Um lugar ao sol

Marcelo Lima - O Estado de S.Paulo

Casal americano escolhe Trancoso como refúgio e une, nesse ambiente familiar, o moderno e o regional

Não gosto de me sentir em casa quando estou no estrangeiro. Como bem pontuou o escritor George Bernard Shaw, nem toda sensação de exílio precisa ser, necessariamente, forçada. Não raras vezes, estar há milhares de quilômetros de casa – de papo para o ar, como diriam os brasileiros – pode se revelar uma experiência que merece ser degustada em cada detalhe: ao menos em se tratando de uma típica família nova-iorquina para a qual o destino reservou, da noite para o dia, uma casa de 600 m2 na Bahia.

 

"Aqui temos jogos de futebol em família todas as noites. Além disso, as crianças tornam-se mais próximas umas das outras, uma vez que não estão sujeitas à agenda apertada que têm de cumprir quando estão em Nova York", comemora a arquiteta Cortney Novogratz, que há dois anos é proprietária, com o marido, Robert, dessa ampla casa de praia, construída em Trancoso, no litoral sul baiano. O dois dividem o estúdio de design Sixx, em Manhattan.

 

Viajantes contumazes, acostumados a alugar residências por todo o mundo para as férias – o casal tem sete filhos, com idades entre 2 e 12 anos, incluindo dois casais de gêmeos –, contam que em algumas ocasiões tiveram de arcar, além dos custos do aluguel, com despesas extras. "Gastávamos um tempo enorme apenas tentando remover qualquer coisa suscetível a danos. Quem lida com crianças em crescimento sabe bem do que estou falando", diz Cortney, satisfeita com a aquisição da propriedade.

 

Hoje, ao clã Novogratz só cabe desfrutar de longos dias de dolce far niente sob o ardente sol da Bahia. Ou não. Além de mesa de bilhar e bar ao ar livre – montados para agradar ao público adulto –, os filhos do casal dispõem de fartas possibilidades de entretenimento no local, como internet de alta velocidade, televisão por satélite, biblioteca, sala de música, pranchas de surfe, tacos de golfe e até buggy para passeios à beira-mar.

 

"Quando um amigo nos contou que estava vendendo uma casa no Brasil ficamos curiosos, mas não levamos a ideia tão a sério", admite Robert, para quem tudo mudou assim que o casal aterrissou no local. "Quando dissemos a nossos amigos que havíamos comprado uma casa na Bahia, eles nos disseram que estávamos loucos, que havia muito crime por lá", recorda. "Nada mais irreal. Na verdade, há pouco, ou quase nenhum, crime em Trancoso", arrisca o arquiteto.

 

Tempo bom

 

Financeiramente, segundo ele, a compra da casa também se revelou um excelente negócio. "O preço proposto pelo proprietário era um décimo do que pagaríamos por um imóvel do gênero em Saint-Tropez (badalado destino na França) ou por uma casa de um quarto nos Hamptons (destino de verão para os nova-iorquinos). Além disso, como o tempo é perfeito o ano todo, podemos estar na casa duas vezes por ano e alugá-la nos demais meses."

 

A família parece não ter do que reclamar em relação à nova morada de férias. "Em nossa família, temos como tradição nos reunir em torno da mesa de jantar para contar o que de melhor nos aconteceu ao longo do dia. Na nossa casa baiana, sentimos, desde o primeiro momento, essa possibilidade se multiplicar por mil", conta Robert. "Tanto em relação aos lugares para a gente se reunir quanto ao local, ela parece ter sido feita sob medida para nós", confirma Cortney.

 

Clima baiano

 

No mais, para a arquiteta, tudo foi uma questão de preservar a atmosfera da região por meio de uma ocupação limpa e arejada. Algo nada difícil de alcançar naquele amplo imóvel, onde – com exceção da cozinha e da sala de jantar – muito pouco foi acrescentado.

 

Novas cores aqui e ali, com predomínio dos tons cítricos e refrescantes. Um animado mix de peças modernas, trazidas de Nova York, contrastando com o mobiliário regional, herdado do antigo proprietário. Além da instalação de um sistema de ar-condicionado, apenas um pequeno apartamento, construído para abrigar os caseiros, foi incorporado à construção. "Se você tem um imóvel no exterior, precisa de alguém para vigiar e cuidar dele enquanto você não está lá. Isso e mandatório", admite Cortney.

 

Na decoração, um enfoque relaxado, traçado sob medida para preservar a continuidade dos espaços, transparece nas escolhas. "A madeira confere aos ambientes uma sensação de terra, de aquecimento. Sempre que queremos acrescentar um móvel aos interiores, mostramos as fotos aos carpinteiros locais, que reproduzem as peças por uma fração do custo real. E, na maioria das vezes, o resultado é melhor ainda que o original", comemora a arquiteta, com a intimidade de quem já sabe bem o que fala.

 

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