Um time que aposta

Marcelo Lima - O Estado de S.Paulo

NO CERTO Preservação ambiental, tema deste ano na Casa Cor, é ponto de partida para novas experiências estéticas

Atenção à matéria-prima, à performance, ao ciclo de vida de cada peça. Cresce entre os profissionais que fazem a Casa Cor a consciência do diferencial que o design pode representar na construção de espaços mais sustentáveis. Felizmente, não apenas pelo apelo comercial que a palavra "sustentável" já começa a suscitar no grande público. Em maior ou menor grau, objetos projetados dentro de parâmetros mais rigorosos de preservação ambiental encontram voz na maioria dos ambientes.

A opção por móveis de madeira certificada, reciclada ou compensada continua sendo a grande aposta dos decoradores nos 124 espaços da edição 2009 da mostra. Igualmente em alta, matérias-primas recicláveis como vidro, metal e o plástico proveniente de embalagens pet também estão bem representadas.

Em um de seus melhores momentos, a madeira encontra plena expressão no Loft Sustentável, de Helena Viscomi. Um trabalho delicado, que explora diversas texturas e tonalidades do material, distribuído por três ambientes, tendo como base o mobiliário correto, produzido no Brasil por Etel Carmona. Revestida de fórmica, a madeira é ainda destaque na estante no Living do Apartamento, de Antonio Ferreira Júnior e Mario Celso Bernardes.

Divertidas, leves no peso e descompromissadas no visual, as cadeiras recriadas por Fábio Galeazzo para seu Café da Praça guardam outros segredos: na prática, são produtos obtidos a partir da reciclagem de móveis de época descartados, que ganharam vida nova por meio de um colorido preciso, de irresistível sabor étnico. Um mais do que bem-vindo exercício de reaproveitamento, raramente visto em edições da Casa Cor.

Para os interessados em reciclagem, o Restaurante Casa Cor, de Marina Albuquerque e Guilherme Ommundsen, é parada obrigatória. É lá que o mobiliário antenado, produzido a partir de ripas de caixotes e latas de alumínio, pelo arquiteto Aurélio Martinez Flores - um purista na arquitetura, mas definitivamente anárquico quando o assunto é design - pode ser conferido em pleno funcionamento.

Partindo do lixo para chegar ao luxo, Flores constrói móveis de acabamento primoroso, mas que absorvem em seu desenho todas as imperfeições particulares a cada matéria-prima. Uma dimensão do design explorada em outro móvel do restaurante: a poltrona Rag Chair, da Droog Design, do holandês Tejo Remy, feita a partir de roupas descartadas.

No capítulo luminárias, a mostra reserva também boas surpresas. Os arquitetos elegeram a redução do gasto energético como uma de suas prioridades. Daí o uso intensivo dos LEDs, os pequenos diodos de baixo consumo. Além disso, a ênfase em ambientes amplos, com pés-direitos altos, dotou a Casa Cor de toda uma safra de expressivos lustres.

Caso, por exemplo, do Cooper Blow Light, a versão lustre do célebre bulbo de plástico metalizado, desenhado por Tom Dixon em homenagem à lâmpada incandescente, mas que traz em seu interior duas lâmpadas fluorescentes compactas. Apresentada como um pendente, a peça ganhou ares de escultura no Loft 24/7, de Fernanda Marques, onde aparece estrategicamente posicionada entre a cozinha e o living.

Para terminar, o mestre Ingo Maurer - desde sempre low tech, antes mesmo do assunto virar moda - é um dos highlights do Refúgio do Velejador, espaço projetado por Débora Aguiar, desta vez por meio de um poético lustre formado por simples chapas de cobre amassadas, que parecem flutuar no ar. Trabalho que merece ser observado de perto: modesto na construção, mas majestoso do ponto de vista formal. Um inspirador ponto de partida para novos tempos. E também para novas experiências estéticas. (marcelo.lima.antena@estadao.com.br).