Volta às origens

- O Estado de S.Paulo

Salão do Móvel abandona os exageros e retoma o essencial

Não se trata de saudar a Semana de Design, recém-concluída, como o início de uma nova era. Nem tampouco é a primeira vez que o design esboça uma atitude de reação diante de circunstâncias adversas. Mas, em Milão, ao contrário do que possa representar em termos de faturamento, a atual crise econômica acabou por representar um ponto de inflexão positivo rumo a um design mais significativo e concreto, mais afeito às necessidades reais (alegria incluída), e menos ao desperdício e à ostentação.

Ao menos é a sensação que se tem ao se analisar a produção apresentada na última edição da grande quermesse do design. "A criatividade é o único recurso natural à disposição de nós, italianos. Não por acaso, é a ela que recorremos nos momentos de crise", declara o designer Gaetano Pesce, em seu manifesto estampado na capa da edição comemorativa, por ocasião da abertura do Salão do Móvel, no jornal Corriere della Sera.

Foi essa capacidade de se reinventar o assunto de todas as rodas diante dos lançamentos apresentados em Milão. Longe dos ilusionismos e exageros de anos recentes, o design parece retomar a ideia de uma elegância natural, essencial ao móvel. Caem por terra, ao menos por ora, os sofás quilométricos, os acabamentos milionários, os lustres oversized.

 

Sofá Montanara, do designer Gaetano Pesce, revestido com imagens digitalizadas no tecido

Em Milão 2009, mais do que nunca, Deus está nos detalhes: em proporções bem estudadas, no uso de materiais alternativos - em geral, sustentáveis -, no rigor dos acabamentos, na escolha do tom exato, capaz de imprimir uma dimensão a mais a cada móvel. Claro que isso tudo ainda em meio à proliferação de repetições; do recurso gasto das reedições; da maquiagem feita às pressas, para fazer os móveis se sobressaírem aos olhos do consumidor.

Em uma análise mais seletiva, do design hoje se espera mais que ilusões de ótica, ou exercícios de estilo. Se espera real valor, expresso em longevidade, resistência, qualidade e inspiração. Seja ela a natureza, uma cor, uma emoção. Aquele algo a mais capaz de fazer de um móvel uma espécie de arte útil. Não mais restrita à peça única ou aos museus. Mas viva e atuante no cotidiano doméstico. Como nos primeiros tempos.