Uma calçada cheia de vida

Marcelo Lima - O Estado de S.Paulo

O paisagista Benedito Abbud comenta a calçada viva que ele criou para a Casa Cor 2015

O paisagista Benedito Abbud que assina em co-autoria com o filho a calçada da casa Cor 2015

O paisagista Benedito Abbud que assina em co-autoria com o filho a calçada da casa Cor 2015 Foto: Divulgação

Uma calçada nada convencional tem chamado a atenção de quem circula pela Avenida Lineu de Paula Machado, na frente do Jockey Club de São Paulo. Nela, os passantes são convidados não apenas a desfrutar da beleza de seus canteiros, mas também a reunir os amigos e até mesmo trabalhar ao ar livre. “A ideia foi resgatar o conceito de calçada viva”, explica o autor da façanha, o paisagista Benedito Abbud, que desenvolveu o projeto com o filho Felipe, para a Casa Cor 2015. Segundo eles, o projeto lança mão de materiais e sistemas avançados que facilitam a drenagem e o reúso da água. Mas nem por isso chega a ser inviável. “O custo de implantação é apenas 25% maior que o valor gasto na construção de uma calçada padrão”, afirmou Abbud, o pai, nesta entrevista ao Casa.

No que a calçada proposta para Casa Cor se diferencia das convencionais?

Além de acessibilidade universal, ela oferece um sistema de drenagem até então inédito no Brasil, que irriga a vegetação por meio de infiltração, possibilitando maior volume e composições mais heterogêneas de plantas. O uso de mobiliário alternativo como mesas de reunião e bancos com ou sem encosto, por exemplo, sugere uma maior gentileza para os transeuntes, enquanto a iluminação em faixa contínua do piso, além de melhor orientação a pessoas com baixa visão, oferece um efeito estético inusitado.

Área de estar na calçada projetada por Benedito e Felipe Abbud

Área de estar na calçada projetada por Benedito e Felipe Abbud Foto: Divulgação

Em tempos de crise hídrica, como o projeto pode ajudar a não desperdiçar água?

Esse sistema é muito diferente do usado atualmente, no qual as águas das chuvas são captadas, tubuladas e levadas até um rio, em geral também canalizado. Como essa tubulação muitas vezes está entupida, as águas acabam escoando para as ruas, carregando lixo, provocando inundações e ocasionando, claro, maior desperdício. Na calçada proposta, a água penetra no solo e é, em grande parte, empregada na irrigação das plantas, evitando regas suplementares. Além disso, a transpiração natural das plantas ajuda a minimizar a poluição causada por partículas em suspensão e ainda ajuda a evitar a formação de ilhas de calor. 

Acredita que o projeto possa ser viável para aplicação em outras calçadas da cidade? 

Penso que sim. Fizemos um modelo, mas nada impede que ele possa ser replicado em parte ou em sua totalidade. O problema é que, em geral, nossas calçadas são estreitas demais. Mas, se houvesse uma maior compreensão do quanto elas são fundamentais para a vida nas cidades, esse cenário poderia mudar. Especialmente nos bairros mais afastados do centro, onde, ainda hoje, as calçadas são cheias de vida.

O bicicletário na calçada viva, assinada pelos Abbud para a Casa Cor

O bicicletário na calçada viva, assinada pelos Abbud para a Casa Cor Foto: Divulgação