Sem espaço para o banal

Marcelo Lima, marcelo.lima. antena@estadao.com.br - O Estado de S.Paulo

ANTENA - O aclamado grupo holandês Droog Design chega ao Brasil com peças que unem simplicidade e humor

  Quando, em novembro do ano passado, o empresário paulistano Marcus Ferreira - à frente da Decameron e da Carbono 14 - viajou para Amsterdã para concluir a vinda da Droog Design para o Brasil, ele já estava preparado para uma negociação acirrada. Nada surpreendente, aliás, em se tratando de uma das mais cultuadas marcas europeias, sucesso de crítica e público, e hoje presente em oito países. Qual não foi sua surpresa, porém, quando, após uma animada acolhida, no lugar de um longo processo, ele se viu imediatamente diante do contrato de representação. "Nas minhas visitas ao Salão do Móvel de Milão, conferir as coleções da Droog sempre foi programa obrigatório. Mal pude acreditar que, em pouco tempo, ela estaria na minha loja", diz Ferreira, feliz com a conquista, após dois anos de contatos com o grupo holandês. "Fui preparado para oferecer uma contrapartida financeira à altura (os termos e valores da negociação, ele prefere não revelar), mas, no final, percebi que o que acabou pesando na decisão deles foi o compromisso com o design e o perfil das minhas empresas", afirma. Segundo o designer, mais do que ampliar vendas, encontrar verdadeiros parceiros é preocupação de primeira ordem da marca.   "Eles acreditam que a globalização tem de levar em conta as características de cada país e, sempre que possível, gostam da ideia de desenvolver projetos especiais, eventos e exposições com os profissionais locais", conta Marcus, que aponta a abordagem particularizada da Droog como um dos segredos do sucesso alcançado em cidades como Los Angeles, Istambul e Tóquio. A partir do dia 9, estará também em São Paulo. Nascido do talento visionário de seus mentores, os designers Gijs Bakker e Renny Ramakers, ainda no comando da empresa, o grupo Droog Design foi fundado em 1993. Inicialmente, apresentando na Holanda e na Bélgica o trabalho de jovens designers que se dedicavam a empregar materiais descartados - como velhos cabides, tiras de papel e gavetas - na construção de objetos de perfil experimental. Consagração no MoMA Sucesso instantâneo no Salão de Milão do mesmo ano, quando foi aclamado pela crítica como a revelação da década, o grupo inicia a produção de seus principais projetos apenas em 1996, ao mesmo tempo em que ganha repercussão internacional, com exposições por todo o mundo. A consagração definitiva acontece em 2006, com a retrospectiva Simply Droog: 10+3 years of creating innovation and discussion, apresentada no MoMA, em Nova York. Instalada em um edifício do século 17 desde o fim de 2004, a sede da Droog, em Amsterdã, reúne loja, sala de exibição, livraria e uma cozinha onde pratos "com design" são preparados. Mais que um fabricante de móveis e objetos, o grupo prefere se definir como uma instituição encarregada de apresentar uma visão do design. Praticamente não existe um objeto de seu acervo que não motive algum tipo de reação por parte do usuário: seja ela uma simples sensação de estranhamento ou mesmo violentos golpes - em um dos últimos projetos, um bloco de metal vem acompanhado de uma marreta para que o usuário, por conta própria, se encarregue de transformar o objeto em poltrona, por meio de certeiras marretadas. Unindo a simplicidade minimalista com refinado humor e criteriosa escolha de materiais, o catálogo conta com mais de 150 itens, assinados por mais de uma centena de profissionais. Como requisitos na seleção dos projetos, a não vinculação com nenhum dos produtos existentes e o enfoque conceitual continuam seguidos à risca pela dupla Bakker e Ramakers. Visto com bons olhos, o potencial interativo da peça conta também muitos pontos. "São produtos que partem de R$ 50, caso de esponjas de limpeza com formato de esferas, a poltronas produzidas em tiragens limitadas, na casa dos muitos milhares de reais", conta Ferreira. "Os critérios são muito flexíveis. O único conceito perene é trabalhar com produtos de fácil leitura. Úteis, mas nunca banais."