Tradução brasileira

Olívia Fraga, de O Estado de S.Paulo - O Estado de S.Paulo

A arquiteta paulista Patricia Martinez constrói, perto de Estocolmo, uma casa funcional e sem excessos, bem ao gosto dos suecos

Os 10 mil moradores de Trosa, cidade a meia hora de Estocolmo, vivem praticamente à beira d?água. E quase todos têm um barco atracado na baía que contorna o lugar. A vida ao ar livre faz parte do dia-a-dia - aliás, a única coisa que prende o sueco em casa (e às vezes, nem isso) é o mau tempo.A arquiteta paulistana Patricia Martinez lidou com esse cenário ao construir a casa de uma família de cinco pessoas. Amigos do casal conheciam o trabalho da brasileira e indicaram seu nome. Desde os primeiros telefonemas, Patricia percebeu que o nórdico sabe bem o que quer. "O sueco é um tipo de cliente que já vem com repertório", entende Patricia. "Eles são técnicos por natureza. Gostam de construir, lidam com madeira, entendem de construção civil, de design."O clima frio e a neve tiveram de ser pensados nas linhas mestras da casa, em especial no desenho do telhado. "As construções da região precisam ter telhados adaptados ao acúmulo de neve, por isso são bem angulosas. Além disso, as paredes têm 33 centímetros de espessura, e as esquadrias devem ter vidros triplos (invenção de Bruno Mathsson usada de modo obrigatório na Escandinávia), tudo isso para manter a casa aquecida durante o inverno", explica.O bom da história é que os clientes já haviam morado no Brasil. Voltaram para a Suécia com um genuíno apreço pelas pastilhas de vidro admiradas nas casas brasileiras (transparente, de 2 cm x 2 cm, R$ 263 o m², na Vidrotil) e levadas para a Suécia na bagagem do casal. "O pedido me surpreendeu, mas onde pude usar, usei. As pastilhas trouxeram algo de artesanal. Eles gostam da irregularidade, da impressão de ter sido feito à mão", afirma a arquiteta. A casa de 250 m², feita com estrutura pré-fabricada de madeira e dividida em três blocos, quase se camufla na paisagem nos meses de inverno. Pintada de branco, a madeira que reveste os painéis da fachada só cede espaço para os caixilhos das janelas, as muitas janelas das casas suecas. A proposta aqui é de quanto mais luz, melhor. Atrás de cada rasgo de vidro, abajures e luminárias de mesa para atiçar o observador com a visão dos interiores.O projeto teve outras prioridades - pela lei, a construção teve de incluir corrimões em escadas e banheiros, corredores largos e pisos frios antiderrapantes (porcelanato off white, de 60 cm x 60 cm, da linha City, da Portobello, R$ 197,90 o m²). Os dois andares setorizam os usos: quartos acima, convivência e serviços abaixo. Como manda a cartilha.Não sem motivo, os pontos de atração da casa estão dentro dela e abusam da liberdade que Patricia teve na hora de projetar os interiores. Um deles está na aposta da arquiteta de deixar um dos blocos com telhado reto sem caimento. "Quebrou a angulosidade das fachadas e os moradores podem curtir uma espécie de terraço, porque a área interna prolonga o living", conta ela. Com filhos ainda pequenos, a família sentiu necessidade de ampliar a área de convívio. No living, além da cozinha integrada à sala de estar - e da mesa de jantar (modelo Doly, de 2 m x 1,20 m, laqueada de branco alto brilho, R$ 8.130, na Interni ) sob o lustre de vidro cristalizado Caboche (criado por Patricia Urquiola e Eliane Gerotto para a Foscarini, custa R$ 5.700 o médio, na Lumini) -, Patricia cercou de poltronas uma mesa de chá e bebidas, criando um pequeno espaço próximo a essa área. "É a segunda sala usada depois das refeições", diz a arquiteta. "O resultado ficou tão bom, que tenho usado essa solução nos projetos do Brasil." O clima de conforto proporcionado pelo piso de carvalho (taco similar, de amêndola, de 10 cm x 40 cm, R$ 182 o m² colocado, na Indusparquet) fica melhor com a lareira acesa (de inox, sob encomenda, na Construflama), importada da Finlândia.Banho coletivoNo piso superior, uma sala de banho reúne toda a família. Compreensível quando se sabe que, na Suécia, o imposto incide sobre a quantidade de banheiros disponível na casa - quanto maior o número, mais gastos com água e energia elétrica, o que encarece o valor da taxação. É bem verdade que o banheiro usado coletivamente faz parte do costume local: antes do banho de ducha, os suecos gostam de tomar sauna seca.Nesse espaço, a arquiteta abusou das pastilhas, que cobrem as paredes, e no piso, da cerâmica. "É comum ver a família usando o banheiro ao mesmo tempo, ainda mais quando se tem crianças pequenas", comenta Patricia Martinez, que ergueu algumas paredes e usou painéis de vidro para garantir certa privacidade do ambiente.