo mais valioso de uma menina é sua beleza, estimulando uma preocupação nada saudável com a aparência física

Quanto mais as meninas objeto do estudo estavam envolvidas com a cultura da princesa, mais se comportavam segundo um estereótipo feminino

Quanto mais as meninas objeto do estudo estavam envolvidas com a cultura da princesa, mais se comportavam segundo um estereótipo feminino Foto: Reprodução

As princesas de ficção são as eternas favoritas das crianças especialmente na fase pré-escolar. Desde que a Disney lançou sua marca Princesa, em 2000, ela está onipresente, representada em praticamente todas as categorias de produtos - em bonecas e vestidos, naturalmente, até em embalagens com sementes de flores e uvas.

O resultado é que as meninas se identificam demais com a cultura da princesa e os adultos com frequência acham que o amor que elas nutrem pelas princesas é algo natural. Quando uma garota ousa ser diferente, é algo inesperado e divertido - como foi o caso recente, que despertou afeição e elogios - da menina que ousou se vestir como cachorro-quente em vez de usar uma roupa de princesa no evento Dia da Princesa no seu curso de dança.

Quando uma garota ousa ser diferente, é algo inesperado e divertido 

Quando uma garota ousa ser diferente, é algo inesperado e divertido  Foto: Reprodução/ Twitter

Mas a cultura da princesa não implica sempre alegria e jogos. A marca Princesa Disney sugere que o ativo mais valioso de uma menina é sua beleza, estimulando uma preocupação nada saudável com a aparência física. A marca também sugere que as meninas devem ser doces e submissas, à espera daquele que vem em seu socorro num ato de amor à primeira vista. Embora personagens mais novas como Elsa, Anna, Merida e Rapunzel se comportem de outro modo, corrigindo tais ideias, no geral a marca está defasada em relação às ideias mais modernas sobre educação das meninas.

Agora artigo publicado na revista Child Development expõe com mais detalhes os efeitos da cultura da princesa sobre as garotas. A autora Sarah Coyne, professora no curso de Vida em Família na Brigham Young University, decidiu realizar um estudo a respeito depois de ler o livro de Peggy Orenstein, lançado em 2011, Cindrella Ate My Daughter. Sua filha tinha três anos na época, e como mãe, Sarah dividia as mesmas preocupações de Peggy Orenstein sobre o que o marketing em torno da princesa estava provocando. E como cientista social descobriu também que existiam poucos dados científicos sociais sobre a influência da cultura da princesa.

Sarah e sua equipe realizaram uma pesquisa com 198 meninas e meninos de jardim da infância e em idade pré-escolar. As conclusões do estudo reforçam algumas preocupações mais sérias sobre o assunto. Por exemplo:

Quanto mais as meninas objeto do estudo estavam envolvidas com a cultura da princesa, mais se comportavam segundo um estereótipo feminino.

As meninas menos interessadas na imagem do corpo, no início da pesquisa, mostravam-se mais interessadas na cultura da princesa um ano depois.

Não havia evidências de que o envolvimento das garotas com essa cultura influenciava o comportamento delas para melhor. O potencial das princesas como exemplo positivo e pró-social é limitado.

Apesar de estas conclusões não surpreenderem os críticos da cultura da princesa, elas são úteis no sentido de novos dados que confirmam as preocupações a partir de um enfoque metodológico diferente. "A grande contribuição deste estudo é que agora possuímos dados a respeito. Há muito tempo falamos sobre princesas e o que havia eram especulações".

Enquanto outros estudos (como o meu próprio) examinaram os inconvenientes da cultura da princesa a partir de uma perspectiva etnográfica e qualitativa, com base em entrevistas, o estudo de Sarah Coyne é excepcional por coletar dados longitudinais, mensuráveis e controlados sobre 198 crianças.

Em primeiro lugar, de acordo com o estudo, o envolvimento com a cultura da princesa parece ter efeitos positivos sobre os meninos, contrabalançando algumas das mensagens tipicamente agressivas encontradas na mídia direcionadas para os meninos.

Outra conclusão: assistir a filmes de princesas não prejudicou a imagem do corpo que as meninas durante o período de tempo da pesquisa, que foi de um ano. E muitas garotas mantinham imagens do corpo muito positivas no início e no final do estudo. O que pode ser um alívio para pais preocupados com o tipo de corpo inatingível e amplamente homogêneo das princesas da Disney.

Baseados em literatura prévia sobre a preocupação com o corpo por parte das meninas em fase de adolescência ou pré-adolescência, os autores alertam que se as garotas fossem acompanhadas por um período mais longo de tempo, efeitos negativos poderiam ser observados. Por esta razão, Sarah Coyne gostaria de realizar um estudo complementar com as participantes do primeiro, depois de cinco anos. 

Outra conclusão: os autores verificaram que as meninas adotavam um comportamento feminino baseado em estereótipos (um resultado negativo da cultura da princesa) quando os pais informavam que conversavam sobre programas de TV ou filmes com elas. É desconcertante uma vez que pesquisas sobre intermediação dos pais demonstram que as crianças se beneficiam quando elas discutem com esses programas.

Mas os pesquisadores não perguntaram aos pais sobre o que conversam com os filhos. Sarah Coyne suspeita que os pais que participaram do estudo podem ter reforçado mensagens controversas - elogiando aparições físicas de personagens da TV, por exemplo.

No geral, o estudo "Pretty as a Princess" faz bom uso dos métodos adotados pelas ciências sociais. E confirma preocupações antigas sobre a cultura da princesa, apesar de indicações de alguns efeitos positivos para os meninos. E também desperta a necessária atenção para a importância de se conversar de maneira crítica com as crianças sobre programas de TV que elas apreciam. Se formos descuidados na nossa abordagem, podemos sem querer reforçar as mensagens prejudiciais da mídia. Mas se formos cuidadosos, podemos ajudar nossos filhos a se tornarem resistentes às influências negativas.

Tradução de Terezinha Martino