Ter e expor

Beto Abolafio - O Estado de S.Paulo

Exclusivo para o Casa &, a arquiteta Tania Eustaquio cria estúdio em que misturas virtuosas refletem o morar de hoje

O sofá pertencente à arquiteta é apoiado pelo Banco 8 de Fernando Akasaka. Foto: Zeca Wittner   A palavra alemã Zeitgeist pode ser compreendida como "espírito do tempo". Não por acaso, está inscrita no living da casa onde vive a arquiteta paulistana Tania Eustaquio, que parece mesmo em sintonia com a estética dos anos 2000. Seus projetos costumam resultar num ecletismo atual, sim, porém sutil e refinado. Há explicação para o que poderia ser simples expertise: "É como se o meu ter fosse maximalista e o jeito de expor, minimalista", sentencia. Quer entender esse conceito? Convidada a exemplificá-lo, a profissional montou, com exclusividade para o Casa&, um estúdio num imóvel desocupado, no bairro de Cerqueira César.A decoração do local, com paredes de tijolos descascados e piso cimentício branco, não apresenta excessos - ainda que o ponto de partida tenha sido uma antiga mesa, verde-água e entalhada, que a arquiteta já tinha. O móvel, para se ter ideia, é denominado por uma amiga de Tania como "kitsch furioso". O mesmo ocorre com a cadeira de veludo verde-musgo, que relê o art nouveau e tem pegada semelhante. Curiosidade é que, protagonistas da área de trabalho, as peças se adaptam à perfeição ao restante, bem menos rebuscado. Ali figuram clássicos do design do século 20, caso da cadeira Panton e da LCW, de Ray e Charles Eames, além de estantes modulares brancas e de linhas retas. A harmonia vem do tal "jeito de expor". Emoldurada pelo vazio, como a maior parte dos demais elementos, a coleção de cerâmicas suecas, também claras, sobre a mesa, é outra amostra. "Fica bacana criar focos de atenção estanques, reunindo objetos que se correspondam de alguma maneira, seja pela cor, pela forma ou pelo material", aconselha.A arquiteta, que tem formação moderna, curte traços puros e imprime personalidade ao que faz, costuma ter em mente uma premissa: num ambiente, quase sempre é melhor tirar do que adicionar. "A gente às vezes vê excesso de criatividade por aí", diz ela, que não cursou faculdades estreladas, como FAU-USP e Mackenzie, mas a Farias Brito, de Guarulhos. Seis meses antes de se formar, em 1983, foi trabalhar no escritório do arquiteto Aurelio Martinez Flores - a quem credita a apuração de seu olhar - e ali ficou durante cerca de cinco anos. Depois investiu na carreira solo.O gosto pelos espaços livres, fruto talvez da infância vivida em Brasília, em meio aos prédios erguidos por Oscar Niemeyer, é outra marca de Tania. Tanto quanto o apreço pelas expressões artísticas, mesmo que estejam no inconsciente. Um exemplo? "Olha como ficou meio Morandi...", surpreende-se ela, num insight, ao constatar a paleta originada no living, espécie de metáfora visual. De fato, lembra a atmosfera cinza-clara típica das naturezas-mortas produzidas pelo pintor e gravador italiano. Giorgio Morandi, mesmo, não há. Mas veem-se aqui e ali, em meio à opção pela não-cor, mais perene, obras de Roberto Micoli, Florian Raiss e uma foto de Romulo Fialdini, com quem a profissional foi casada.O sofá retrô de acervo particular junta-se ao divertido modelo inflável que reproduz um modelo Chesterfield. Há ainda, entre outros itens, a mesa de centro com desenho fluido, os bufês dinamarqueses da década de 60 e o brasileiríssimo banquinho de Sergio Rodrigues. Ao apontar a versão grey do pufe recém-criado pelo estilista André Lima, a criadora confessa: "Adoro os acinzentados, como um Giorgio Armani".Por falar em citações fashion, depois de ser fotografada para a reportagem, Tania vai conferir as imagens no visor da câmera digital. "Nossa! Como estou feminina...", brinca ela, que veste blusa estampada, bermuda branca e sandália. Trata-se de private joke. É que se tornou comum ouvir dizer como os projetos assinados por ela, não adepta de frufrus óbvios, guardam algo de masculino. "Mas, cá entre nós, uma mulher, num terno, fica ainda mais feminina", considera a arquiteta, traçando uma espécie de paralelo com sua lida bem particular.