Uma casa típica do século XIV

Marcelo Lima - O Estado de S.Paulo

Em Florença, uma antiga tecelagem virou um lugar para Simone Micheli reinventar sua família

Se ao arquiteto italiano Simone Micheli fosse perguntado o que significa viver de forma luxuosa, a resposta certamente não incluiria a maioria dos clichês comumente associados ao tema. Por certo, um modo de vida caracterizado pela superficialidade nunca esteve em seus planos. Muito menos qualquer apelo à ostentação. Ao contrário de muitos, que concebem interiores para serem admirados, Micheli acredita que viver luxuosamente é viver, antes de mais nada, para si. E, em consequência, para os seus.

 

"O novo luxo é imobilidade e hábito. Mas é igualmente liberdade e movimento. É a possibilidade de se escolher onde e como quer estar; se reinventando continuamente dentro da própria casa", declara o arquiteto que, nos últimos anos, tem se dedicado exaustivamente ao assunto. "Procuro compor hábitats verdadeiros, não-lugares onde cada pessoa possa entrar em contato com sua personalidade mais profunda e sincera."

 

Retrato fiel dos princípios que persegue, sua residência, em Florença, tem como base uma construção do século 14. Uma antiga tecelagem, com cerca de 200 m², onde ele vive em companhia de sua mulher, Roberta, e de seu filho, Cesar. "Procurei fazer daqui um espaço adequado para o crescimento de cada um de nós. Mas também para o desenvolvimento coeso de toda a família", filosofa.

 

Com poucos elementos e acabamento impecável, os interiores obedecem a um padrão de organização simples. "A ideia do luxo está ligada ao desejo de recuperar pequenas belezas do cotidiano. Para isso, é necessário esvaziar os ambientes. Deixá-los prontos para receber o que virá", diz o arquiteto, justificando a opção minimalista de ocupação. "Trata-se de uma riqueza mais sensorial do que física."

 

Empregando 90% de materiais ecologicamente compatíveis, a reforma preservou as paredes originais do imóvel, que aparecem apenas despidas de seu reboco, em evidente contraste com as paredes lisas, altamente polidas e reflexivas de seus móveis, armários e divisórias. Sem falar do piso de porcelanato, azulejos e demais elementos cerâmicos, todos de um branco absoluto, visivelmente realçados pelo sistema de iluminação ajustável - com luminárias de facho dirigido.

 

Reforçando a excelência volumétrica do projeto, a área social ganha destaque pelo aproveitamento integral do pé-direito.

 

Divididos por um grande arco de tijolos, a sala de estar, a biblioteca e a área para refeições ganham móveis em tons de rosa e verde que, segundo o arquiteto, remetem a emoções ligadas à inocência infantil, à leveza e à alegria. E, na intersecção entre as zonas social e de serviço, um conjunto de mesas de trabalho interliga o living à cozinha.

 

Como pano de fundo, um inusitado volume em forma de cunha guarda lá seus segredos. Além de armários suplementares, a estrutura esconde uma escada de acesso a um ambiente muito especial. Trata-se de uma varanda interna - inteiramente dedicada às brincadeiras do pequeno Cesar - que tem como fechamento, uma teia de fios. "Por meio desse emaranhado, procurei representar um cruzamento possível entre o mundo animal e o imaginário indígena", avisa.

 

Caracterizados por extrema brancura e parcimônia na decoração, o quarto do casal faz da cama sua principal atração. Como se dobrada sobre ele mesmo, o móvel além de servir de apoio ao colchão, traz em seu desenho uma cabeceira estofada, revestida de couro. Um armário de visual neutro, que ocupa toda a extensão de uma das paredes, e um grande espelho redondo, que parece flutuar, são os únicos elementos a compor esse espaço.

 

Mas se o quarto de Roberta e Micheli é harmonioso e delicado, no de Cesar a ênfase recai sobre a vibração. Sugerindo uma enorme cobra amarela, um móvel traz em suas diversas cavidades espaços para apoio de brinquedos, livros e também para o colchão. "Trata-se de um ambiente childfriendly, ideal para brincar, estudar e viver de forma estimulante", esclarece o apaixonado pai.

 

"Minha casa fala mais do que mil palavras. É essa minha visão de luxo. Um luxo que não desperdiça a essência, os gestos de conteúdo ético, os pequenos prazeres visuais, olfativos, táteis e auditivos. Acredito ser nossa missão criar meios de construir sem destruir, trabalhar dentro de processos verdadeiramente sustentáveis, respeitando nossos desejos, mas também os daqueles que nos rodeiam e ainda dos que virão. Até a beleza, para ser bela, tem de ser saudável", conclui o arquiteto.

 

 

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