Uma construção com vida própria

- O Estado de S.Paulo

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Reportagem de Marcelo Lima

Fotos de divulgação

 

Retrato acabado – ou quase, como ele salienta – de uma obra que advoga o direito de se comunicar, a casa de veraneio do arquiteto italiano Gaetano Pesce, no litoral da Bahia, não almeja a unanimidade. Pelo contrário. Busca inspiração na vontade de correr riscos. De propagar um conhecimento intuitivo do que seja construir, sem apelar para esquemas ou fórmulas já difundidas.

 

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Situada em Camaçari, a 90 km de Salvador, a casa começou a ser construída em 1995 e só atingiu sua feição atual após cinco anos. "Senti uma identificação com o local desde a primeira vez que estive lá." Mas, para o arquiteto, ela ainda não está concluída. "Vejo a arquitetura como uma experiência evolutiva. Não vejo sentido em falar em obra acabada."

Ocupando o centro de um terreno de 13 mil m2, com área construída de 350 m2, a casa tem um pavilhão principal (com pé-direito de 7,5 m), com sala, cozinha, banho e área de serviço, e uma construção autônoma, em dois níveis, com quarto, sala, banheiro e terraço. A articulação entre os dois volumes se dá por meio de uma composição que investe no mais elementar artesanato combinado a sofisticadas tecnologias.

 

Uma das fachadas, por exemplo, é coberta por lâminas de borracha. E uma das lembranças mais presentes na memória de Pesce, a vibrante luz da Bahia, encontra expressão em outra parede, revestida com vidro colorido.

 

Dentro, a alquimia se mantém. Em seus grandes espaços, variadas matérias-primas engatam exóticas parcerias. Caso da borracha usada como pigmento nas paredes que foi impregnada com lavanda para disfarçar seu cheiro não muito agradável. Em contraste com a profusão de materiais sintéticos, o uso da madeira é quase primitiva, rústica, sem revestimentos.

 

Confrontados com uma arquitetura única, móveis e luminárias buscam refúgio na funcionalidade. Caso do imenso fogão à lenha com chaminé, que ganha ares de torres no terraço. Ou ainda de dois lustres de múltiplos braços, que ocupam as laterais do living.

 

Atualmente Pesce vive um conflito com sua casa dos sonhos. Não por dela ter se desinteressado. Mas por acreditar que ela ganhou vida própria. "Acredito na autonomia da casa. No seu poder de atração. Cheguei a colocá-la em um leilão, mas hoje gostaria mais de vê-la como um centro cultural aberto a artistas de todo o mundo, que amem tanto a Bahia como eu." Alguém se habilita?

 

FOTOS | No alto da página, a fachada revestida com lâminas de borracha e esquadrias de madeira. Mais abaixo, sala quase vazia, com lustre desenhado pelo arquiteto