Sangue italiano

Marcelo Lima - O Estado de S.Paulo

La Casa Italiana, no Mube, retrata o melhor do design e décor do país

Repleta de luz, comedida no uso dos materiais e apenas esparsamente mobiliada. Arejada e com vista para o mar, a casa mediterrânea há muito parece ter deixado de representar, com precisão, a morada italiana. Mas não há dúvida de que continua com lugar garantido entre os cenários de sonhos. Sobretudo entre aqueles que sabem contar com a agitação de uma cidade, logo além da janela. Seria ela, no entanto, o ponto de partida ideal para traduzir a casa italiana do século 21? Para o arquiteto Simone Micheli, a resposta é sim. "Do ponto de vista conceitual, meu projeto se identifica plenamente com as construções mediterrâneas. Nele, a luz também é matéria-prima", declara o profissional diante da casa conceitual que acaba de projetar para apresentar o melhor da produção de seu país nas áreas de design e interiores, na mostra La Casa Italiana, aberta no Mube até 29 de junho. "Meu projeto conta uma história. Uma história de alto valor ético-estético, feita de matéria e de excelência. É uma casa sonhada sim, mas que também foi feita para ser vivida", explica Micheli, que pretende despertar os visitantes para seu conceito particular de sofisticado "não mais baseado no exagero e na opulência, mas, ao contrário, no enriquecimento dos espaços por meio da luz". Simone Micheli, o arquiteto curador Segundo ele, por meio de uma iluminação bem estudada é possível não só eliminar o supérfluo como também enfatizar o sentido atual do luxo, mais afeito à qualidade sensorial dos interiores, e menos à ostentação. "A essência de uma casa não está em seus objetos, está nos seus moradores. É preciso proporcionar situações para reflexão, para se estar em contato, enfim, para se sentir o barulho do vento", pontua. Arquiteto e professor universitário, Simone tem se destacado nos últimos anos pelos projetos de interiores fortemente associados à exaltação dos sentidos, que introduzem uma nova racionalidade aos espaços domésticos. Um enfoque em alta entre os fabricantes italianos e que acabou por motivar, inclusive, o convite para a curadoria da mostra. "Gosto de trabalhar com a arquitetura como algo efêmero, no limite da realidade. De espelhar, em tempo real, as metamorfoses que estamos vivendo." Um procedimento bem avalizado por pesos pesados do design system italiano. "Ninguém melhor do que ele para traduzir o espírito de nossa época", avalia Anna Maria Vigilante, diretora internacional da Abitare Il Tempo - feira de Verona que tem na apresentação contextualizada do design um de seus pontos fortes - e que foi responsável pela indicação do arquiteto para a curadoria da mostra, junto ao ICE - o Instituto Italiano para o Comércio Exterior, órgão oficial do governo para a promoção do país no estrangeiro. Dividida em cinco áreas temáticas - um amplo espaço-dia, com acesso aberto à área da cozinha; uma área fitness & bem-estar, outra, de banho, e um espaço-noite -, a exposição em cartaz no Mube (av. Europa, 218, J. Europa, tel.: 11 3081 8611) apresenta produtos de 23 das mais importantes marcas italianas: de peças de rápida identificação, como os lustres da Artemide, a outras quase invisíveis (e que bem desempenham suas funções nos bastidores): as áreas de climatização, automação, telefonia, alarmes, painéis de captação solar, aquecimento e conservação de energia. Fazer dos moradores os reais protagonistas da cena doméstica, na imaginação de Micheli, no entanto, vai muito além de bem estudados fachos de luz. O elemento cenográfico ocupa também papel central nas suas composições. Caso, por exemplo, da montagem do quarto, no qual um simples edredom, cuidadosamente desalinhado, imprime ares teatrais à cama do casal. "Me agrada provocar reações emotivas nos visitantes", afirma, na melhor tradição italiana. Neutra em sua concepção, sensorialmente atraente e aberta às necessidades e desejos do homem contemporâneo, onde estaria, no entanto, a essência italiana na casa proposta por Micheli? "Em termos concretos, diria que na sua geometria, na sua sinuosidade de base clássica. Intimamente, porém, para mim ela é toda italiana. Como eu - de coração, cabeça e barriga."