Salve Jorge!

Marcelo Lima - O Estado de São Paulo

Coluna presta tributo ao designer polonês, radicado no Brasil, Jorge Zalszupin, morto esta semana no Rio

O designer polonês, radicado no Brasil, Jorge Zalszupin, morto na segunda-feira, 17

O designer polonês, radicado no Brasil, Jorge Zalszupin, morto na segunda-feira, 17 Foto: Mariana Chama/Passado Composto séc.XX

O que se convencionou chamar de móvel moderno brasileiro é, de fato, produto de muitas mãos. É mestiço e, até por isso, não poderia nos representar melhor. Incorpora posturas ancestrais, herdadas de nossos índios, as habilidades manuais de matriz africana. Foi produzido por brasileiros, mas sob orientação direta de mestres vindos de terras distantes, como o polonês Jorge Zalszupin.

Representante de uma geração de arquitetos pioneiros que, como Lina Bo Bardi e Gregori Warchavchik, deixaram uma Europa combalida em busca de paisagens mais arejadas para criar, Zalszupin desembarcou no Rio de Janeiro em 1949 – proveniente da Romênia, onde se refugiou durante a guerra –, em pleno carnaval e ao som de Chiquita Bacana. Como fazia questão de lembrar.

Após uma breve temporada na então capital federal, logo porém se transfere para São Paulo, onde se vê diante de uma metrópole em plena efervescência econômica e cultural. Por aqui, em associação com José Gugliota, abre seu escritório de arquitetura e deixa para sempre seu traço no desenho da cidade – na Avenida Paulista, levam sua assinatura os edifícios Sumitomo 2 e o Mercantil. 

Mas foi atuando no segmento residencial que Zalszupin veio a tomar contato com o ofício que o notabilizou por toda a vida. Como ocorria há tantos de seus colegas, a casa moderna tinha se tornado leve demais para conter os pesados móveis, de herança colonial, até então existentes. Sendo assim, para mobiliar os espaços nascentes, não havia outra opção a não ser arregaçar as mangas e redesenhar o futuro.

E foi assim, após cansar-se de projetar móveis exclusivos para as residências de seus clientes, que ele decide se associar a um grupo de marceneiros e funda a icônica fábrica de móveis L’Atelier. Responsável por uma produção revolucionária, hoje alvo da cobiça de colecionadores pelo requinte de sua execução e matérias-primas, como o jacarandá, e linhas esculturais que remetem à arquitetura.

Em décadas de atuação, transitando com a mesma desenvoltura por outros materiais, como o plástico e o metal, Zalszupin fez da leveza sua marca, até que, durante os anos 1980, a crise financeira afetou seus negócios relacionados ao design e, a partir de então, ele decide se dedicar exclusivamente à arquitetura.

Radicado há décadas no Rio e declaradamente apaixonado pela cidade – a ponto de se autoproclamar um ‘carioca desvirtuado’ –, Jorge Zalszupin se despediu do País que o acolheu: ele morreu no início desta semana, aos 98 anos, após dizer que nunca lhe seria suficientemente grato. “Por aqui conheci uma vida em que o prazer fazia parte”, declarou certa vez. E que bom que foi assim. Sua presença entre nós só deixou o Brasil – e o mundo – ainda mais belo.