Sangue novo na casa branca

Maria Ignez Barbosa - O Estado de S.Paulo

Michael Smith, o decorador eleito pelos Obamas, promete usar o raro e o barato no seu trabalho em Washington

Era preciso que ele representasse, como os Obamas, seus novos e mais famosos clientes, não apenas uma grande novidade, mas também mudança, ecletismo e descontração. A notícia de que o jovem Michael Smith fora escolhido o novo decorador da Casa Branca, ainda que tenha surpreendido, caiu bem, apesar de frustrar apostas em cima de nomes mais óbvios. Não houve o mesmo frisson causado por Jacqueline Kennedy quando, em 1961, escolheu um europeu, o francês Stéphane Boudin, e não um decorador americano para redecorar os salões de sua nova residência. Também, pelo menos até agora, não surgiram fofocas como as que corriam em Washington naquela época, entre elas, a de que a americana Sister Parish, convidada para fazer a parte íntima da casa, teria perdido o posto depois de ser vista dizendo à pequena Caroline que tirasse os pés de cima de um sofá recém-estofado.Sem medo de misturar estilos e móveis e objetos de procedência e valores os mais variados, Michael Smith parece prometer sangue novo à casa agora habitada por uma família de origens e etnias as mais diversas, como a dos Obamas. Viajado e eclético, com formação na Europa e nos Estados Unidos, ele há de, certamente, saber respeitar o sentido de representação e de tradição dessa tão emblemática casa americana, adicionando conforto, charme e riqueza cultural. Tendo estudado também artes decorativas no Museu Victoria & Albertm, em Londres, de ter trabalhado com o marchand de antiguidades Gep Duremberger e com o designer John Saladino, e a ver pelo seu trabalho, reportado não só em revistas, mas ainda em dois livros de sua autoria, Elements of Style, de 2007, e Homes, de 2008, é o que se pode prever. De Michael, escolhido entre mais dois concorrentes, a nova primeira-dama, Michelle, declarou que "ele comunga com a minha ideia de se criar não somente um clima amigável para a família, mas também uma nova perspectiva, e que seja sobretudo representativo de artistas e designers americanos". Como Michelle e Barack Obama, ele parece seguro de si. Há um ano, teria demonstrado publicamente seu interesse por esse trabalho. Confiante, declarou à revista Domino que o estilo casual da família, o seu interesse por artistas americanos do século 20 e a possibilidade de usar marcas e produtos de preço acessível lhe serviriam de orientação. E, como se pode deduzir a partir de outros projetos, ele não vai ter medo de, ao mesmo tempo, juntar o high and low (o barato e o caro), desde que estéticos. Assim como Michelle Obama pode estar um dia vestida com roupas da GAP e, em outro, de Narciso Rodriguez, Michael Smith é capaz de usar, como pano de fundo para móveis antigos e raros, cortinas e paredes forradas com dúzias de colchas da Urban Outfitters, cadeia de lojas popular nos EUA. Em Houses, ele explica que foi a maneira que encontrou para "descontrair e destituir de formalidade um grande salão".Óbvio que a escolha de seu nome provocou uma corrida à internet para mais dele se obter informações. Nascido na Califórnia há 44 anos, Michael tem currículo e história de sucesso. Em 2002, foi considerado pela revista Architectural Digest um dos 100 melhores decoradores dos Estados Unidos e, em 2004, foi a vez da Elle Décor apontá-lo o melhor decorador de 2003. Com firma montada desde 1990, Michael tem, entre seus clientes, celebridades como Cindy Crawford, Michelle Pfeiffer, Dustin Hoffman e Steven Spielberg. Sua linha de móveis e tecidos, a Jasper, é vendida não só nos Estados Unidos, mas também na Inglaterra. Seus produtos certamente serão mais conhecidos e desejados a partir desse novo trabalho, assim como imitado o seu estilo, que junta a vivacidade e a luz da Califórnia com influências da velha Europa. É de seu gosto colocar velhos têxteis sobre colchas de camas, tecido xadrez em poltronas e usar camas de dossel estofadas. É preciso que o décor não pareça feito de um só jato: "Nada mais trágico do que um ambiente dando a impressão que a mobília chegou toda no mesmo dia e no mesmo caminhão", disse recentemente.Confortável, modernoDele, colegas e jornalistas só dizem maravilhas. Segundo Margaret Russell, editora da Elle Décor americana, "é um decorador extremamente versátil que não impinge o estilo pessoal sobre os clientes. Acho que vai ajudar os Obamas a fazer uma bela definição do que seja mudar, o que isso significa, e a trazer um novo clima, refrescado, sem, no entanto, deixar de respeitar a história da casa". O colega Barry Dixon também é superlativo. Ao Washington Post declarou que Michael Smith, "com um perfeito entendimento da história da estética e da decoração, é capaz de fazer ambientes confortáveis e contemporâneos. Em suas mãos, peças sérias e importantes perdem o rigor da antiguidade mas se mantêm reverentes à historia da nossa estética". Segundo Margaret, ele "trabalha bem com famílias. Já o vi interagir com as crianças de seus clientes, tornando-se parte da família". Consta que Michael teria saído por aí para visitar lojas que oferecem mobiliário para quartos de crianças. A ideia era que Malia, de 10 anos, e Sasha, de 7, já chegassem à Casa Branca encontrando aconchego.Os meros US$ 100 mil que receberá por esse novo trabalho hão de lhe render mais do que os vultosos valores que teria ganho com a decoração do escritório de John Thain, CEO da Merrill Lynch, que teria custado a bagatela de US$ 1,2 milhão. Em um de seus livros, Michael Smith declara que um segredo da boa decoração é não ter medo de ser simples: "Às vezes, o que pode estar faltando é apenas um bom tapete de sisal". (nese@estadao.com.br)