Trabalho orgânico

Marisa Vieira da Costa - O Estado de S.Paulo

Fernando Castiglione une o amor pelas formas e pelas plantas para criar jardim de 8 mil m2 em uma casa de Jundiaí

Vista do jardim, em declive, com canteiro com crino. Foto: Zeca Wittner    Até os 18 anos, mais ou menos, Fernando Castiglione esperava com expectativa a tarde de sexta-feira, quando a família se arrumava para passar o fim de semana no sítio de um tio, no bairro Traviú, a 17 km do centro de Jundiaí. "No sábado já acordava animado porque adorava as tarefas que eu mesmo me oferecia para fazer, como cortar grama, pintar cerca, tirar leite de vaca", lembra Castiglione, hoje um dos paisagistas mais conceituados da região.Esse contato com o meio rural e o prazer de desenhar determinaram o futuro do rapaz. "Mas eu não sabia por onde começar", lembra. Por influência de amigos, fez um curso de linguagem arquitetônica. Gostou, mas logo percebeu que não era a sua história. "Prestei vestibular para Agronomia, mas, como não me interessava lidar com produção vegetal, acabei me direcionando para o paisagismo." Fernando começou a estudar o assunto a fundo. Fez pós-graduação, depois alguns trabalhos em residências. Só ganhou projeção, porém, ao elaborar o jardim de um restaurante na principal avenida de Jundiaí. "Era pequeno, mas virou vitrine", diz o paisagista que trabalha há 16 anos na área.Um dos seus últimos projetos, numa casa pouco distante do centro, foi resultado do reconhecimento profissional na cidade. "Tinha feito cinco jardins para a mesma família", lembra Fernando, que trabalhou com um terreno em declive de 18 mil m², 8 mil dos quais dedicados ao paisagismo. Ele começou o projeto pelo entorno da casa, concebendo na prancheta ("evito ao máximo o computador") um jardim comportado, de acordo com a arquitetura normanda da construção. Aproveitou a beleza de uma araucária nativa e usou tuias, kaizucas, buxos, pingos-de-ouro e maciços topiados. Trabalhou com tons terrosos, espécies que vão do vermelho e suas variações ao amarelo. Fez contraste com tons de azul (miniagapantos) até o lilás, quase rosa, da congéia (R$ 10 a muda com 1 m, na Flora Bom Jesus), na varanda. O traçado orgânico se repetiu no talude que desce para a área de lazer da propriedade. "Essa é a minha marca, mas o que determina de fato o estilo de um jardim são as espécies utilizadas", destaca. Lá, montou um mosaico e introduziu espécies tropicais - bromélias, alpínias, grama-amendoim, lírios, estrelítzia, grevílea-anã. Quando chegou na área da piscina e da churrasqueira, Fernando encontrou jabuticabeiras e mangueiras que estavam há muito no terreno. "Fui eu mesmo colocando estacas para determinar que espécies plantar aqui e ali", conta ele, que escolheu coqueiro-da-baía (por R$ 30 a muda com quase 2 m, na Flora Bom Jesus), touceiras de moréia, babosa e pândano (a partir de R$ 40, no mesmo endereço). O trabalho se estendeu a um pátio interno da casa, com muro semicircular de tijolos aparentes e fonte. Ali, chama a atenção a forração de minitrapoeraba, a trepadeira cipó-de-são-miguel, a bela-emília, a eugênia. Nos acabamentos, buxos, ráfis e dicorisandra com suas miúdas flores lilás. "O terreno da casa era árido, mas ficou provado que, com projeto e boa manutenção, podem-se fazer maravilhas", diz Fernando.