Vida no Centro

BETE HOPPE - O Estado de S.Paulo

Olivier Anquier está cercado de referências francesas em seu novo apê

Desde que por aqui lançou âncora, há 30 anos, o bonitão francês Olivier Anquier - que planejava apenas passar um mês de férias, mas apaixonou-se pelo país - já foi top model (nos primeiros dez anos de Brasil) e dono de restaurantes, em Jericoacoara (CE) e Florianópolis. Mas ganhou fama mesmo como padeiro, em São Paulo, ao abrir a boulangerie Pain de France, em 1995 (que funcionou até 97, quando passou a fabricar pães com exclusividade para a rede de supermercados Pão de Açúcar), e a Anquier, em 2003, mix de padaria e loja, que vendia produtos com sua própria marca (e cerrou as portas em 2005).

Os pães o tornaram uma espécie de showman: comandou programas de culinária na TV (na Record, Globo e GNT, e negocia sua volta às telas ainda este ano), publicou quatro livros, faz as vezes de ator na peça Olivier, Fusca e Fogão, é consultor gastronômico, dá palestras e ainda mantém o Programa do Olivier em seu site. Enfim, um homem plural.

Naturalizado brasileiro, o parisiense da gema carrega a França no sotaque e na forma de se relacionar com o tempo e com a vida. O próprio apartamento e o bairro que escolheu para morar têm a ver com a herança francesa. Após anos no aluguel, no fim de 2007, às vésperas de vencer o contrato da casa de vila, em Pinheiros, Olivier decidiu virar a página e comprar um imóvel. E tinha de ser no centro. Na cobertura de 374 m² do Edifício Esther, projetado pelo arquiteto Vital Brazil nos anos 30, ele encontrou o endereço ideal para viver como gosta: cercado de história. "Como em grandes capitais europeias, o centro é onde a cidade nasce, como aconteceu em Paris. Representa sua trajetória, sua vida. Pode ter ciclos de declínio, mas sempre será a alma da cidade", justifica. "E São Paulo não é diferente. Acredito que essa região vai voltar a ter o glamour de antigamente. E quero fazer parte disso."

Conceito preservado

O sonho de morar no centro vem desde que Olivier conheceu um apê na Avenida São Luís, há 25 anos. Em sua via-crúcis pelo centro, ele visitou mais de 20 imóveis, mas quando viu o terraço da cobertura (onde hoje toma o café da manhã), a luz verde piscou e, apesar do aspecto deplorável do prédio, fechou negócio. "Foi rápido; afinal, só louco para comprar aqui", diverte-se Olivier, que pesquisou detalhes do projeto, de plantas aos acabamentos, antes de iniciar uma grande restauração. "Gosto de resgatar a originalidade das peças. Adaptei ao meu jeito, mas conservei o conceito."

Ao final de nove meses, rodapés, colunas e vigas invertidas rejuvenesceram, mas, para ficar com a cara do dono, a cozinha, que para ele é "a alma da casa", foi integrada ao living. "Cozinho todos os dias, pelo prazer, para alimentar o corpo e o espírito." O assoalho também é original de época, mas parte dele veio da vizinhança. "Lotei uma caminhonete com os tacos que catei numa caçamba lá na Rua Amaral Gurgel, às 5 da manhã", recorda-se. "Os tons diferentes fazem um composé no piso que serve como um elemento a mais de decoração, que deve ter a cara do dono", diz Olivier.

Por isso, o mobiliário o acompanha há anos, adquirido em feirinhas, brechós e antiquários. "Novo, só o fogão e a geladeira (Bosch)." Com todo o arsenal à vista, a cozinha metalizada harmoniza-se com o resto da casa, graças ao mix de moderno e antigo. Sobre o fogão vitrocerâmico (Bosch) na bancada de metal (feita sob encomenda pela Mekal), por exemplo, descansa um panelão de ferro do século 18, encontrado em um ferro-velho, que hoje serve como uma superwok. "Não tenho um lugar certo para comprar. Se algo me chama a atenção, paro." Foi assim que amealhou para o novo apê as banquetas da cozinha, assinadas por Zanine Caldas, num brechó no Recife (pelas quais pagou R$ 450, mas há versões atuais na Dpot), e o lustre dos anos 40, da Dominici (de loja na Rua Cardeal Arcoverde), que está na saleta de TV.

É nessa saleta que seu país natal vibra com mais força. Ali estão a miniatura do ícone Concorde (da feira no Bexiga), a luminária NPB, do amigo designer Pierre Benain, e o grande quadro preto e branco (1,50 m x 1,80 m) desenhado a seis mãos pelos caricaturistas Jefé, Fred e Tardy, que ganharam fama nos anos 70 no programa Tac o Tac, expressão francesa que equivale ao nosso repente. "O desenho é um patrimônio na França. E quando moleque eu era fã do programa deles", diz Olivier, que comprou o acervo com 25 obras de uma amiga francesa há 30 anos, mas só trouxe dois para o Brasil.

Da última viagem a Paris, em agosto, trouxe apenas um álbum de fotos de família, presente da tia Nicole. Que, aliás, será homenageada no nome e no menu do novo bistrô de Olivier, o L?Entrecôte de ma Tante, que será aberto em maio, no Itaim. "Terá um só prato quente, o contrafilé, com um molho matador, que é especialidade dela", revela.