Uma história em cada peça

Marisa Vieira da Costa - O Estado de S.Paulo

Assim o designer Guilherme Leite Ribeiro, dono da Nada se Leva, define seu apartamento dos anos 50

O hall de entrada, com paredes pintadas de roxo, uma grande escultura de cimento e alumínio em forma de dois X plantada no piso e, na parede, um espelho de acrílico branco recortado, sugere que não se trata de uma morada convencional. Mas a audácia não se repete na mesma proporção à medida em que se avança por esse amplo apartamento dos anos 50, nos Jardins - embora o diferente, quase inusitado, ponteie aqui e ali. É a marca do dono, o designer de móveis Guilherme Leite Ribeiro. Como bom canceriano, ele adora juntar coisas, especialmente raridades, e sempre encontra um lugar para acomodá-las. "A maior parte de objetos trouxe de fora e ainda não encontrei coragem para me desfazer de muitos", explica.Carioca de Copacabana, filho de diplomata, Guilherme só tinha um ano de idade quando começou a viajar pelo mundo. Morou no Chile, na Itália e nos Estados Unidos. "Esse apartamento reflete minhas andanças. Foi criado, não decorado." Boa parte do que tem veio de Nova York, onde morou 15 anos e estudou Cinema, Belas Artes e, de quebra, computação gráfica. Nos anos 90, trabalhou em agências de design de Manhattan e passou uma temporada em Milão fazendo campanhas voltadas para a moda no estúdio de Giovanni Bianco. De volta ao Brasil, abriu um escritório no Rio, onde desenvolvia sites. "Era o começo da internet no Brasil; fui uns dos pioneiros."Em 2002, se instalou em São Paulo. Três anos depois, numa conversa com o amigo André Bastos, que havia trocado a faculdade de Medicina por projetos de design, decidiu seu futuro (e André, o dele). Resolveram lançar a Nada se Leva, marca de móveis, mesas, luminárias etc, em acrílico recortado, madeira, lami-nado e corian (as peças estão em lojas de todo o Brasil; em São Paulo, são vendidas com exclusividade pela Firma Casa). O nome sugestivo foi escolhido em conjunto. "É título de um filme de Frank Capra e traz o conceito de que tudo permanece", explica André. Exemplo do sucesso: a dupla ganhou espaço no segundo livro da editora inglesa Phaidon, & Fork, sobre os 100 melhores designers do momento. No primeiro, Spoons, os irmãos Campana foram os únicos brasileiros a merecer a honra.Entre o azul-bebê e o roxoTodo esse histórico de vida e criação Guilherme vem deixando registros no apartamento onde se instalou há cinco anos e que havia tido um único morador. "Não derrubei uma parede... Fiz questão de preservar tudo", explica, referindo-se ao piso de granilite, às sancas, à cozinha ampla, ao banheiro em azul-bebê e ao lavabo com azulejos roxos e louça cor-de-rosa.Se quis causar impacto na entrada, Guilherme suavizou no restante do imóvel, com luz e vista extraordinárias. À direita do hall de entrada, se abre um grande living com paredes em verde-claro. Mesmo mais distante da cozinha, o primeiro ambiente é o de jantar. "Troquei de lugar porque aqui tem mais espaço para a mesa", diz, referindo-se a uma de suas criações. Desenvolvida pela Woods, ela é de madeira maciça e acomoda em sua volta 10 cadeiras de encosto de palhinha e assento de couro sintético. Na parede, três painéis horizontais de fotos de Daniel Adorno, todas em tom azul-escuro.Peças diferentesUma coluna estrutural cria um canto para leitura, com banquetas da Privilégio; mesa lateral, modelo Ligero em rubi, da Nada se Leva (R$ 3.650, na Conceito: Firma Casa), e o painel "Guilherme JPG", de autoria da artista plástica Isabel Lofgren, que juntou centenas de fotos de "Guilhermes" encontrados na internet (inclusive de um gato).A sala de estar reúne peças contemporâneas: banco ripado comprado em Nova York, mesas de apoio da Nada se Leva (R$ 1.050, na Conceito: Firma Casa), e outras Saarinen e Charles Eames, uma poltrona também Eames e sofás italianos de Florence Knoll. Tudo isso fora o "diferente", como duas luminárias cuja base são ábacos e a cúpula é de seda roxa, comprada num antiquário de Manhattan; uma escultura de vidro branco e roxo da dupla Elizabeth e Eduardo Prado e o banco Wax (também do seu ateliê, é comercializado pela loja carioca Via Manzoni e custa R$ 990), em que Guilherme colocou sobre a base de freijó um pino onde se encaixam três pratos de enceradeira forrados de algodão. Sob a estante comprada em brechó, sobressai um vaso de vermelho intenso da Pottery Barn, em NY, loja e móveis e acessórios para casa equivalente à Tok & Stok brasileira.Louças e enfeites quase abarrotam uma estante feita a partir de uma sapateira antiga, garimpada numa feira de rua em Nova York, e que é um destaque da cozinha, onde, em almoços ou jantares informais, os convidados sentam-se em um sofá (!) encostado num dos lados da mesa. Na parede, desenhos do avô materno, que retratam cenas brasileiras. Mais desenhos, feitos com caneta hidrocor, estão numa das paredes do corredor que leva à área íntima. Nas ilustrações, o avô projeta seus desejos para o futuro dos netos: num deles, Gui é aviador.Do quarto de TV o designer quis fazer um lugar aconchegante. Lá colocou fotos de família e da Turquia; uma gravura de Berlim. Mas o que chama a atenção são a banqueta Ishi, da Nada se Leva (como a Wax, só que com o assento em índigo), um petit bronze comprado na feira do MuBE e uma das principais estrelas da Nada se Leva: a luminária de três pés (R$ 2.575, na Firma Casa).