Simples como fogo

Beto Abolafio - O Estado de S.Paulo

A beleza da simplicidade marca o refúgio de Neza Cesar e Sergio De Divitiis na serra de São Francisco Xavier

Enquanto tomávamos um gole para esquentar, lembrei-me, não sei por quê, do título do primeiro disco de Marina Lima. "A reportagem pode se chamar ?Simples Como Fogo?", a voz sai da minha boca, a intenção de escrever em primeira pessoa surge. Neza Cesar disse, surpresa, que a ideia tinha tudo a ver com um de seus escritos-confidência. Sentada com o marido, Sergio De Divitiis, levantou-se e logo veio com o livro pautado em que se lia a letra torta: "Para que me servem tantas coisas, tantos quadros na parede, objetos, sapatos e casacos e cabeleireiros, se encontro a paz na luz de uma vela?". Eis a beleza do simples.

A chama do fogão a lenha, na cozinha, e da lareira, na sala, estala na manhã fria em uma colina de São Francisco Xavier, distrito serrano de São José dos Campos, onde o casal encontrou seu lugar no mundo. Em meio ao nada, é uma construção avarandada de 80 m², tipicamente caipira, com sala, dois pequenos quartos, além da área de preparo das refeições. Embora pareça antiga, a construção acabou de ser erguida. "É nosso primeiro inverno aqui", comemora Neza. Há poucos passos, Sergio tem uma oficininha onde apronta. "Ao voltar da cidade com a lenha, pensei como esta é a paisagem que quero na vida", conta o fotógrafo, agora tomando um pouco de sol, de camiseta.

Vinda do mundo da moda, Neza tornou-se decoradora há 17 anos, quase sempre com um trabalho colorista - amado por uns, questionado por outros, como a vida é. "Trouxe a natureza para dentro da casa", considera ela, que tingiu o exterior de turquesa e azul-anil, além de juntar às duas tonalidades, no interior, a força solar do amarelo. Tal cor dá acolhimento em meio ao clima gelado da bucólica paragem e impacta quem entra pela porta da frente. "Os móveis vieram do meu endereço em São Paulo", comenta a proprietária. E pensar que ela fez anos atrás seu trigrama do I Ching e, com isso, obteve uma orientação curiosa: "O oráculo disse que eu só atingiria o equilíbrio quando chegasse ao cume da montanha".

GARRAFAS OU PORTA-VELAS?

Devidamente repaginada, a maior parte das peças do living recebeu tecidos com estampas variadas em vermelho, mesmo matiz encontrado em detalhes das cortinas sequinhas. Verde, um dos tapetes se incumbe do contraste. Há ainda uma poltrona laranja. Se é na vida como lida com as cores, pode-se dizer que Neza tem mesmo personalidade ousada. "Cor funciona como a alma", tenta explicar a adepta do budismo, que tem dois filhos: Antônio e Manuela. Ela fez rasgos de vidro na parede da lareira para deixar vazar a luz natural e poder observar melhor o entorno. Azulejos coloridos compõem o frontão. Nos parapeitos, garrafas que viraram porta-velas chamam a atenção do olhar.

Imaginei como a profissional deve ter se sentido pouco à vontade para trabalhar nos anos 90, período em que prevaleceu certa ditadura do minimalismo. "Sofri mesmo", confessa. Hoje, sua estética está em alta. Basta observar a mistura de tecidos que produziu nos quartos, com vistosos patchworks na parede de um e na porta do armário de outro. Na próxima Casa Cor, Neza pretende fazer um ambiente grande, quem sabe um living. "Só que, em vez de

simples, vai ser chique, coisa que também sei fazer", diz, indicando versatilidade.

É na cozinha que fica evidente o caráter de amorosidade, em frases escritas nas paredes com giz. Exemplos? "Gentileza gera gentileza", "Tudo acontece por si mesmo", "Nada melhor do que não fazer nada". A mesa está posta para a foto. Com o trabalho terminado, à tarde, todos tomamos um lanche. Depois, Ângela, Zeca e eu nos preparamos para partir, num bate-volta que parece ter valido a pena. O casal só retornará no dia seguinte do lugar onde pretende estar cada vez mais. Ao pensar na agitação paulistana e nos amores vãos, tive vontade de ficar...

BOA IDEIA

Bandeiras de tecidos da extinta Formatex, pedaços de sáris e panos londrinos compuseram coloridos patchworks que forram a porta do armário do casal e a parede atrás da cama de hóspedes."Em móveis, é bom usar cola para découpage da Acrilex", explica Sergio De Divitiis, que pintou o armário com esmalte sintético dourado, da Sayerlack, aplicado com compressor. Para colar o tecidos nas paredes, ele e Neza usaram um material mais simples: cola branca tipo Cascolac com um pouco de água. "O segredo para não marcar é passar bem a cola com pincel tanto na parede quanto no verso do tecido e esticar direitinho", conta Neza, que ainda deu uma demão sobre o conjunto.

HORA DE SUBIR A SERRA

Neza Cesar indica três endereços imperdíveis em São Francisco Xavier, a 140 km de São Paulo. O primeiro é a simpática pousada Villa Vittória, um refúgio no distrito. Já num ponto mais movimentado do centro ficam a chocolateria Umpa Lumpa, ambientada pela decoradora, e a loja Amantiquira.