Uma mulher à frente do seu tempo

Marcelo Lima - O Estado de S. Paulo

Entre a arquitetura e o design, conheça a trajetória de Charlotte Perriand

Charlotte Perriand em foto dos anos 1990

Charlotte Perriand em foto dos anos 1990 Foto: ARQUIVOS FONDATION LOUIS VUITTON / PARIS

Conheci Charlotte Perriand nos anos 1990, durante um evento na sede do Instituto dos Arquitetos do Brasil, na Rua Bento Freitas. Eu, um garoto tímido, ainda na faculdade, ensaiando minhas primeiras frases em francês e interessado, antes de mais nada, em saber como teria sido trabalhar com o gênio da arquitetura, Le Corbusier. Ela, uma senhora segura, sorridente, de bochechas rosadas e coque bem delineado. 

Nossa foto juntos ainda existe. Garanto. Mas, de tão bem guardada, não vejo há tempos. Só sei que nela Charlotte parece segredar algo em meu ouvido e do conteúdo da conversa me lembro bem: “Ele era terrível! Muito exigente. Mas, justamente por isso, valeu muito”, foi sua resposta quando indaguei como era trabalhar com o célebre arquiteto francês. 

Mais de duas décadas depois, eis que uma frase, desta vez na exposição Le Monde Nouveau de Charlotte Perriand, apresentada pela Fundação Louis Vuitton, em Paris, para marcar o vigésimo aniversário da morte da designer, me fez retomar aquela sensação de conversa ao pé do ouvido. “Corbusier esperava, com impaciência, que eu desse vida ao mobiliário.” E foi exatamente o que ela fez, ao longo de quase todo o século 20.

Charlotte Perriand testando a chaise LC

Charlotte Perriand testando a chaise LC Foto: ARQUIVOS FONDATION LOUIS VUITTON / PARIS

Nascida em 1903, em Paris, Charlotte estudou desenho de móveis. Em 1927, apresentou a instalação Bar Sous le Toit (bar sob o mesmo teto), no Salon d’Automne, e chamou a atenção de Le Corbusier, que a recrutou para trabalhar em seu ateliê. Havia, no entanto, algo de paradoxal no convite: o arquiteto não era exatamente conhecido por levar em alta consideração o trabalho de suas colaboradoras.

E, embora tenha recebido Perriand com um dispensável “não bordamos almofadas no meu estúdio”, cedo ele teve de rever suas expectativas diante do desempenho excepcional da jovem. Ao lado do primo de Corbu, Pierre Jeanneret, a designer teve papel decisivo no projeto de alguns móveis icônicos desenhados pelo arquiteto, incluindo a chaise-longue LC. Ainda que na época nenhum dos dois tenha sido creditado pela criação. 

Nas montanhas de Val d’Isère, na França, em 1935

Nas montanhas de Val d’Isère, na França, em 1935 Foto: ARQUIVOS FONDATION LOUIS VUITTON / PARIS

Um deslize histórico que a mega mostra montada pela Louis Vuitton fez questão de corrigir, ao atribuir ao trio a autoria de todas as peças apresentadas – sem exceção – e ao pôr em perspectiva ampliada o valor dessa mulher, que não só influenciou os rumos do design, da arquitetura e da arte do seu tempo, como pressagiou muitas das atuais discussões sobre os papéis da mulher e do meio ambiente na sociedade.

Nos últimos tempos, tenho pensado muito em Charlotte. Na sua crença no futuro mesmo diante de um mundo em ebulição. E também, claro, no nosso breve encontro naquela tarde, em São Paulo. Por certo eu deveria ter me preocupado menos com Corbusier e sim em como ela se sentia trabalhando lá. Com certeza, o papo teria sido bem mais interessante.