Uma casa mais atual

Marcelo Lima - O Estado de S.Paulo

No começo, tudo era muito exclusivo. Hoje, a Casa Cor é mais eclética e ganhou em relevância

Houve um tempo em que Casa Cor era um luxo reservado a poucos: fossem eles seu restrito clube de decoradores, ou seu ainda incipiente público visitante. Escolhidos a dedo, os profissionais eram recrutados, a priori, por seu prestígio na sociedade paulistana. E, tendo como sede um imóvel de dimensões mais realistas - que reproduzia sua ocupação original -, o evento priorizava o estilo individual: quase uma marca registrada, reconhecida e altamente valorizada. Em sua 22ª edição, a Casa Cor 2008 apresenta nada menos que 69 ambientes e 88 profissionais. Organizados sob o tema "Vila de Casas", têm como locação não um, mas um conjunto eclético de imóveis, originais ou construídos, com áreas de 16 m² a 700 m², em meio ao Jockey paulistano. Ampliada, com forte apoio institucional e estimados 120 mil visitantes, decerto não apresenta a exclusividade de outrora. Por outro lado, ganhou em atualidade e relevância. Integrando hoje o calendário oficial de eventos de São Paulo, como toda mostra, é incapaz - naturalmente - de agradar a gregos e troianos. É palco de disputas comerciais acirradas, egos em alta e do desfile de "tendências" da temporada. Mas, ainda assim, continua programa obrigatório, tanto para o grande público, em busca de atualização, como para o interessado, que vê na decoração uma oportunidade a mais paraa discussão - e à fruição - estética. A atual edição não foge à regra. Assunto do momento, a questão da consciência ambiental ganhou múltiplas versões, porém com um denominador comum: a idealização da natureza para se escapar das agruras do cotidiano. Caso, por exemplo, de Francisco Cálio, que, atento à onda dos jardins verticais, revestiu as paredes de sua Casa Viva com 4 mil mudas de plantas. Uma solução de exuberância incontestável, apesar de desvinculada de seus interiores. Ao contrário de Roberto Migotto, bem-sucedido ao colocar a vegetação em primeiro plano, contracenando com os móveis, em um dos trabalhos mais comentados da mostra: uma parede tropical em plena suíte, pano de fundo para um ambiente que investe ainda no bambu carbonizado e na madeira certificada. Escolha compartilhada por Viviane Magri Dinamarco, no piso da Bilheteria: um detalhado trabalho de marchetaria, feito com sobras de madeira. Despretensiosa e montada à sombra das árvores, a casa projetada pelos arquitetos Fernanda Abs e Fred Benedetti é também emblemática: construída em cumaru e mobiliada com simplicidade, propõe uma espécie de refúgio, adaptado à praia ou ao campo. Esbanjando charme, a casa decorada por Marina Linhares segue na mesma direção: intimista e acolhedora, agrega todos os elementos que a profissional admira, mas sem perder de vista sua dimensão global. Falar a todos os sentidos - a audaciosa proposta igualmente em alta no mundo da decoração, também marca presença no Estúdio de Léo Shehtman, que acerta na projeção de imagens e na iluminação (apesar da atmosfera um tanto sombria), e ainda no luminoso estúdio de Patricia Martinez, onde madeiras e pedras têm como objetivo expresso resensibilizar seu morador. Os temáticos No mais, com menos sucesso, a Casa Cor continua a investir na abordagem temática dos espaços: o Quarto de Adolescente, de Marí Aní Ogluyan, por exemplo, é tratado com base em paredes de concreto, madeira de demolição, além dos infalíveis grafites. Enquanto no estúdio assinado por Alessandro Jordão e Kiko Sobrino, o rico universo pop aparece revisitado em meio a uma irreverente mistura de móveis e objetos, que, apesar do forte impacto visual, revela pouca intimidade com o assunto tratado. Inovações mesmo, só de ordem tecnológica. Como no Loft do Bebê, desenhado em Corian, por Consuelo Jorge, que ganha viés futurista no trocador de fraldas reversível em pia, por meio de um simples toque de botão. Apelo também exercitado por Simone Goltcher em sua Cozinha, na qual gavetas se abrem por comando de voz; e na Lavanderia de Cristina Barbara e Milena Purchio, onde a ventilação, no rodapé, dá a sensação de se estar ao ar livre. Nos grandes espaços - lofts e estúdios com pés-direitos generosos -, acertar nas proporções e criar uma atmosfera de acolhimento continua a ser o grande desafio dos decoradores. Em contraponto à impessoalidade do branco, Ana Maria Vieira Santos propõe uma ambientação agradável, por meio de tonalidades rebaixadas nas paredes revestidas em mármore e no mobiliário pontuado por couros e peles. Uso alternativo dos materiais para viabilizar custos e minimalismo nas escolhas (para render espaço) fazem dos pequenos ambientes paradas obrigatórias. É preciso estar atento, por exemplo, ao elaborado Pet Shop criado por Carol Farah e Vivi Cirello, ou ainda à delicadeza do Hall de Fabrizio Rollo, ambiente que embaralha passado e presente. Décadas e referências. Deixando claro que, nos domínios de Casa Cor, ainda é permitido sonhar.