Volta ao mundo

Marcelo Lima - O Estado de São Paulo

Arquiteto e designer, Ricardo Bello Dias apresenta a coleção West East, de móveis planejados, desenhada para a Ornare a partir de múltiplas referências culturais

O arquiteto e designer Ricardo Bello Dias

O arquiteto e designer Ricardo Bello Dias Foto: Bruna Guerra

Ninguém duvida que, em se tratando de design, os detalhes fazem toda a diferença. A máxima, válida para qualquer tipo de projeto, é especialmente válida no segmento de móveis planejados. Adepto da ideia, o arquiteto radicado na Itália, Ricardo Bello Dias, há quatro anos tem se empenhado em renovar, por meio de intervenções pontuais – mas ainda assim decisivas –, as linhas de armários para cozinhas, salas e dormitórios produzidos, pela hoje internacional, Ornare. Batizada de West East, a mais nova coleção da marca, lançada na semana passada em São Paulo, após ser apresentada em Milão e Nova York, se propõe a navegar livremente por diferentes modelos de civilização. “Estamos mais nômades, viajamos mais, sentimos necessidade de maior leveza. O desenho da casa deve ser capaz de responder a essas transformações”, afirma Bello Dias, nesta entrevista ao Casa

Como você vê o funcionamento da casa hoje?

Creio que a revolução digital esta fazendo as pessoas reavaliarem suas vidas e, em consequência, a forma que vivem em seus espaços. As pessoas viajam mais, mudam com uma frequência muito maior do que no passado. Por isso querem viver de forma mais livre, com menos bagagem e em espaços mais personalizados. Daí nossa ideia de propor uma linha de móveis que funcionasse como um grande sistema. Formados por perfis delicados, ganchos, superfícies laminares integráveis e encaixáveis. Tudo para que nosso cliente, ou seu arquiteto, pudesse compor seu próprio universo. Único e intransferível.

Móveis, objetos e acessórios inspirados pela comunidade Shaker

Móveis, objetos e acessórios inspirados pela comunidade Shaker Foto: Ruy Teixeira

E como referências culturais tão distantes quanto a filosofia Ikigai e a comunidade Shaker se ligam a essas transformações? 

Acredito que além de conferir um novo significado, propagar essas culturas pode ajudar a humanizar nossos produtos. Além do que, muitos dos conceitos difundidos por elas têm tudo a ver com a vida contemporânea. O Ikigai, por exemplo, é um conceito japonês que significa ‘uma razão para ser’, ou seja, o valor que algo ocupa na vida de alguém ou que faz a vida valer a pena. Já os Shakers, um grupo religioso que surgiu na Inglaterra no século XVIII, à sua época praticava o pacifismo, valorizava um estilo de vida mais comunitário e, ao seu modo, a igualdade entre os sexos. Tem até algo de muito sustentável quando afirmavam: “Não faça algo a menos que seja necessário e útil. Mas, se for, faça. E não hesite em torná-lo bonito”.

De que forma esses dados culturais aparecem traduzidos no desenho das peças da coleção?

A linha Ikigai, por exemplo, é inspirada em dois valores primordiais da cultura asiática: a essencialidade e a inovação. Assim, por meio de uma estrutura leve e minimalista, propõe portas para armários que deixam à vista apenas um vislumbre de sua estrutura de metal. O mesmo sistema, em maior escala, surge também na forma de portas giratórias e deslizantes e de uma estante flexível, com prateleiras delgadas, adaptáveis às diversas situações de fixação. Já na coleção Shaker, oferecemos uma reinterpretação das cozinhas e armários tradicionais da comunidade, partindo da ideia de portas com molduras, mas apresentadas em versão metálica, o que amplia as possibilidades de personalização. A linha também se distingue por seu aspecto lúdico, inspirado no viver Shaker. De uma forma muito essencial, eles costumavam pendurar objetos cotidianos em barras nas paredes. E foi a partir desta inspiração que criamos a nossa versão do objeto e também um banco de madeira. Uma homenagem ao legado deles.

Cozinha com armários e bancadas inspirados pela filosofia Ikigai

Cozinha com armários e bancadas inspirados pela filosofia Ikigai Foto: Ruy Teixeira