Toques de um arquiteto

Beto Abolafio - O Estado de S.Paulo

René Fernandes integra espaços em apartamento e valoriza exposição de coleções da proprietária

Antes, a proprietária deste apartamento de 200 m2 na Vila Nova Conceição morava em um imóvel de 380 m2. Condensar em quase metade desse espaço a história de vida dela e do marido, que morreu recentemente, foi um desafio grande. O autor do projeto, que levou cinco meses para ficar pronto, é o arquiteto René Fernandes.

 

"À parte a reforma, era preciso estabelecer locais para que eles pudessem expor as várias coleções de objetos e obras de arte", lembra o profissional. "Foi quase uma curadoria."

 

O primeiro passo: repensar o layout. Dos três dormitórios, agora só resta uma suíte. "Com isso, a área social cresceu", conta René, que derrubou paredes o mais possível, tendo em vista a eliminação de cômodos estanques e a consequente integração espacial.

 

Carioca que é, a dona da casa tem predileção por pisos frios. Inicialmente pensou-se em revestir o chão de todo o apartamento com cimento queimado. "Mas houve certo receio de que, com eventuais movimentações, o material trincasse", conta o arquiteto. Portanto, a opção recaiu sobre placas de porcelanato de 60 cm x 60 cm, que imitam aquele acabamento. Um tom de off-white tinge as paredes de todo o imóvel.

 

A adoção de cinza e branco, para piso e paredes, resulta em uma base neutra. A ênfase da neutralidade continuaria, em princípio, também em toda a marcenaria – desenhada pelo arquiteto.

 

Mais uma vez, houve mudança de percurso. "O que era para ser de madeira laqueada de cinza ficou em freijó", conta o arquiteto. "É que achamos que tudo poderia ficar muito frio." De fato, estantes e armários de madeira pura parecem ter dado um caráter mais aconchegante aos espaços.

 

Quem entra pela porta principal chega a um pequeno hall, logo ligado à área social. À esquerda fica a mesa da simpática copa, com tampo de cimento engastado e base composta do que restou de uma parede. Ali estão a geladeira, o guarda-louças de freijó e nichos brancos de madeira para a adega e um conjunto de pratos do século 19. Vale dizer que, pela casa toda, há mesmo um clima de colecionismo.

 

Logo a seguir vem o living, à direita, com estantes do mesmo freijó, interligado a uma saleta de leitura. Esse ambiente tem portas de correr para, eventualmente, servir de quarto de hóspedes. Há ainda um detalhe curioso: o rasgo de vidro que deixa ver parte da suíte. Tal elemento tem motivo técnico. "É para quem está no living poder observar a vista que se tem a partir do quarto, a melhor do apartamento", explica René.