Um novo olhar para a lã: conheça os móveis de Inês Schertel

Marcelo Lima - O Estado de São Paulo

Designer gaúcha inaugura sua primeira mostra individual no País na galeria Bolsa de Arte

Designer gaúcha Inês Schertel

Designer gaúcha Inês Schertel Foto: Victor Afaro

Pura intuição frente às possibilidades da lã. Eis, em resumo, o processo criativo da designer gaúcha Inês Schertel. “Aqui no campo, me ocupo do pastoreio das minhas ovelhas, mas também das minhas ideias”, conta ela, por e-mail, da sua fazenda em São Francisco de Paula, no Rio Grande do Sul, onde vive e mantém seu ateliê de criação. “Quanto mais trabalho, mais descubro formas de utilizar a lã e mais aumenta meu compromisso com ela”, diz a designer que inaugura sua primeira mostra individual no País, na quarta-feira, 7, na galeria Bolsa de Arte, da Vila Madalena. “Em tempos de escassez de materiais, me fascina poder dar novo uso a uma matéria-prima tão nobre e não mais necessária às ovelhas”, como ela afirmou nesta entrevista ao Casa.

A cadeira Moita

A cadeira Moita Foto: Fifi Tong

Você costuma denominar seu processo de criação de slow design (design lento). Por que ele ocorre desta forma? Diria que menos pelo tempo que as peças demoram para ficar prontas e mais pela maneira que me relaciono com as coisas. Pastoreio meu rebanho, me ocupo pessoalmente do beneficiamento da lã, para só então criar e produzir cada peça manualmente, uma a uma. No campo é preciso respeitar a ordem natural dos acontecimentos. Cada coisa a seu tempo.

O banquinho Natural, da designer gaúcha Inês Schertel

O banquinho Natural, da designer gaúcha Inês Schertel Foto: Fifi Tong

Como se dá o processamento da matéria-prima e sua posterior coloração? 

Depois da tosquia, a lã é lavada para retirar parte da lanolina e da sujeira para só então ela ser penteada para colocar todas as fibras no mesmo sentido. Só neste momento ela está pronta para ser trabalhada. Camadas e mais camadas de fibra são sobrepostas – às vezes dez –, molhadas com água e sabão de oliva e aí começa o massagear das fibras, que em dado momento encolhem, dando origem ao feltro. Adoro as cores das ovelhas. Uma gama que vai do branco natural ao preto. Às vezes utilizo alguma cor fora dessa paleta para dar ritmo às coleções, nunca, porém, somente para colorir. Depois da peça pronta, caminho pelas matas nativas de araucária, próximas de onde habito, à caça de cascas de árvores, liquens, musgos, sementes. Faço uma amarração da peça com esses elementos e coloco tudo para cozinhar no vapor.

Em certas peças, o visual é tão bruto que se tem a impressão de que a lã estaria ainda em processo de secagem. Como ela se estabiliza? 

O material se estabiliza por si só, no momento em que as fibras encolhem e a lã deixa de ser uma simples fibra para se transformar em feltro. Na minha última coleção, trabalhei a lã na sua forma mais bruta e da maneira mais rudimentar e instintiva possível. Desta forma o agrupamento de fibras ganha ainda mais força.

O cesto Comparsa

O cesto Comparsa Foto: Fifi Tong