A alegria e a ansiedade de ser introvertido

Karen Coroday - - The Washington Post

Se devo sair uma amiga e ela me envia uma mensagem de texto para dizer que está doente, claro que sinto por ela. Mas fico feliz pelo fato de ficar com o tempo todo para mim

Foto: Pixabay

Uma amiga que ficou solteira recentemente pediu-me para ajudá-la a fazer seu perfil num site de namoro, apesar de eu nunca ter feito um em meu nome. Vivo feliz sozinha, a uma hora e meia distante do meu parceiro de sete anos, o que acho muito bom. Sou a última pessoa apta a ajudar alguém a fazer seu perfil em sites de namoro. Mas procurei ajudá-la.

"Descreva como é sua típica noite de sexta-feira", era uma das questões. "Hum. Não tenho uma típica noite de sexta-feira. O que você costuma fazer nas noites de sexta-feira?" "Tento me livrar dos planos que fiz na tarde de quarta-feira!", brinquei.

Ela pensou e respondeu: "É verdade. É o que você faz".

Esperei que não fosse uma piada.

Não há nada que mais gosto do que planos cancelados. Se devo sair uma amiga e ela me envia uma mensagem de texto para dizer que está doente, claro que sinto por ela. Mas fico feliz pelo fato de ficar com o tempo todo para mim.

Este é um comportamento antissocial que, combinado com minha falta de filhos, provavelmente me levará a viver sozinha num asilo de idosos no fim da minha vida. Bom. Pelo menos minhas expectativas são zero. Repousarei no meu minúsculo leito institucional, relerei meus livros de crime no meu iPad retrô e assim terminarei meus dias numa solidão abençoada.

Virou moda falar sobre ser introvertido, mas não me orgulho muito disto. Não gosto do fato de, após um dia trabalhando, pegar o ônibus para ir para o trabalho e voltar para casa, sempre necessito de uma noite tranquila em casa para me recuperar.

E tudo começa quando pego o ônibus perto do apartamento onde moro. Imediatamente tenho plena consciência do número de pessoas no ônibus, a tensão de muitos e a maneira nada eficiente no uso do espaço de passageiros. Depois de um quarteirão, meus ombros estão tão tensos que quase chegam aos meus olhos, boca amarrada e as rugas prematuras entre as minhas sobrancelhas que ali estão desde que estudava na 10ª série formam uma caverna profunda, furiosa.

Isto tudo em questão de cinco minutos depois de deixar minha casa, e só vou retornar pelo menos depois de 8 horas e 55 minutos. Surpreende que, ao chegar em casa, estou pronta para me afundar no conforto do meu sofá, com meus gatos, Netflix e nunca mais sair de novo?

De algum modo consegui cultivar amizades com outras pessoas antissociais. Recentemente encontrei-me com cinco amigas para jantar e não nos víamos há alguns meses. Apesar de gostar muito dessas pessoas, odiei a ideia do jantar e queria ficar em casa, só, talvez enviar de vez em quando mensagens divertidas para essas mesmas amigas.

Mas em vez disto, armei-me de coragem e me vesti, saí de casa e fisicamente reuni-me com outras pessoas num restaurante lotado, barulhento. Nos acomodamos para tomar um drinque e aperitivos e começamos a conversar; foi agradável e realmente eu me diverti.

Uma das minhas amigas exclamou: "é muito divertido quando ficamos muito tempo sem nos ver e nos encontramos novamente".

"Realmente. Tenho tido dificuldade para sair de casa. Quando chego do trabalho, não tenho vontade de sair", disse.

Todas elas concordaram, sinceramente. De certo modo todas elas também lutaram para sair de casa e encontrar cinco outras amigas antissociais. Que sorte!

Nossas conhecidas mais sociáveis já desistiram de nós há muito tempo e não sei onde devem estar, reunindo-se pela terceira vez na semana. Vibrei, agradecendo o fato de que tão logo esta agradável noite chegasse ao fim eu voltaria para casa e não precisaria interagir com aquelas pessoas hilárias, brilhantes novamente por um longo tempo.

Talvez da próxima vez seria o caso de apenas trocarmos mensagens de texto deitadas no nosso sofá confortável.

Tradução de Terezinha Martino