Zona de conforto

Marcelo Lima - O Estado de S.Paulo

Cabeceiras crescem -em tamanho e importância- nos novos modelos de cama, recém-lançados pela indústria italiana

Cama com cabeceira de couro, de Roberto Lazzeroni, para a Poltrona Frau

Cama com cabeceira de couro, de Roberto Lazzeroni, para a Poltrona Frau Foto: divulgação

Duas condições saltam aos olhos ao passarmos em revista aos novos modelos de camas apresentados no Salão do Móvel de Milão 2.014: a primeira é de que elas estão mais delgadas, mais elegantes, menos densas em termos de matéria-prima empregada. A outra, é que estão visivelmente mais altas -dos pés à cabeceira- o que só reforça a sensação geral de leveza. 

“Uma das principais características da nossa cama é a cabeceira alta, que imprime ao móvel uma verticalidade mais acentuada, o tornando mais presente, mesmo em face a ambientes menores, como aliás costumam ser os quartos atuais”, explica o designer Roberto Palomba, autor de Agio, móvel projetado em parceria com a mulher, Ludovica, para a Zanotta.

Inspirada no desenho do sofá Bruce, desenvolvida para a empresa italiana no ano passado, a Agio ganhou uma cabeceira inteiramente acolchoada, de forma a sugerir conforto e acolhimento. Como revestimento, o consumidor pode optar tanto uma capa de tecido removível como por uma de couro. De qualquer forma, com pernas de alumínio, natural ou niquelado, a cama parece flutuar noa ar. 

“A leveza das proporções contrasta com o peso da cabeceira e com os detalhes de acabamento, sobretudo a costura”, comenta Ludovica. Executada artesanalmente, tal qual acontece na cama projetado pelo casal Palomba, costura aparente e maestria na execução são, aliás, itens que distinguem outro importante lançamentos da temporada: a cama Mamy Blue, de Roberto Lazzeroni.

Um móvel híbrido, meio cama, meio divã, meio escultura, feito para ocupar, literalmente, posição central na cena doméstica. “A ideia foi conceber uma cabeceira pronunciada, capaz de envolver, simbolicamente, a área de dormir”, conta Lazzeroni, que ressalta a maestria do acabamento da peça, a cargo dos artesãos da Poltrona Frau, como um de seus principais diferenciais.

“Trata-se de uma cama desenhada para ser vista a partir de qualquer ângulo. Nela não existe frente ou verso. Por isso, ela pode confortavelmente ser posicionada no centro de um quarto. Ou mesmo de uma sala, por que não?”, comenta o designer, que dotou o móvel de pés de madeira wengê, como forma de destacá-lo do chão e suavizar seu impacto visual. 

Apesar de menos presente, a cabeceira generosa é um detalhe que distingue outro dos lançamentos da Poltrona Frau, este ano: a cama Gran Torino, projetada pelo francês Jean-Marie Massaud. Porém, ao contrário do móvel projetado por Lazzeroni, aqui sua espessura foi mantida sob controle, criando um efeito visual próximo ao de uma composição de painéis. 

A estrutura da cama, por sua vez, é presa à cabeceira por meio de um travamento especial, que faz com que ela pareçam estar, simplesmente, se tocando, reforçando a suavidade visual do conjunto. Por fim, a parte posterior da cabeceira pode ser estofada no mesmo material que a frontal, possibilitando que ela seja também descolada de qualquer parede.

Feita com tábuas de compensado, levemente acolchoadas com espuma de poliuretano, a estrutura da Gran Torino surpreende por sua leveza física e visual. Já as pernas, em forma de lâmina, feitas de aço revestido de titânio, foram posicionadas nos quatro cantos do móvel, o qual sugere que a cama esteja suspensa no espaço, evocando o mesmo efeito da Mammy Blue.

Duas reedições, apresentadas no Salão deste ano, caminham na mesma linha: a cama Gimme Shelter, da Moroso, para a Diesel Collection -desenhada, no ano passado, para delimitar um espaço privado, dentro de um outro espaço- e a Edward I, cama dotada de dossel, criada em 2.005 pela italiana Antonia Astori, para a Driade. Ambas, repaginadas por novos materiais e acabamentos.

No caso da Gimme Shelter, a cabeceira, visualmente simples, foi pensada para envolver o seu usuário em seu próprio mundo. Seja ela forrada em feltro colorido, veludo ou linho, a ideia é sugerir privacidade. Ainda que em meio a uma atmosfera informal e descompromissada. Já em se tratando da Edward I os objetivos são audaciosos.

Definida pela sua criadora com um "móvel memória" , ou em outras palavras, uma peça que remete a arquétipos desaparecidos, ela excede em preciosismo sofisticação: a estrutura é de aço inox acetinado; a base, de madeira maciça.“A maioria dos móveis conta como as pessoas vivem. Outros vão além e tratam também de sua vida interior. Acredito ser este o caso”, confidencia Astori.

Channi Anand/AP
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